O Nordeste – o Ceará em especial – pode sediar uma das indústrias de crescimento relevante. Trata-se do kitesurf, um nicho que dá mostras de robustez em função da rápida adesão de praticantes, atraindo um potencial mercado de fornecimento de insumos e serviços ao seu redor. Estima-se que ele movimente no mundo em torno de US$ 1,48 bilhão, devendo alcançar US$ 2,59 bilhões até 2035. A boa e óbvia notícia é que o Brasil poderá ter grande destaque e o Nordeste ser protagonista pela extensão de litoral navegável. Não à toa, Caucaia (Praia do Cumbuco) é a Capital Nacional do Kitesurf, conforme PL 2.260/2024.
Em suas diferentes modalidades, o kitesurf integra o turismo náutico, que em 2025 cresceu 21%. E aponta para um crescimento continuado ao virar um esporte olímpico em Paris em 2024, o que atrai patrocinadores e também porque projetos da área podem ser financiados pela Lei Federal de Incentivo ao Esporte (Nº 11.438/2006) ou leis estaduais equivalentes.
O que se percebe na região, conforme observadores, é que o kitesurf puxa público e está promovendo uma valorização imobiliária especialmente em praias como Cumbuco, Preá, Jericoacoara, Icaraizinho de Amontada e Canoa Quebrada. O desafio, entretanto, envolve o cuidado com o equilíbrio ambiental em sintonia com o respeito aos pescadores e a necessidade de mão de obra cada vez mais qualificada.
Fortaleza e Região Metropolitana
Foi o caso da P5 Kite House, um beach club com DNA esportivo e de bem-estar, que escolheu a Praia do Futuro, em Fortaleza, para oferecer um espaço que conecta kitesurf, wellness, gastronomia, música, lazer e lifestyle. O CEO Cristiano Lins (foto) sabia que o Ceará reúne características que o colocam entre os melhores destinos do mundo para a prática do kitesurf em função de suas condições de ventos fortes e regulares durante uma longa temporada, água quente e grande extensão de litoral adequadas para a prática tanto para iniciantes quanto para atletas de alto nível.

Ele conta que nos últimos anos, o kite deixou de ser um esporte de nicho e passou a movimentar uma cadeia importante de turismo, gastronomia, hotelaria, transporte, escolas, equipamentos, eventos e serviços que atraem o turismo de longa permanência em diferentes pontos do litoral.
O executivo, que também atua como CEO na Prolins, entende que o kitesurf pode ser consolidado para muito além dos destinos internacionalmente conhecidos e cita o potencial a ser explorado de Fortaleza e Região Metropolitana. “O eixo Praia do Futuro, Sabiaguaba e Cofeco contam com condições excelentes de vento e mar, proximidade da cidade, facilidade de acesso e um cenário privilegiado para desenvolver ainda mais o esporte”, afirma, foco em que a P5 Kite House vem trabalhando ao oferecer estrutura e apoio aos praticantes.
A seu ver, Fortaleza não precisa ser apenas o ponto de chegada do turista, mas se consolidar cada vez mais como destino de kitesurf. Cristiano Lins considera fundamental o downwind, por unir esporte, turismo e descoberta do litoral, movimentando a economia de diferentes locais. Ele defende a necessidade de investir mais na formação de novos atletas, como os talentos nas comunidades para capacitá-los para as competições nacionais e internacionais.
“O Ceará já possui o que ninguém consegue fabricar: vento, mar, clima e um litoral extraordinário. Agora precisamos transformar essa vantagem natural em uma estratégia permanente de turismo esportivo. Tudo isso precisa acontecer com responsabilidade ambiental porque turismo e preservação podem caminhar juntos”, afirma ele.
Palavra de praticante
Como praticante do kitesurf, Rômulo Alexandre Soares (foto) se conectou com o esporte em 2019 com a fundação do Instituto Winds for Future e do primeiro festival sobre sustentabilidade no Cumbuco para chamar a atenção para temas ligados à inovação e sustentabilidade. Desde então, com a parceria da esposa Renata (foto), viaja em busca de bons ventos.

