Nordeste se fortalece economicamente e Faria Lima ganha novo sotaque

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Além do aumento do patrimônio, a região registra uma expansão significativa da base de investidores. (Foto: Envato Elements)

O mercado financeiro vive uma transformação no Nordeste. Em apenas sete anos, o número de gestoras de investimentos mais que dobrou na região, passando de oito, em 2019, para 20, em 2026. O avanço acompanha o crescimento do patrimônio administrado, que chegou a R$ 55,3 bilhões em 2025, alta de 20,7%, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

O movimento revela uma mudança importante no mapa financeiro brasileiro. Grandes instituições do eixo Rio-São Paulo passaram a enxergar o Nordeste como um mercado estratégico, enquanto empresas locais ampliam sua atuação em segmentos como gestão de recursos, crédito estruturado, assessoria de investimentos e mercado de capitais. A “Faria Lima” se expande e ganha um novo sotaque.

Além do aumento do patrimônio, a região registra uma expansão significativa da base de investidores. Segundo dados citados pelo mercado, os investimentos das pessoas físicas no Nordeste chegaram a R$ 790,3 bilhões em 2025, crescimento de 15,6% em relação ao ano anterior. No Tesouro Direto, o número de investidores passou de 214 mil, em 2021, para 482 mil, em 2025.

Investidores colocam o Nordeste no mapa financeiro

Para Paulo Viana (foto), sócio assessor da Prosperidade Investimentos/BTG Pactual, o crescimento da riqueza financeira e a ampliação da base de investidores ajudam a explicar a chegada de novas instituições à região. “Houve um crescimento da riqueza financeira da população. Outro fator importante é o aumento da base de investidores. Tudo isso é reflexo de processos de educação financeira e desbancarização cada vez mais fortes”, afirma.

Paulo Viana, sócio assessor da Prosperidade Investimentos/BTG Pactual. (Foto: Arquivo pessoal)

Na avaliação da consultora financeira Heloisa Branco (foto), o Nordeste atravessa um processo de amadurecimento econômico que aumenta a demanda por serviços financeiros especializados. “O mercado empresarial em expansão e a concentração crescente de famílias interessadas em planejamento financeiro tornam a região especialmente atrativa para gestoras que buscam novos clientes”, diz.

Heloisa Branco, consultora financeira. (Foto: Arquivo pessoal)

Thiago Fujiwara (foto), sócio e conselheiro da Avin Investimentos, também identifica uma mudança estrutural na demanda por serviços financeiros na região. “O Nordeste passou por um processo importante de geração e acumulação de riqueza. Naturalmente, isso aumenta a demanda por gestão profissional e soluções mais sofisticadas. Ao mesmo tempo, as grandes instituições perceberam que não é mais suficiente atender o Nordeste à distância. O relacionamento local, o conhecimento dos empresários e a compreensão das particularidades de cada mercado fazem diferença”, afirma.

Thiago Fujiwara, sócio e conselheiro da Avin Investimentos. (Foto: LC Moreira)

O movimento também está relacionado à própria transformação da economia nordestina. Para Leonardo Pessoa de Queiroz (foto), presidente da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário de Pernambuco (Ademi-PE), o crescimento econômico regional passou a chamar a atenção de investidores nacionais e internacionais. “A gente vê realmente uma economia do Nordeste puxando a economia do Brasil. Ainda há muita coisa a fazer, muitos serviços a desenvolver e um potencial turístico enorme, que abre portas tanto para o Brasil quanto para o exterior”, afirma.

Leonardo Pessoa de Queiroz, presidente da Ademi-PE. (Foto: Matheus Naster)

Segundo ele, investimentos em energia renovável e, mais recentemente, em data centers reforçam a percepção de que a região ganhou relevância no cenário internacional. “De certa forma, o Nordeste entrou no radar estratégico mundial para investimentos, e isso também atrai o olhar das gestoras brasileiras”, avalia.

Para Emanuel Mota (foto), diretor de tecnologia da Caixa de Assistência dos Profissionais do CREA-CE, a entrada mais forte do capital privado representa uma mudança de patamar para o Nordeste, especialmente para o Ceará. “A entrada robusta do capital privado muda completamente essa dinâmica, trazendo uma demanda constante por viabilidade, rentabilidade e, acima de tudo, excelência técnica“, afirma.

Emanuel Mota, diretor de tecnologia da Caixa de Assistência dos Profissionais do CREA-CE. (Foto: Arquivo pessoal)

Mota acrescenta que a transformação abre novas oportunidades para profissionais e empresas locais. “Para os profissionais da engenharia, agronomia e geociências, isso significa que é o momento de deixarmos de ser apenas executores de obras para assumirmos o papel de verdadeiros estruturadores de negócios. O capital privado foge do amadorismo, o que valoriza imensamente a nossa capacidade técnica”, destaca.

