Clausens Duarte: “a construção civil alcançará suas melhores máximas em 2026”

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Clausens Duarte afirma que, mesmo com o bom momento da construção civil, é preciso ter cautela, em função do longo ciclo do produto. (Foto: CBIC)

Otimista por sua natureza empreendedora, o diretor executivo da CR Duarte Engenharia, Clausens Duarte, avalia o atual momento da cadeia produtiva da indústria da construção civil como altamente ativa, próspera e atraente a investimentos.

O vice-presidente do Sindicato da Indústria da Construção do Ceará (Sinduscon-CE) e da Comissão de Habitação de Interesse Social da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), entretanto, demonstra preocupação com a falta de renovação de pessoal nos canteiros de obras Brasil afora. Ele chega a falar em colapso.

Nesta entrevista exclusiva ao portal TrendsCE, Clausen Duarte aponta a necessidade de atacar outros gargalos como a falta de padronização de leis e os extensos prazos de licenciamentos. Confira a entrevista completa:

Como você avalia o atual momento da cadeia da construção civil? Trata-se de um ciclo de retomada real ou ainda está em recuperação?

Clausens Duarte: O setor passou por uma grave crise entre 2015 e 2019. A partir de 2020, passando pela pandemia, o setor vem crescendo consistentemente, chegando ao seu melhor momento em 2025 e com indícios fortes de que em 2026 chegaremos às nossas melhores máximas.

Como qualquer atividade, a construção enfrenta, atualmente, quais entraves? Onde estão os maiores gargalos?

ESCASSEZ DE MÃO DE OBRA (com letras maiúsculas), é o maior deles, somado a altos juros, burocracia, falta de padronização nas milhares de legislações municipais e prazos muito extensos de licenciamentos.

Qual é o sentimento atual do empresário da construção com relação ao futuro: otimista ou cauteloso?

Todo empresário é, por natureza, otimista. E pelos recorrentes números, reforçamos nossa posição. Entretanto, precisamos também ter cautela, em função do longo ciclo de nosso produto.

Por quê? Quais as maiores dores?

Hoje temos demanda forte, disponibilidade de recursos, falando especificamente do mercado econômico (Minha Casa Minha Vida), condições super atrativas com taxas a partir de 4% ao ano, descontos que podem chegar a até R$ 65 mil (na região Norte) e agora, recentemente, aumento da abrangência de valores de imóveis e renda para o programa, podendo chegar a R$ 600 mil e renda de R$ 13 mil. Lembrando que essa renda abrange 90% das famílias brasileiras.

Há uma unanimidade de que o nível atual de juros ainda inviabiliza projetos. Procede?

Sem dúvidas! Saindo do Minha Casa Minha Vida e adentrando no mercado conhecido como MAP (Médio Alto Padrão), as fontes de recursos mudam. Passam a ser recursos da poupança ou até de mercado. Ambos dependem diretamente da Selic, que está num patamar muito elevado. E pela característica do nosso produto ter elevado valor agregado, necessita prazo de financiamento muito extenso, logo o impacto de juros é muito forte. Exemplo: para uma família com renda mensal de R$ 13 mil, a diferença de taxa de juros imobiliária de 10% para 12% significa a diferença de mais de R$ 80 mil no valor do imóvel a ser adquirido!

Na mente do cliente, o crédito parece algo distante e inacessível. Dá para perceber alguma melhora no acesso ao crédito imobiliário?

Sim, sobretudo para as famílias enquadradas no MCMV.

Como você avalia o atual modelo de financiamento habitacional no Brasil? Atende as necessidades ou precisa ser repensado? Se positivo, em que bases deve haver mudanças?

