O ESG já é realidade no agro brasileiro?

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O país avançou nas práticas de sustentabilidade a começar pela legislação ambiental abrangente, sistemas sanitários, experiência exportadora e cadeias capazes de responder às novas demandas. (Foto: Envato Elements)

Ao colher mais de 360 milhões de toneladas de grãos na atual safra de 2025/2026 registrando recordes consecutivos, o agronegócio brasileiro consolida sua relevância no cenário econômico nacional representando um quarto do Produto Interno Bruto (PIB). Igualmente é protagonista quanto se trata de desempenho no mercado internacional, respondendo por metade da pauta exportadora verde-amarela e gerando divisas da ordem de quase US$ 170 bilhões em 2025.

A discussão sempre presente tem sido saber se o agribusiness nacional está preparado para continuar avançando no mercado internacional, considerando exigências cada vez maiores envolvendo as crescentes e rigorosas regulamentações ambientais, a obrigatoriedade de rastreabilidade da produção, as certificações socioambientais e as due diligence nas cadeias de fornecimento, alguns dos pilares que integram o conceito ESG (Environmental, Social, and Governance), um conjunto de práticas e critérios que mede o impacto ético, socioambiental e administrativo de uma empresa, um setor ou um país.

O Brasil ocupa hoje uma posição de destaque na inovação aplicada ao agro sustentável. Referência em tecnologias tropicais desenvolvidas pela Embrapa e por universidades, lidera a adoção de práticas como plantio direto, fixação biológica de nitrogênio e integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), além de registrar um dos mercados de bioinsumos que mais cresce no mundo. Também avançam rapidamente a agricultura regenerativa, a agricultura de precisão e soluções voltadas ao uso mais eficiente da água, dos fertilizantes e da energia.

O país avançou nas práticas de sustentabilidade a começar pela legislação ambiental abrangente, sistemas sanitários, experiência exportadora e cadeias capazes de responder às novas demandas. Mas ainda precisa progredir na interoperabilidade dos dados, na rastreabilidade de fornecedores diretos e indiretos e na assistência técnica aos produtores, encurtando a distância entre realidades extremas dos pequenos e grandes produtores. Para isso, será preciso ampliar a conectividade no meio rural, fortalecer a assistência técnica e investir na capacitação de produtores e profissionais, para que as inovações alcancem um número cada vez maior de propriedades e cadeias produtivas.

ESG é desafio e oportunidade

O engenheiro agrônomo Roberto Araújo (foto), gerente de Relações Institucionais e Sustentabilidade da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), parte do princípio básico de que ESG há muito deixou de ser uma agenda predominantemente reputacional para se tornar um fator estratégico de competitividade no comércio internacional. Consumidores, investidores e, principalmente, importadores passaram a incorporar os critérios ESG em suas decisões de compra, financiamento e gestão de riscos.

Roberto Araújo, gerente de Relações Institucionais e Sustentabilidade da ABAG. (Foto: Arquivo pessoal)

Além de qualidade, preço e regularidade de fornecimento, cresce a demanda por rastreabilidade, transparência, conformidade legal e evidências de produção sustentável. “Para o agronegócio brasileiro, essa transformação representa tanto um desafio quanto uma oportunidade”, afirma o mestre em agronegócios ela Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Se, de um lado, a exigência aumenta a necessidade de atender a novos requisitos regulatórios e de mercado; de outro, cria condições para agregar valor aos produtos, ampliar o acesso a mercados mais exigentes, atrair investimentos e fortalecer o posicionamento do Brasil como fornecedor confiável de alimentos, fibras e bioenergia produzidos de forma sustentável.

Para a ABAG, o agronegócio brasileiro reúne condições para continuar avançando no mercado internacional, mas a adaptação às novas exigências ainda ocorre em velocidades diferentes. As cadeias mais organizadas e integradas já incorporaram rastreabilidade, controles sanitários, certificações, auditorias e procedimentos de diligência socioambiental. “O principal desafio é ampliar essas práticas para todos os fornecedores, especialmente produtores de menor porte, e integrar informações hoje distribuídas entre sistemas públicos e privados”, alerta Roberto Araújo, apontando maior capacidade de adaptação das cadeias exportadoras pela sua experiência. Ele refere-se a setores como soja, café, açúcar, suco de laranja e carne de frango, onde o Brasil mantém liderança mundial em comércio exterior e onde já atende mercados com elevados padrões sanitários, ambientais e comerciais.

