O Brasil mantém uma posição restrita na indústria mundial de helicópteros. Apenas oito países possuem capacidade industrial para fabricar esse tipo de aeronave e o país é o único representante do Hemisfério Sul. Essa produção ocorre em Itajubá, no sul de Minas Gerais, onde está instalada a Helibras, fabricante que integra a Airbus Helicopters.
A trajetória da companhia começou em 1978, no Centro Técnico Aeroespacial, em São José dos Campos. Na época, o projeto reunia o governo brasileiro e a Aerospatiale, empresa que posteriormente deu origem à Airbus. Dois anos depois, a operação foi transferida para Itajubá, onde permanece até hoje.
Desde então, a empresa ampliou sua atuação no mercado nacional. Além da fabricação de aeronaves, a operação brasileira reúne atividades de engenharia, manutenção, modernização, customização e suporte a clientes civis, executivos, governamentais e militares.
A Airbus assumiu 100% do controle da Helibras em 2023, após comprar a participação de 15,51% que ainda pertencia à Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemge). O negócio movimentou R$ 95 milhões e consolidou o controle integral da fabricante pelo grupo europeu.
Produção concentra tecnologia e engenharia
A unidade de Itajubá produz os modelos H125 e H225 em configurações civis e militares. Além disso, a fábrica realiza montagem e serviços de manutenção e modernização de diferentes aeronaves da Airbus Helicopters.
Atualmente, a operação brasileira emprega cerca de 550 pessoas. Desse total, aproximadamente 400 profissionais trabalham diretamente em atividades como produção, montagem, manutenção e reparo. A empresa também mantém uma estrutura de manutenção e atendimento comercial no Aeroporto Campo de Marte, em São Paulo.
No Rio de Janeiro, a Helibras opera um centro de treinamento equipado com simulador completo para os modelos H225 e H225M. Já em Brasília, a companhia mantém um escritório de representação.
A atuação da fabricante também movimenta fornecedores no país. Mais de 50 empresas integram a cadeia relacionada à operação, com geração estimada de mais de 3 mil empregos indiretos. Ao longo da trajetória, a Helibras colocou mais de 900 helicópteros no mercado brasileiro, dos quais pouco mais de 700 permanecem em operação.
Outro diferencial está na engenharia. O centro instalado no Brasil recebeu classificação nível 1 da Airbus, a categoria mais alta da estrutura de engenharia do grupo. Com isso, a equipe brasileira pode desenvolver determinadas soluções com maior autonomia e compartilhar projetos com outras operações da companhia.
Segundo Amaury Bastos, CEO da Helibras, a capacidade de engenharia representa uma das principais contribuições da empresa para o setor brasileiro de aviação.
Mercado brasileiro ganha espaço
A demanda por helicópteros também mudou nos últimos anos. De acordo com Bastos, o segmento de aeronaves de asas rotativas a turbina manteve estabilidade até 2020, mas passou a apresentar crescimento anual posteriormente, com destaque para 2024 e 2025.
Esse movimento acompanha a ampliação das aplicações dos helicópteros. No setor privado, as aeronaves atendem principalmente necessidades de deslocamento e ganho de tempo. Já no setor público, aparecem em operações de segurança, resgate, defesa civil, combate a incêndios e transporte aeromédico.
Além disso, a fabricante estima uma demanda de pelo menos 200 helicópteros da categoria do H145 para atividades públicas relacionadas à segurança, defesa civil, meio ambiente, resgate e resposta a emergências.
No mercado internacional, a perspectiva também sustenta a expansão do setor. A Airbus Helicopters registrou 544 pedidos brutos em 2025, ou 536 encomendas líquidas, provenientes de 205 clientes em 50 países. No mesmo ano, entregou 392 aeronaves.
Já no primeiro semestre de 2026, a divisão contabilizou 215 encomendas líquidas, carteira de 1.108 helicópteros e 144 entregas. A receita no período chegou a € 3,7 bilhões.
Aviação executiva amplia oportunidades
O segmento executivo representa outra frente de atuação da Helibras. A companhia comercializa aeronaves por meio da Airbus Corporate Helicopters, divisão criada em 2017 para atender o mercado de aviação privada.
Segundo a empresa, aproximadamente 30% dos helicópteros vendidos no Brasil têm utilização executiva. Nesse mercado, os clientes passaram a buscar soluções que combinam deslocamento, conforto, segurança e redução de ruído e vibração.
Um exemplo dessa estratégia é o ACH145 Mercedes-Benz Edition, modelo avaliado em US$ 15 milhões. A aeronave teve sua estreia mundial em São Paulo e foi entregue ao primeiro comprador global, um brasileiro cuja identidade não foi divulgada.
Além disso, a operação brasileira desenvolveu uma solução para ampliar a utilização do compartimento de bagagem do H145. O projeto surgiu a partir das necessidades observadas no mercado nacional e posteriormente passou a integrar a oferta global da Airbus.
O setor offshore também faz parte da estratégia. A Helibras entregou dois H135 à Líder Aviação para operações relacionadas à indústria de óleo e gás. As aeronaves atendem missões de transporte de passageiros e evacuação médica.
Frota executiva cresce no país
A expansão da fabricante ocorre em paralelo ao crescimento da aviação de negócios brasileira. Dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), organizados pela Associação Brasileira de Aviação Geral (ABAG), apontam 11.362 aeronaves operacionais no país em maio de 2026.
O número inclui jatos, turboélices e helicópteros e representa alta de 8,5% em relação ao mesmo período do ano anterior. Com esse desempenho, o Brasil permanece como o segundo maior mercado de aviação executiva do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.
A dimensão territorial brasileira ajuda a explicar esse mercado. Enquanto a aviação comercial atende pouco mais de 147 localidades, a aviação de negócios alcança mais de 5.500 municípios. Dessa forma, aeronaves privadas ocupam espaços onde a malha regular oferece menos alternativas de deslocamento.
Entre as categorias analisadas, os jatos executivos apresentaram o maior crescimento. A frota avançou 12,5% e chegou a 1.193 unidades em maio de 2026. Na sequência, os turboélices cresceram 7,6%, impulsionados também pela demanda do agronegócio.
Os helicópteros a turbina, por sua vez, registraram expansão de 7,1%. Nesse cenário, a Helibras mantém sua operação industrial no país enquanto amplia a presença em segmentos que vão da defesa e segurança pública à aviação executiva e às operações offshore.
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