Cauteloso, mercado financeiro espera pelo fim da guerra

mercado financeiro
Para especialista, o atual momento do mercado financeiro é desafiador diante de um cenário que mistura taxas de juros ainda muito altas, nível de atividade estagnado desde o último ano e um quadro preocupante de inadimplência. (Foto: Envato Elements)

É possível vislumbrar oportunidades reais para o Brasil diante de um ciclo de juros ainda elevados e pressão fiscal recorrente? Como avaliar o futuro considerando a política monetária ainda restritiva em economias centrais e, principalmente, frente às prolongadas tensões geopolíticas que impactam questões estratégicas como energia e cadeias produtivas? Na platéia, o Brasil e o mundo torcem pelo fim da guerra entre Estados Unidos/Israel e Irã e seus pesados respingos nas economias do Planeta. Tudo aos olhos de um investidor cauteloso.


Quer receber os conteúdos da TRENDS no seu smartphone?
Acesse o nosso canal no Whatsapp e fique bem informado


Momento desafiador

Para Rogério Sobreira (foto), economista-chefe do Banco do Nordeste (BNB), o atual momento do mercado financeiro é desafiador diante de um cenário que mistura taxas de juros ainda muito altas, nível de atividade estagnado desde o último ano e um quadro preocupante de inadimplência. Trata-se de uma combinação que contribui para ampliar o nível de aversão ao risco dos bancos que assistem às idas e vindas de um prometido final de guerra, e reforçando a preocupação com a elevação dos preços de insumos como petróleo e fertilizantes.

Rogério Sobreira, economista-chefe do BNB. (Foto: Arquivo pessoal)

“O BNB não está trabalhando com o agravamento dos conflitos, mas com uma guerra de baixa intensidade”, afirma Sobreira, que vislumbra espaço para que o Banco Central, mesmo cauteloso, siga em frente na trajetória de quedas de taxas de juros. Sua expectativa é de fechar 2026 com uma taxa de 12,5%.

Para ele, os EUA não parecem dispostos a levar a guerra ao estágio 3, o mais agressivo, diante da capacidade relevante de reação e de resistência demonstrada pelo Irã. “Uma escalada adicional poderia gerar consequências econômicas globais potencialmente difíceis de administrar”, avalia. Ele aposta numa saída honrosa para evitar a estagflação. Basta lembrar a lição histórica dos choques do petróleo dos anos 1970, quando o preço do barril subiu quase 180%.

Para quem acompanha a movimentação de negócios do BNB em sua área de atuação, Sobreira sabe que tanto as pessoas físicas como as jurídicas já sentem os impactos da guerra. Os bancos adotaram maior cautela nas concessões reduzindo prazos tanto no crédito livre como no direcionado, o que atinge quem produz, especialmente as micro e pequenas empresas. O fato, conforme ele, demonstra que “os juros elevados por muito tempo estão começando a rachar o casco da economia, tornando-se um problema sistêmico”.

A seu ver, em ano eleitoral, o que se espera é que o governo faça uso da política fiscal com ações compensatórias capazes de aliviar o desconforto das altas de preço porque mesmo que os conflitos mundiais cessem, a retomada não será imediata.

Momento perigoso

Para o economista Sérgio Melo (foto), sócio-fundador do Grupo SM e presidente da Academia Cearense de Economia, a combinação de juros elevados e descontrole fiscal é perigosa para qualquer país com efeitos danosos sobre os projetos. Adicionalmente, a geopolítica afeta a todos com o aumento do custo de combustível, fazendo antever algum descontrole na inflação e muito provavelmente uma taxa de juros elevada (atualmente de 14,5%), sem perspectiva de queda.

Sérgio Melo, sócio-fundador do Grupo SM e presidente da Academia Cearense de Economia. (Foto: Arquivo pessoal)

“A confiança que estava começando a aparecer nessa trajetória de queda da taxa de juros, muito provavelmente deve ser paralisada”, acredita. Com isso, o recurso financeiro que poderia ser aplicado em operações produtivas, criação e expansão de empresa e novos negócios foge do risco e busca segurança em ativos com alguma proteção como ouro e eventualmente o dólar.

Nesse contexto, a falta de crédito entra como protagonista relevante. O presidente da Academia Cearense de Economia observa que no Brasil o crédito está caro, represado e extremamente restrito, o que segura e dificulta o crescimento. “É hora de preservar o caixa ao máximo para manter a continuidade dos negócios e passar por esse momento de dificuldade”, recomenda Sérgio Melo, complementando que além do cenário global negativo, o Brasil tem problemas internos como o descontrole das contas públicas.

E embora a bolsa brasileira esteja passando por um momento razoavelmente bom pela atratividade do mercado de capitais, as empresas ainda estão precificadas por um valor menor do que efetivamente poderiam estar, o que estimula investidores principalmente internacionais a aplicarem nas bolsas brasileiras provocando um crescimento importante para o mercado de capitais. Ele alerta, entretanto, que o mercado de ações, especialmente no Brasil, mostra sinais de alerta. Após forte alta, o potencial de valorização futura diminui, aumentando o risco de quedas. “É hora de cautela para investidores, pois ações que subiram muito recentemente podem se desvalorizar”, afirma.