Sim, precisa ser repensado. A indústria imobiliária é um fortíssimo indutor de desenvolvimento socioeconômico de qualquer país e sociedade. Envolve uma cadeia muito longa. É intensiva em mão de obra. Gera tributos. Gera o maior benefício social que é a casa própria, um sonho de toda família. Nos países desenvolvidos e em vários outros países em desenvolvimento, o indicador de crédito imobiliário sobre o PIB tem números muito mais expressivos do que o Brasil. Isso indica que temos que avançar muito ainda. Isso se confirma com nosso elevadíssimo déficit habitacional, ainda na casa de 6 milhões de habitações.

E quanto aos custos da construção, sempre presentes nas análises de performance, chegaram a estabilizar? Destacaria algum segmento em especial?

Infelizmente não, sobretudo com a recente guerra envolvendo EUA x Irã, que tem afetado o preço do petróleo e, por conseqüência, tem causado inflação a nível mundial. Aqui no Brasil, os insumos mais afetados são aqueles que derivam do petróleo, como PVC e aqueles que têm o combustível fóssil como muito incidente na cadeia de produção, como concreto e cimento. Isso sem falar que afeta diretamente o custo dos fretes para vários insumos. Outro fator que tem contribuído fortemente para a inflação é o custo da mão de obra. Por conta da escassez, por óbvia consequência, os valores dos salários para atrair e manter os profissionais estão aumentando bem acima da inflação.

O setor evoluiu em produtividade ou continua atrasado em relação a tantos outros segmentos?

Evoluiu sem sombra de dúvidas. Para demonstrar isso facilmente, basta verificar que hoje voltamos praticamente a atingir nossa máxima em número de empregos formais gerados, com praticamente 3 milhões de postos de trabalho. É o mesmo de 2014, só que hoje estamos com um volume de obras e contratações muito superior a 2014, o que demonstra que estamos produzindo mais com a mesma quantidade de pessoal. Entretanto, chegamos ao limite. Não há mais mão de obra disponível. E o pior, nossa gente está envelhecendo. Não há renovação. Gerações mais novas não estão ingressando no nosso setor, por diversas razões culturais, mesmo sendo o mercado imobiliário o segundo colocado em valor de salário médio de entrada, perdendo apenas para setor público federal.

Em quanto isso limita o crescimento?

Como dito, não está havendo renovação. A faixa etária de nossos canteiros só cresce. Isso é crítico. Em breve, poderemos ter um sério colapso. O governo deve apoiar o setor em soluções e políticas para evitar tal colapso.

Apesar de todos os entraves, o Brasil tem ambiente favorável para investimentos?

Sem dúvidas. Apesar dos pesares, temos e demonstramos que temos segurança institucional. Estamos crescendo consistentemente ao longo dos últimos anos e com boas perspectivas.

Quais são os maiores diferenciais em relação a outros países?

Apesar da burocracia, dos elevados prazos para licenciamentos em geral, prazos cartorários, de um dos maiores índices de judicialização e prazos médios de duração de ações judiciais, o Brasil oferece segurança institucional e demanda absurdamente grande.

O que precisa mudar com urgência?

Justamente uma atuação forte a nível federal no sentido de padronizar diretrizes de legislações urbanísticas e ambientais e estabelecer prazos máximos para as emissões de licenças. Com digitalização, transparência. E na questão de segurança jurídica, uma reforma ampla do judiciário, de forma a criar mais segurança jurídica e velocidade nas resoluções de conflitos. Somos um dos países com maior custo do sistema judicial e um dos mais ineficientes.

Para finalizar: o Nordeste está mais competitivo para investimentos imobiliários?

Sim. Os números mostram isso. Diversas pesquisas e dados apontam que o mercado imobiliário no Nordeste está crescendo acima da média nacional. Nosso déficit habitacional relativo é maior que as demais regiões. E no caso do Ceará, o forte crescimento econômico dos últimos anos tem feito crescer o nível de emprego, rendimento médio, PIB e, sobretudo, tem criado condições e bases sólidas para um futuro crescimento. Cabos submarinos, hubs digitais, data centers e energias renováveis são apenas o início de uma série de investimentos estruturantes que estão mudando a realidade e economia da região.

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