Mais do que simplesmente praticar o kitesurf, Rômulo conta que o esporte também despertou seu olhar para o desenvolvimento dos territórios. Assim ele chegou ao Cumbuco, hoje a meca do kitesurf e base da atividade do Instituto Winds for Future. Lá ele lidera o projeto de ecobarreiras nos municípios de Caucaia e Fortaleza, junto ao estuário do Rio Ceará.
Para Rômulo Alexandre, também presidente da Câmara Setorial de Economia Azul, o vento trouxe uma grande força para o desenvolvimento do território, quer seja na geração de energias renováveis como a eólica, mas também sobre as comunidades costeiras, hoje no litoral oeste sobretudo, mas também agora no litoral leste do Ceará. “Pelos nossos olhos no kitesurf a gente percebe poluição, a gente percebe conservação, a gente percebe natureza, a gente percebe a qualidade da oferta turística e seus impactos positivos e negativos nas comunidades”, conta ele.
Ele garante que é visível o avanço do kitesurf no Ceará, o que é percebido até na bagagem do voos que chegam ao Estado pelo volume de equipamentos. Trata-se de um esporte que engaja pessoas, grupos e família que, cada vez mais, estão praticando juntos.
Ele destaca a modalidade downwind pela possibilidade de viajar dentro do mar apenas com uma prancha e uma vela, uma experiência que ele classifica como incrível pelo contato com a natureza.
Movimento na economia
Com 11 anos de existência, o Loucos por Downwind é fruto, justamente, da paixão de praticantes de Fortaleza e arredores, além de brasileiros de outros estados, notadamente Minas Gerais e São Paulo. Liderado pelo ex-jogador de futebol Júnior Pipoca (foto), esta comunidade que já apreciava ou não a modalidade de kite freestyle (saltos, em geral praticado em lagoas), descobriu a emoção da modalidade downwind (descer com o vento). A vivência de Pipoca de duas décadas nos campos de futebol de Fortaleza e da Europa lhe deu condições de atrair mais gente para esta prática.

Ao viajar até o Piauí velejando, Pipoca descobriu a oportunidade de bem explorar os ventos favoráveis do litoral ao longo dos 1500 km de Pernambuco ao Maranhão. Surgiu, então, a veia empreendedora passando a oferecer kitetrips, aulas, escolinha e eventos. O último, inclusive, foi a oitava edição de Downwind em Fortaleza, da Praia do Futuro a Cumbuco, capital do kitesurf, sempre realizada na primeira semana de agosto, que bateu o recorde de 300 inscrições, além de convidados.
É apenas o início da “temporada dos ventos” que se estende até janeiro. Por conta disto, eventos especiais foram criados, como o Rally Sol Sertões Kitesurf e centro de treinamento de alto rendimento em São Luís, e, consequentemente, as companhias aéreas foram atraídas, como a Air France, com vôos diretos para Fortaleza.
“É um show de ventos que está em permanente crescimento”, assegura Pipoca, lembrando que outras modalidades igualmente avançam como o freestyle, o kitewave e o kitefoil (prancha equipada com uma asa subaquática).
Pipoca, acompanhado da esposa Cândida (foto acima), justifica o crescimento do kitesurf no Ceará pelos ventos fortes, águas quentes e pelo baixo custo do aprendizado do esporte e também dos equipamentos, quando comparados aos demais esportes náuticos (lancha, jetsky etc.). A propósito, ele lembra que em 1998, as pranchas e velas vendidas por aqui eram trazidas por estrangeiros praticantes.
Hoje, 50% das marcas mundiais têm representantes no Brasil com sua rede de reposição. “Movimentamos a economia local”, assegura ele, exemplificando com as viagens que promove de um ou mais dias impactando o comércio e serviços como pousadas, restaurantes e transfers.
A preocupação do setor, conforme Pipoca, é o risco de interferência governamental com a implementação de leis e normas baseadas apenas na teoria e não na prática de quem conhece. Ele defende a necessidade de uma maior presença do Estado para incentivar e promover toda a cadeia que envolve o kitesurf, inclusive com a oferta de financiamento às iniciativas empreendedoras locais que fazem girar a roda da economia.