Brasil na ponta

Entre os bons exemplos, Araújo cita a avicultura, que deu liderança na pauta exportadora ao Brasil com mais de US$ 1,0 bilhão somente no último mês de maio. O setor já opera com elevado nível de integração entre produtores, agroindústrias e fornecedores, com controles de sanidade, biosseguridade, qualidade e rastreabilidade por lotes.

Outra referência é a cafeicultura, cujos exportadores e produtores vêm ampliando o uso de certificações, georreferenciamento, monitoramento socioambiental e plataformas de rastreabilidade. A propósito, a Plataforma de Rastreabilidade Cafés do Brasil foi criada para permitir a verificação da origem e do atendimento a critérios socioambientais exigidos pelos mercados internacionais. De acordo com o CECAFÉ, o país fornece aproximadamente 40% dos cafés reconhecidos como sustentáveis por equivalência ao Código de Referência de Sustentabilidade do Café. Soja, açúcar, algodão, frutas e carne bovina, igualmente, avançam em mecanismos de rastreabilidade e certificação.

Para Araújo, o ESG como estratégia de competitividade não apenas amplia o acesso a mercados, investidores e fontes de financiamento. A adoção de boas práticas contribui para otimizar o uso de água, energia, fertilizantes e outros insumos, reduzir desperdícios, aumentar a eficiência operacional e melhorar as margens de produção porque, em muitos casos, sustentabilidade e produtividade caminham juntas.

Aos que ainda não entenderam esta lógica, Roberto Araújo alerta que a falta de investimentos em inovação e tecnologias digitais, rastreabilidade, transparência e gestão sustentável resultarão em custos crescentes de conformidade, restrições de acesso a determinados mercados e perda de competitividade nas cadeias globais de valor. “Para o agronegócio brasileiro, o desafio é transformar suas reconhecidas vantagens em produtividade e produção de baixo carbono em evidências verificáveis, agregando valor às exportações e consolidando sua posição como fornecedor confiável no mercado internacional”, afirma.

Agricultura de precisão em alta

O número de drones agrícolas em operação cresceu de cerca de 3 mil para mais de 32 mil em 2025, com projeção superior a 45 mil unidades em 2026.

Financiamento verde

O financiamento sustentável vem ganhando espaço no Brasil, impulsionado pela expansão de instrumentos como títulos verdes, o Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA) com critérios socioambientais, financiamentos vinculados a metas ESG e programas públicos como o Plano ABC+, voltado à adoção de tecnologias de baixa emissão de carbono. O mercado também observa maior participação de instrumentos privados de financiamento vinculados a metas de sustentabilidade. Esse movimento acompanha uma tendência global de direcionamento de capital para atividades capazes de demonstrar maior resiliência climática, menor risco socioambiental e melhor desempenho de longo prazo.

Ao mesmo tempo, o crédito rural brasileiro atravessa um período desafiador, marcado por juros elevados, aumento do endividamento dos produtores, crescimento dos pedidos de recuperação judicial e maior seletividade das instituições financeiras. Nesse contexto, investidores e financiadores avaliam cada vez mais a capacidade das empresas de gerenciar riscos ambientais, sociais e de governança, além dos indicadores financeiros tradicionais. Empresas com maior transparência, rastreabilidade, boa governança e gestão eficiente dos recursos tendem a transmitir maior segurança, ampliar o acesso a diferentes fontes de capital e reduzir sua percepção de risco em um ambiente de crédito cada vez mais restritivo.

A adequação às exigências internacionais demanda investimentos em tecnologia, gestão e capacitação, cujo impacto é muito diferente para grandes empresas e para pequenos e médios produtores. Soma-se o fato de os conflitos internacionais elevarem os custos de fertilizantes, energia, combustíveis e fretes, enquanto juros elevados, redução dos preços de algumas commodities, aumento do endividamento rural, eventos climáticos extremos e incertezas associadas ao ciclo eleitoral ampliaram a percepção de risco.

