Três portos na Bahia de São Marcos (Itaqui, Terminal Ponta da Madeira e Terminal ALUMAR), duas rodovias federais (BR-135 e BR-402) e três ferrovias (Carajás, Transnordestina e Norte-Sul), além de energia renovável e cabos submarinos de transmissão de dados da EllaLink para conexão com o mundo. Este é o diferencial da privilegiada e única logística da Zona de Processamento de Exportações do Maranhão. Criada em 2024 (Decreto nº 12.131), em Bacabeira, na região metropolitana de São Luiz, é uma área livre de comércio com o exterior, onde as empresas instaladas se beneficiam com regras tributárias e aduaneiras específicas. O regime oferece desoneração de bens de capital, estabilidade cambial e segurança jurídica de longo prazo para transformar matérias-primas antes do embarque externo.
A ZPE do Maranhão já negociou 56% de sua área de 2.098 hectares. São 12 projetos, quatro dos quais em fase de fechamento de contrato, que somam mais de R$ 23 bilhões, envolvendo biorrefinaria de biomassa de bambu, produção de hidrogênio verde e HBI Verde (o chamado ferro-esponja) com o uso de energias renováveis. O quarto projeto é um consórcio com a Vale, no valor de US$ 2,0 bilhões, que gerará um novo produto para a mineração.
As projeções apontam para a criação de 10 mil empregos ao longo da instalação devendo ficar em 550 postos de trabalho de alta qualificação na fase de operação, em 2029, dado o nível de modernização das plantas industriais.

Maranhão industrial
A advogada e presidente da ZPE Maranhão, Rakel Murad (foto), que vem conduzindo a gestão institucional e projetos estratégicos, sociais e ambientais no Nordeste do Brasil, já enxerga um Maranhão transformado a partir de 2029, início efetivo de operação.

A seu ver, o Estado tem plenas condições de ampliar o atual grau de industrialização na economia maranhense dos atuais 13% e transcender a condição de exportador de commodities, notadamente de farelo de soja, milho, arroz e algodão, do Matopiba, além de minério de ferro. “É possível gerar riqueza com a fabricação local”, assegura ela.
Animada, Rakel Murad diz que a ZPE do Maranhão será a mais moderna do País e lembra que sua formatação foi inspirada na ZPE do Pecém e nos modelos do Panamá, da Alemanha e de Hamburgo. Ela garante que novas melhorias serão incorporadas. A propósito, foi o objetivo de sua recente missão à China.
Certa de que o empreendimento tem tudo para decolar com muito êxito, a executiva já antevê expansões. E diz que se todos os 12 projetos se instalarem, já se pode pensar em ocupar os restantes 44% de área disponível e, quem sabe, projetar uma ZPE do Maranhão II em áreas vizinhas.
“Temos disposição natural para a exportação pela posição geográfica entre as regiões Norte e Nordeste, temos calado para receber grandes embarcações e temos capilaridade logística fluvial, marítima, rodoviária, ferroviária e portuária.” Rakel Murad, presidente da ZPE Maranhão
Ativos estratégicos
A ZPE do Maranhão conta, ainda, com a experiência de Eduardo Neves (foto), diretor Comercial e de Marketing, que integrou a Agência de Desenvolvimento Econômico do Ceará (ADECE) e presidiu a ZPE do Ceará. À frente da consultoria Unipar BR, onde acompanha grandes projetos, ele avalia que a ZPE do Maranhão tem todos os ingredientes para dar certo. Mas alerta, também, sobre os desafios a serem enfrentados, como a qualificação da mão de obra existente e a ampliação de contêineres.

O maior deles, entende Eduardo Neves, é ter presente o entendimento de que as transações com a China – agora o maior parceiro comercial do Brasil – implica em uma gestão ainda mais eficiente. “Estamos diante de um destino fértil, mas a uma distância três vezes maior do que dos Estados Unidos e Europa”, compara.
Na avaliação de Eduardo Neves, é hora de avançar na industrialização e contribuir para a descarbonização da economia brasileira. Ele vislumbra que a conexão intercontinental direta via marítima de Maranhão com Europa e África evitará as rotas saturadas ou intermediárias. Uma condição que, somada à matriz energética limpa e abundante e a segurança hídrica, atrairá investimentos como os data centers, levando o Estado a um novo ciclo de desenvolvimento.
“É uma hiperconexão de ativos estratégicos.” Eduardo Neves, diretor Comercial e de Marketing da ZPE do Maranhão
Ele explica que num raio de 60 km do polígono da ZPEhá infraestrutura disponível. O Porto do Itaqui, por exemplo, com calado superior a 19 metros, está habilitado para os maiores navios de carga do planeta e geograficamente mais próximo da Europa e da Costa Leste dos EUA. Aliado a isto tem o Aeroporto Internacional de São Luís, o Distrito Industrial e a capital São Luís, o que garante acesso direto ao centro de decisões financeiras e governamentais, uma rede de serviços e mão de obra qualificada.
Para ele, mais do que redução de custos, o Maranhão oferece rentabilidade e visão de futuro, porque o Estado desponta na vanguarda da nova fronteira energética nacional com a exploração da Margem Equatorial. “Esse horizonte no setor de óleo e gás amplia exponencialmente a demanda por serviços especializados, refino, petroquímica, transição energética e inteligência computacional”, afirma, acrescentando que a ZPE do Maranhão é a porta de entrada para essa nova fronteira.