O CEO da CR Duarte Engenharia e vice-presidente da Comissão de Habitação de Interesse Social da CBIC, Clausens Duarte (foto), também aponta uma mudança estrutural na economia regional. “O Nordeste deixou de ser só mercado consumidor e passou a gerar riqueza própria, com turismo, energia renovável, agronegócio e um mercado imobiliário aquecido, puxado pelo Minha Casa Minha Vida“, afirma.

Clausens Duarte, CEO da CR Duarte Engenharia e vice-presidente da Comissão de Habitação de Interesse Social da CBIC. (Foto: Arquivo pessoal)

Para ele, a infraestrutura tecnológica reforça a atratividade da região. “Fortaleza é hub de conectividade internacional, por onde chegam os cabos de fibra ótica que ligam a Europa à América do Sul. Isso, somado a uma matriz energética limpa, criou o ambiente ideal para atrair data centers globais. Onde vai tecnologia e infraestrutura de ponta, capital financeiro vem atrás”, avalia.

Concorrência maior pode melhorar serviços e ampliar acesso a investimentos

A chegada de gestoras e instituições financeiras de grandes centros tende a aumentar a competição no mercado regional. Para os investidores, isso pode significar maior variedade de produtos, redução de custos, mais transparência e serviços especializados. “Mais oferta de produtos financeiros, mais estratégias de investimentos, melhor qualidade nos serviços prestados, mais transparência e redução de custos. O que é muito bom para os investidores locais”, explica Paulo Viana.

Heloisa Branco destaca que o impacto não está apenas na quantidade de produtos disponíveis, mas também na evolução do atendimento. “O principal é o aumento da competitividade, elevando a qualidade dos serviços financeiros oferecidos. A população passa a ter acesso a um atendimento mais especializado, produtos mais sofisticados e maior concorrência entre as instituições”, afirma.

A tendência, segundo a consultora, é de uma transformação do relacionamento entre investidores e instituições. O atendimento deve se tornar cada vez mais consultivo, levando em consideração objetivos financeiros, organização patrimonial e planejamento de longo prazo. “Quando o cliente entende seus objetivos antes de escolher um investimento, a tomada de decisão se torna mais eficiente e sustentável no longo prazo”, ressalta.

Entre as soluções que podem ganhar espaço estão gestão patrimonial, fundos exclusivos, previdência privada, planejamento sucessório, crédito estruturado e operações no mercado de capitais.

Para Clausens Duarte, a competição tende a elevar a sofisticação do mercado, mas também impõe uma responsabilidade às empresas locais. “O impacto da chegada das instituições do eixo Rio-São Paulo é de mais competição e sofisticação, o que é bom para o cliente”, afirma.

Ao mesmo tempo, ele alerta que o Nordeste precisa transformar a chegada desse capital em uma oportunidade de desenvolvimento regional. “O desafio das empresas locais é não virar só ‘praça de captação’, e sim usar o conhecimento regional como diferencial“, destaca.

Thiago Fujiwara chama atenção para outro aspecto desse processo: a necessidade de transformar a riqueza existente na região em projetos capazes de acessar o mercado de capitais. “Existe uma diferença importante entre ter dinheiro disponível e ter projetos financiáveis. O Nordeste possui vantagens enormes em energia renovável, infraestrutura, logística, saneamento, turismo, mercado imobiliário e agronegócio. Quanto maior a presença de gestores, bancos e investidores institucionais, maior a capacidade de conectar esses projetos ao mercado de capitais“, afirma.

Recife, Fortaleza e Salvador disputam protagonismo financeiro

Embora Recife e Fortaleza concentrem boa parte do movimento, Salvador também aparece como um importante polo de atração de investimentos. As três capitais apresentam características econômicas capazes de sustentar a expansão do setor financeiro.

Para Paulo Viana, Recife, Fortaleza e Salvador já podem ser consideradas as principais referências financeiras do Nordeste.

Fortaleza se destaca pelo tamanho de sua economia, enquanto Recife reúne um forte ecossistema de tecnologia e inovação, com o Porto Digital como um de seus principais ativos. Heloisa Branco classifica Recife e Fortaleza como um verdadeiro “Oceano Azul”, diante do espaço para crescimento dos serviços financeiros especializados. “As duas capitais se destacam como os principais polos financeiros da região. Essas cidades são um verdadeiro ‘Oceano Azul’, um mar de oportunidades que podem e devem ser explorados”, afirma.

