Empresas cearenses que vendem para os Estados Unidos e enfrentam impacto das novas tarifas norte-americanas poderão recorrer às linhas de crédito do Plano Brasil Soberano. O governo federal reservou R$ 5 bilhões para apoiar exportadores prejudicados pelas barreiras comerciais.
A medida ganhou forma com a regulamentação publicada nesta semana. Ao todo, o programa distribui R$ 13,5 bilhões entre empresas exportadoras e segmentos considerados estratégicos para o comércio exterior.
No Nordeste, o potencial de impacto é relevante. Estimativa do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (Etene), ligado ao Banco do Nordeste (BNB), aponta que mais de US$ 450 milhões em exportações da região ficaram expostos às novas tarifas no primeiro semestre de 2026.
Produtos cearenses entram no radar
O levantamento do Etene mostra que oito dos 15 principais produtos vendidos pelo Nordeste aos EUA estão sujeitos às novas cobranças. Juntos, esses itens representam 36% das exportações regionais para o mercado norte-americano.
Entre os produtos afetados estão açúcar, semimanufaturados de ferro e aço, calçados de couro e sisal. Por outro lado, a sobretaxa não alcança produtos como castanha de caju, manga, água de coco, cacau e café em grão.
O cenário interessa diretamente ao Ceará. Afinal, o Estado mantém uma participação relevante nas exportações nordestinas para os Estados Unidos. Em 2024, Ceará, Bahia, Pernambuco e Rio Grande do Norte responderam por 62,6% das exportações brasileiras de frutas frescas para o mercado norte-americano.
Além disso, os Estados Unidos representaram cerca de 12% das exportações do Nordeste em 2025. Naquele ano, a região vendeu US$ 24,8 bilhões ao exterior, segundo dados da plataforma Data Nordeste, da Sudene.
Empresas podem financiar adaptação
O crédito do Brasil Soberano pode ajudar empresas a enfrentar os efeitos da mudança comercial. Os recursos podem financiar capital de giro, máquinas, equipamentos, inovação, adaptação de processos e expansão da capacidade produtiva.
Além das empresas exportadoras, fornecedores ligados às cadeias afetadas também podem buscar financiamento. Com isso, o programa amplia o alcance da política para além das companhias que realizam diretamente os embarques.
A regulamentação também distribui outros R$ 8,5 bilhões entre diferentes setores. Desse total, R$ 3,5 bilhões atendem exportadores e fornecedores relacionados aos países do Golfo Pérsico.
Os outros R$ 5 bilhões seguem para atividades estratégicas. A indústria em geral recebe R$ 1 bilhão. Já as cadeias de adubos e fertilizantes e de minerais críticos ficam com R$ 2 bilhões cada.
Tarifa pode chegar a 37,5%
As novas cobranças dos Estados Unidos começaram a valer em 22 de julho. A política combina uma tarifa de 25% sobre determinados produtos brasileiros com uma cobrança adicional de 12,5% para itens enquadrados nas regras norte-americanas de combate ao trabalho forçado.
Quando as duas alíquotas incidem sobre o mesmo produto, a cobrança chega a 37,5%. Em todo o país, 639 produtos brasileiros entraram na lista afetada pelas novas medidas, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
Nesse cenário, empresas exportadoras precisam lidar tanto com o aumento do custo para o comprador norte-americano quanto com a possibilidade de perda de competitividade.
BNDES ainda ajusta operações
Apesar da regulamentação dos recursos, o acesso ao crédito ainda não ocorre de forma integral. Desde 31 de julho, o BNDES suspendeu temporariamente novos pedidos nas modalidades Giro e Giro Exportação do programa Brasil Soberano Competitividade.
Segundo a regulamentação, o banco deverá informar mensalmente ao Conselho Interministerial os financiamentos aprovados, contratados e desembolsados. Os dados também deverão indicar o porte das empresas, a finalidade dos recursos e o Estado beneficiado.
Assim, para o Ceará, o programa cria uma alternativa de financiamento em um momento de maior pressão sobre parte das exportações. Ao mesmo tempo, os recursos podem ajudar empresas a adaptar a produção, preservar mercados e buscar novos destinos para seus produtos.
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