Momento complicado

Sérgio Vale (foto), economista-chefe da MB Associados, classifica o momento como complicado, especialmente considerando que a guerra se soma a um cenário doméstico de juros altos e sobretaxas nas exportações. “Em três meses vivemos problemas de uma geração”, ilustra, antevendo agravamento no segundo semestre diante das eleições no Brasil e nos Estados Unidos. “O cenário de guerra ainda está em aberto e sem sinalizações de arrefecimento de parte do Irã e dos Estados Unidos, impactando o preço do petróleo e pressionando a inflação”, comenta.

Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados. (Foto: Arquivo pessoal)

A guerra e suas conseqüências poderão influenciar o Banco Central a reduzir o ritmo de queda das taxas de juros nas próximas reuniões, mantendo o crédito caro e ampliando ainda mais a inadimplência. Mesmo assim, ainda não está no horizonte de Sérgio Vale um quadro de inflação aguda: “tudo vai depender da guerra”, finaliza.

Momento de atenção

João Mário de França (foto), pesquisador do FGV IBRE e professor da Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal do Ceará, diz que em momentos de tensões geopolíticas e crises de confiança o capital procura investimentos mais seguros como ações e títulos dos EUA. “Esse movimento também ocorre para determinados setores impulsionados por maior rentabilidade como os de tecnologia (IA), energia, petróleo e também para o caso de alguns mercados emergentes como a Índia”, exemplifica.

João Mário de França, pesquisador do FGV IBRE e professor da Pós-Graduação em Economia da UFC. (Foto: Arquivo pessoal)

O fato altera o comportamento do investidor. Entre as mudanças apontadas pelo professor está o aumento da diversificação e risco, embora a alocação em renda fixa continue forte. Também aumentam os investimentos no exterior com declínio da poupança. Segundo Mário de França, a digitalização bancária e abertura de fintechs também contribuem para esse ambiente de maior acessibilidade/facilidade para realizar investimentos pessoais.

No que diz respeito ao crédito, o que ele observa é que segue se expandindo. Ocorre que essa expansão é extremamente desigual. “Enquanto o crédito ampliado cresce impulsionado por títulos públicos e privados financiando o governo federal e grandes empresas, as famílias permanecem dependentes de crédito bancário enfrentando altas taxas de juros e elevada inadimplência”, explica, concluindo que o custo recai em quem tem menor acesso a alternativas de crédito.

No contexto atual com juros extremamente elevados, cenário externo muito desafiador e incertezas fiscais e eleitorais, o professor acredita que boa parte das empresas deve estar adiando investimentos e adotando uma gestão financeira mais cautelosa de preservação do caixa, o que afeta mais fortemente as empresas menores, dependentes de um crédito bancário com maior taxa de juros, o que se soma às dificuldades de gestão financeira e na transformação digital.

Momento de oportunidades

Para Lauro Chaves Neto (foto), professor da UECE, há ainda muitas oportunidades a serem exploradas pelo Brasil, mesmo diante da pressão fiscal recorrente e das crescentes incertezas externas. Sua ressalva, entretanto, é que o Brasil precisa ter escolhas muito criteriosas para saber quais riscos o investidor quer correr. E o maior deles, em âmbito doméstico, a seu ver, é o fiscal porque a credibilidade da política fiscal segue como uma variável-chave. A relação dívida-PIB do Brasil aumentou muito nos últimos anos, sendo um dos fatores que mantém a taxa Selic alta, reduzindo a margem de se ter uma taxa de juros competitiva.

Lauro Chaves Neto, professor da UECE. (Foto: Arquivo pessoal)

Aliado a isso, no ambiente global, igualmente com juros elevados, especialmente nas economias mais desenvolvidas, o fluxo de capital também fica alterado, da mesma forma que desorganiza as cadeias produtivas. “O capital internacional é sempre seletivo e sempre vai privilegiar a segurança e a previsibilidade e as empresas vão sempre adotar uma postura defensiva, preservando caixa e deixando grande parte de seus recursos em ativos de menor nível de risco”.

Para o professor, há espaço para um novo ciclo de valorização na bolsa brasileira, normalmente considerada muito barata por conta da ainda baixa representatividade de empresas de capital aberto em relação ao universo empresarial nacional. A valorização, entretanto, está bastante atrelada à melhoria da gestão fiscal, queda dos juros e do cenário externo, que foge ao controle interno. “Enquanto isso não ocorre, precisamos ter muita disciplina e um olho muito clínico”, diz. Lauro Chaves Neto recomenda cautela às empresas e investidores que precisam ter uma parte de sua carteira em ativos de baixo risco para poder explorar outra parte nas oportunidades nas bolsas de valores.

Saiba mais:

FMI: Brasil volta ao Top 10 das maiores economias em 2026

“Meta é induzir que o gasto público cresça menos do que o desenvolvimento da economia”, destaca economista