Descarbonização marítima
Uma das empresas a se instalar na ZPE do Maranhão, a H2X Comércio e Serviços de Produção de Combustível Sustentável S.A. prevê geração de 500 empregos diretos e 1.500 indiretos na implantação e 100 diretos e 400 indiretos na operação. A empresa vai produzir e-metanol e hidrogênio verde.
O e-metanol é o principal produto a ser destinado integralmente à exportação, devendo gerar uma receita anual projetada de R$ 811,3 milhões em regime pleno. Para isso, a planta terá capacidade nominal de 300 t/dia de e-metanol (109.500 t/ano), podendo chegar no pico em 125.000 t/ano. Produzido com energia renovável, o e-metanol é um combustível sintético para alcançar aplicações com dificuldade de eletrificação direta, como por exemplo a navegação marítima.
O hidrogênio verde integrará predominantemente a síntese do metanol, com venda de excedentes para empresas da ZPE e consumidores nacionais. Sua produção anual será de 22.518,44 t/ano. “Nosso projeto contribuirá para uma transformação ambiental e social”, comenta o executivo, referindo-se ao uso de restos orgânicos da floresta como insumos, caso do caroço de açaí, coco e babaçu. O principal destino dos produtos da H2X será a Europa, com referência à Alemanha e aos Países Baixos.
O CEO da H2X, Felipe de Oliveira (foto), explica que o projeto vai na direção da descarbonização do setor marítimo e na redução do custo do diesel altamente subsidiado pelo governo. Ele conta também que está buscando acordos com a Impasa e 4Woods para coletar CO² gerado por elas e que hoje são jogados fora. O plano é concluir a planta industrial em fevereiro de 2028 e dar início à produção da H2X até o primeiro quadrimestre de 2029.

Economia verde
Diretora da AB Expertise de ZPE, a contadora especialista na área tributária e em ZPE Andréa Freitas (foto), diretora da ZPE Ceará por oito anos, diz que para efetivamente mudar o perfil econômico do Estado, a ZPE do Maranhão precisa converter o potencial em empreendimentos efetivamente implantados e operacionais.

“Vejo a ZPE como uma oportunidade para o Estado deixar de ser apenas um corredor de exportação de commodities e tornar-se também um polo de transformação industrial e produção para as cadeias globais da chamada economia verde”, afirma ela, destacando como vantagens a disponibilidade de recursos naturais, a produção agrícola, energia renovável e localização logística privilegiada.
Presidente da Comissão de Comércio Exterior do CRC-CE, ela entende que nesse processo, Maranhão, Ceará, Pernambuco e Bahia podem competir, mas também se complementar. Ela cita a experiência consolidada do Ceará com a ZPE e o Complexo Industrial e Portuário do Pecém,que pode ser alternativa de escoamento. E Pernambuco com Suape e a Bahia com uma base industrial diversificada.
“O Nordeste tem condições de construir uma plataforma industrial e logística integrada, utilizando seus diferentes portos, ferrovias, zonas de processamento e bases industriais.” Andréa Freitas, diretora da AB Expertise de ZPE
Entre os setores que a ZPE do Maranhão pode atrair, a doutoranda em Políticas Públicas cita a mineração e transformação mineral, siderurgia, agroindústria, química, fertilizantes, energia renovável, hidrogênio e derivados, biomassa, biocombustíveis e tecnologia.
Andréa Freitas lembra que a ZPE precisa funcionar como um verdadeiro ecossistema industrial. E que o impacto econômico poderá ser maior com o desenvolvimento de fornecedores locais, serviços especializados e programas de formação profissional. “O sucesso da ZPE em Bacabeira deverá ser medido não apenas pelos investimentos anunciados, mas pelo que for efetivamente realizado e permanecer na economia local em forma de empregos, fornecedores, tecnologia, renda e valor agregado”, diz ela.
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