A agropecuária cearense deve recuar 4% em 2026 e 1% em 2027, segundo projeção do Departamento Econômico do Santander. O setor é o único entre os principais segmentos da economia do Estado com expectativa de retração no biênio. O cenário ocorre após uma alta estimada em 25,6% em 2025, impulsionada pelo desempenho da safra.
Apesar da perspectiva de queda, Amílcar Silveira, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará (Faec), avalia que o agronegócio precisa ser analisado de forma mais ampla. Para ele, o Estado pode aumentar a produção e o valor gerado pelo setor por meio de planejamento, melhor uso da água e maior aproveitamento dos perímetros irrigados.
O estudo do Santander aponta que o PIB do Ceará deve crescer 1,6% em 2026 e 1,2% em 2027. Serviços e indústria sustentam a projeção, com altas de 2,1% e 1,3% para serviços e de 1,4% e 1,5% para indústria nos dois anos.
Planejamento hídrico
Para Amílcar Silveira, a retração projetada para a agropecuária não deve ser analisada isoladamente, já que o agronegócio envolve atividades que vão além da produção agrícola e pecuária. Ele defende que o Ceará avance em um planejamento de longo prazo para aproveitar melhor os recursos disponíveis.
“Falta um pouco de planejamento no Brasil. Para você planejar de forma sustentável no nosso setor, é preciso planejamento e, mais precisamente, de água”, afirma.
Na avaliação do presidente da Faec, os perímetros irrigados podem ter papel central nessa estratégia. A proposta é aumentar a produtividade sem necessariamente ampliar a área utilizada ou o volume de água empregado.
Silveira cita a substituição de culturas de menor valor agregado por produtos com maior retorno econômico.
“Não é razoável, hoje em dia, em perímetros irrigados, a gente produzir, por exemplo, capim. É preciso produzir produtos com valor agregado, que a gente pode usar dez vezes mais do que é utilizado com capim, por exemplo, com uma fruta, sem, no entanto, aumentar a área ou a quantidade de água.”
Tabuleiro de Russas
Um dos projetos citados pelo dirigente é o Perímetro Irrigado Tabuleiro de Russas. Segundo Amílcar, a área possui atualmente cerca de 10 mil hectares e tem potencial para chegar a 14 mil hectares. No entanto, pouco mais de 3 mil hectares estariam em funcionamento.
Para a Faec, o desafio está em ampliar a utilização da estrutura existente e direcionar a produção para atividades com maior potencial de geração de renda e exportação.
“Então, é preciso utilizar de forma planejada e, principalmente, utilizar mais os perímetros irrigados”, afirma.
A entidade já apresentou ao governo uma proposta para participar da gestão dos perímetros irrigados. A intenção, segundo Silveira, é contribuir para a organização da produção e para a atração de empresas.
Distrito de exportação de FLV
Entre as propostas apresentadas pela Faec está a criação de um distrito de exportação de FLV (frutas, legumes e verduras). A ideia é concentrar produtores e empresas em uma área estruturada para produção, certificação e comercialização dos produtos no mercado externo.
Segundo Silveira, a proposta poderia ser desenvolvida a partir da ampliação do Tabuleiro de Russas. “A nossa proposta para o governo é essa: o primeiro distrito de exportação de FLV do Brasil. São distritos certificados”, afirma.
O projeto também se conecta ao movimento recente de expansão das exportações cearenses do agronegócio. Para o presidente da Faec, o Estado já apresenta resultados positivos em algumas cadeias, mas precisa ampliar o planejamento para transformar a infraestrutura existente em novas oportunidades de mercado.
“Eu já fiz essa proposta ao governo. A Faec gostaria de ajudar na gestão desses perímetros irrigados, porque, com a Federação ajudando, nós desenvolveremos o Ceará”
Amílcar Silveira, presidente da Faec
Clima entra no cenário
A avaliação da Faec ocorre em um cenário de maior atenção às condições climáticas. O Santander aponta eventos climáticos como um dos principais riscos para as projeções para o Nordeste, especialmente diante da possibilidade de ocorrência do El Niño nos próximos anos.
O fenômeno pode alterar padrões de chuva e temperatura e afetar a produção agropecuária. Para o Santander, a agropecuária nordestina teve forte expansão em 2025, acompanhando uma safra recorde, mas deve apresentar variações mais moderadas nos anos seguintes.
No Ceará, a projeção é de queda de 4% em 2026 e de 1% em 2027. No Nordeste, o Santander estima retração de 1,1% neste ano e crescimento de 0,2% no próximo. Para o Brasil, a previsão é de estabilidade em 2026 e alta de 1% em 2027.
O cenário reforça, na avaliação de Amílcar, a necessidade de ampliar a capacidade de planejamento do setor. Para ele, o uso mais eficiente da água e dos perímetros irrigados pode permitir que o Ceará aumente a produção e agregue valor sem depender apenas da expansão da área cultivada.
“Os perímetros irrigados são fundamentais para o nosso desenvolvimento. O planejamento desses perímetros e a utilização de modo adequado são fundamentais”, conclui.
Saiba mais:
Exportações de algodão crescem em julho e somam US$ 262 mi
Sobretaxa dos EUA pode atingir 36% das exportações do Nordeste