O Ceará terá uma fábrica dedicada à produção de curativos biológicos de pele de tilápia em escala industrial. O Consórcio Biotec, por meio da Inova Medical, conduz o projeto em Jaguaribara, no Vale do Jaguaribe, a 228 quilômetros de Fortaleza. O investimento inicial previsto para a primeira fase chega a R$ 52 milhões.
A iniciativa envolve a transferência de uma tecnologia desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC). O produto atende ao tratamento de queimaduras de segundo e terceiro graus e de feridas de difícil cicatrização.
Além disso, existe demanda potencial no mercado brasileiro e no exterior. Segundo dados apresentados no projeto, o Sistema Único de Saúde (SUS) registra mais de 1 milhão de pessoas queimadas por ano no Brasil.
Fábrica amplia capacidade de produção
A nova unidade terá capacidade para processar 4.300 peles de tilápia por dia no primeiro ano de operação comercial. Depois, uma segunda etapa poderá elevar o volume para 12 mil unidades diárias.
No início das atividades, a fábrica deverá processar cerca de 180 mil peles por mês. Em seguida, a capacidade poderá alcançar 400 mil unidades mensais ao final do terceiro ano.
Com isso, o projeto também prevê a criação de empregos no município. A estimativa aponta para 120 postos diretos no primeiro ano, 204 no segundo e 300 no terceiro ano de operação.
Da mesma forma, a projeção de faturamento acompanha o crescimento da produção. A receita poderá chegar a R$ 58 milhões no primeiro ano. Quando a unidade atingir a capacidade prevista, o valor poderá alcançar R$ 130 milhões por ano.
Pesquisa da UFC chega à indústria
A pesquisa que desenvolveu a tecnologia começou no ambiente acadêmico. O pesquisador Odorico de Moraes, professor do curso de Medicina da UFC e coordenador do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM), coordenou parte dos trabalhos.
Atualmente, o NPDM mantém em Fortaleza o Laboratório de Pesquisa da Pele de Tilápia. O espaço consegue processar até 600 peles por mês para pesquisas e atendimentos pontuais.
Agora, a transferência da tecnologia para uma unidade industrial amplia a escala do projeto. Segundo Luciano Foianesi, CEO da Inova Medical, a fábrica poderá atender 20% da demanda nacional relacionada ao setor de queimados.
Ao mesmo tempo, a produção utilizará subprodutos da piscicultura do Açude Castanhão como matéria-prima. Dessa forma, o projeto conecta a pesquisa científica à cadeia produtiva do interior do Ceará.
Processo permite armazenamento sem refrigeração
A fábrica utilizará liofilização e esterilização por radiação gama na preparação dos curativos. Esse processo permite conservar o material em temperatura ambiente e elimina a necessidade de refrigeração.
Na hora do uso, o profissional precisa apenas reidratar o curativo com soro fisiológico. Assim, o produto pode chegar a locais com menor estrutura de armazenamento.
Por esse motivo, a tecnologia também amplia as possibilidades de aplicação em regiões remotas, áreas de conflito e locais afetados por desastres.
Além do mercado brasileiro, o projeto prevê atuação internacional. A estimativa indica que cerca de 50% da produção poderá seguir para outros países, com foco em mercados da Europa, das Américas e da Ásia.
Projeto reúne pesquisa e setor produtivo
A implantação da fábrica envolve instituições públicas, universidades e empresas. Entre elas estão a UFC, por meio do NPDM, o Instituto José Frota (IJF), o Instituto de Apoio ao Queimado (IAQ) e o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN).
Também participam a Secretaria do Desenvolvimento Econômico do Ceará (SDE), a Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará (Adece) e a BIOTEC Medical Xenograft Engineering.
Além da produção de curativos, o projeto cria uma nova aplicação para subprodutos da piscicultura. Ao mesmo tempo, aproxima pesquisa, indústria e saúde em uma cadeia produtiva instalada no interior do Estado.
Com a entrada da fábrica em operação, a tecnologia desenvolvida no Ceará poderá alcançar uma escala maior de produção. O projeto também abre espaço para o fornecimento dos curativos ao mercado nacional e para futuras exportações.
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