O desafio das políticas públicas e das cadeias agroindustriais será justamente criar condições para que a agenda da sustentabilidade continue avançando sem comprometer a competitividade e a viabilidade econômica da produção.

O cenário, entretanto, não retira o futuro promissor do Brasil no comércio exterior, dada sua condição quase única para atender à crescente demanda mundial por alimentos, fibras, bioenergia e biomateriais produzidos de forma sustentável. “O Brasil se caracteriza como uma potência agroambiental porque combina elevada capacidade produtiva com a conservação de grande parte de seu território”, afirma Araújo, lembrando que segundo dados da Embrapa, 65,6% do território nacional correspondem a áreas destinadas à proteção, preservação e conservação da vegetação nativa, enquanto o uso agropecuário ocupa 31,3%.

A essa base somam-se a agricultura tropical desenvolvida pela ciência, a capacidade tecnológica dos produtores, a disponibilidade de recursos naturais e uma matriz energética com elevada participação de fontes renováveis.

ESG é exigência, não opção

O Programa Frutas do Brasil ESG, desenvolvido pela Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), acaba de ser reconhecido oficialmente pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) pelo seu modelo da fruticultura nacional de produção baseada em sustentabilidade, responsabilidade socioambiental e boas práticas de governança. Com essa credencial é que a diretora de ESG da Abrafrutas, Priscilla Nasrallah (foto) garante que o Brasil está preparado para prosseguir na jornada vencedora de produtor e exportador mundial de alimentos dentro das regras da sustentabilidade.

Priscilla Nasrallah, diretora de ESG da Abrafrutas. (Foto: Arquivo pessoal)

Diretora-sócia da Lona Frutas, produtora de uva e manga no Vale do São Francisco (Santa Maria da Boa Vista-PE), ela garante que a fruticultura exportadora já é toda certificada, até como condição para o acesso a mercados internacionais, onde as boas práticas agropecuárias são obrigatórias e não uma opção. “O ESG começou a ser exigido dos supermercados para os distribuidores e, consequentemente, dos produtores. Como fornecedores, temos que apresentar relatórios de rastreabilidade desde o pallet, a caixa, a fita que amarra o pallet e todo o processo, envolvendo a poda, no caso da agricultura perene, até a entrada no container”, detalha ela, ciente de que este é um caminho sem volta.

Com a segurança de quem já domina esta realidade, Priscilla Nasrallah assegura que como agricultura tropical, ainda é preciso trabalhar melhor a inteligência e ciência porque capacidade produtiva e tecnologia dentro dos biomas brasileiros já existem. “Somos muito mais produtivos que muitos países produtores e a grande maioria já é ESG da porteira para dentro”, diz ela, que vai além. “O agro brasileiro é 100% preparado para cumprir as exigências internacionais e não só de entrar nos moldes, mas liderar o processo de exigências de ESG global em sustentabilidade e rastreabilidade na produção”, garante.

A estratégia, conforme ela, é não perder a oportunidade de estar presente em mercados com maior poder aquisitivo, que pagam mais pela rastreabilidade e certificação. E acrescenta que quanto mais transparente for toda a cadeia produtiva, mais o comprador prefere, porque, do contrário, corre-se o risco de manter o país refém de mercados que pagam menos, que não têm essas mesmas regras, o que vale também para o mercado interno.

Bioinsumos e carbono neutro

Priscilla Nasrallah observa que o Brasil é campeão em uso de bioinsumos no mundo e avança em outras frentes como a agricultura regenerativa. Igualmente trabalha na redução das emissões de carbono. No caso da fruticultura, ela cita a mangueira e o limoeiro como bons exemplos de plantas que retêm bastante carbono em sua raiz, da mesma forma que os parreirais e pomares antigos.

A Fazenda Lina Frutas, exemplifica, é carbono negativo, mas ela admite que o agro brasileiro ainda não aprendeu suficientemente a capitalizar este diferencial. O mesmo ocorre com outras práticas sustentáveis como o uso eficiente de água e de recursos naturais, o trabalho com fertirrigação, com irrigação direta e controlada do rio. “O Brasil é realmente líder nessas tecnologias de campo”, assegura.

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