Na avaliação de Leonardo Pessoa de Queiroz, a combinação entre infraestrutura, logística, tecnologia e investimentos coloca as duas capitais em posição privilegiada. “Recife e Fortaleza têm tudo para se tornarem capitais financeiras do Nordeste. As duas possuem infraestrutura, logística e uma série de investimentos já realizados que dão condições para esse desenvolvimento”, afirma.

Recife conta ainda com a proximidade do Porto de Suape e uma localização estratégica em relação à Europa e à América do Norte. Fortaleza, por sua vez, ganha destaque com projetos relacionados ao hidrogênio verde e à instalação de data centers.

Para Emanuel Mota, o Ceará reúne condições para avançar justamente em setores ligados à infraestrutura do futuro. “O nosso estado tem um potencial imenso para se consolidar como um hub estratégico de conectividade e abrigar grandes data centers, projetos que exigem um volume massivo de engenharia civil, elétrica e de telecomunicações”, explica.

Ele acrescenta que a matriz energética também cria oportunidades. “Nossa consolidada matriz de energias renováveis, como a solar e a eólica, demanda a construção e a modernização de extensas linhas de transmissão de energia”, afirma Mota.

O desafio é descentralizar o mercado e formar um novo ecossistema financeiro

Apesar do avanço, o mercado financeiro nordestino ainda enfrenta desafios para se expandir para além de Recife, Fortaleza e Salvador. Entre os principais estão a formação de profissionais especializados, a educação financeira e o desenvolvimento de uma cultura mais consolidada de planejamento.

Para Paulo Viana, outros estados precisam superar três obstáculos principais: mudança na cultura dos investidores locais, menor disponibilidade de profissionais especializados e tamanho reduzido dos mercados.

Heloisa Branco também considera fundamental fortalecer a educação financeira e ampliar a formação de profissionais. “O principal desafio é desenvolver um ecossistema financeiro sólido, que vá além da oferta de investimentos. É necessário ampliar a educação financeira, formar profissionais qualificados e fortalecer a cultura do planejamento financeiro entre pessoas e empresas”, afirma.

Thiago Fujiwara avalia que a expansão do mercado financeiro regional precisa vir acompanhada de uma profissionalização maior das empresas. “Esse talvez seja o ponto central. Capital existe, mas capital profissional exige governança. Para esse crescimento acontecer de forma segura e sustentável, os projetos precisam nascer mais estruturados: estudos de viabilidade consistentes, governança, demonstrações financeiras confiáveis, segurança jurídica, licenciamento adequado, bons contratos e uma estrutura de capital compatível com a geração de caixa. Por isso, o desenvolvimento do mercado financeiro regional também está profissionalizando as próprias empresas nordestinas”, afirma.

A expansão, entretanto, não significa necessariamente uma disputa direta com São Paulo. O movimento tende a criar polos regionais capazes de reter investidores, atrair talentos e aproximar instituições financeiras dos negócios locais. “O fortalecimento regional pode aumentar a retenção de investidores nordestinos, embora considere improvável uma concorrência direta com São Paulo”, avalia Paulo Viana.

Para Heloisa, o objetivo é consolidar Recife e Fortaleza como hubs financeiros regionais, enquanto Salvador amplia sua participação. “O objetivo não é substituir os grandes centros, mas consolidar Recife e Fortaleza como importantes hubs financeiros regionais. Salvador também já vem conquistando um bom espaço no Nordeste e sendo bastante requisitada por novos investidores do mercado”, afirma.

Clausens Duarte reforça que a descentralização, porém, depende de fatores estruturais. “Os principais desafios para avançar além de Recife e Fortaleza são mão de obra qualificada, infraestrutura e renda concentrada nas capitais”, explica.

Segundo ele, a expansão das gestoras seguirá a concentração de patrimônio e atividade econômica. “Gestora só abre onde tem patrimônio relevante para administrar. Por isso, a descentralização depende da criação de novos polos de riqueza no interior e em outras capitais”, avalia.

Para Fujiwara, a consolidação desse novo ecossistema também passa pela formação de talentos e pela aproximação entre empresas e instituições financeiras. “Precisamos formar profissionais aqui, desenvolver gestores locais, aproximar empresários do mercado de capitais e criar uma relação de longo prazo entre investidores, empresas, universidades, governos e instituições financeiras. O grande salto do Nordeste acontecerá quando conseguirmos transformar a riqueza gerada aqui em capital profissional, e esse capital em novos investimentos dentro da própria região”, afirma.

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