Estudo do BTG explica alta dos juros longos no Brasil

juros economia inflação
Estudo aponta que fatores domésticos respondem por 63% da alta dos juros longos no Brasil, com destaque para taxa neutra e política fiscal. (Foto: Magnific)

A curva de juros de longo prazo brasileira passou por uma mudança relevante nos últimos anos. A taxa nominal dos títulos de dez anos saiu de uma média de 9,9% ao ano entre 2017 e 2019 para cerca de 14,5% ao ano em 2026. Segundo estudo dos economistas Tiago Berriel e Mateus Della, do BTG Pactual, fatores domésticos explicam 63% desse movimento, enquanto o cenário externo responde pelos outros 37%.

O levantamento mostra, portanto, que a abertura da curva não resulta apenas do aumento do prêmio de risco associado à dívida pública. A elevação da taxa neutra de curto prazo aparece como o principal componente do movimento. De acordo com a estimativa, esse fator responde por cerca de 305 pontos-base da alta, ou aproximadamente dois terços do choque identificado.

Impulso fiscal pressiona a taxa neutra

O estudo relaciona o aumento da taxa neutra ao impulso fiscal e ao efeito dos gastos públicos sobre a demanda. Quando a atividade permanece acima do seu potencial, a política monetária precisa manter uma postura mais restritiva para conter as pressões inflacionárias.

Nesse cenário, os agentes passam a considerar que os juros precisarão permanecer elevados por mais tempo. Como consequência, essa expectativa se incorpora às taxas futuras e contribui para elevar os juros de vencimentos mais longos.

A taxa neutra representa o nível de juros considerado compatível com uma economia operando sem gerar pressões adicionais de inflação ou de desaceleração. Assim, quando essa referência sobe, o mercado tende a exigir taxas maiores para os títulos de prazo mais longo.

Dívida também aumenta o prêmio de risco

Embora a taxa neutra tenha o maior peso na análise, a dinâmica da dívida pública também contribui para a alta dos juros. O estudo estima que o aumento do term premium, ou prêmio a termo, respondeu por 159 pontos-base do movimento.

O componente reflete a remuneração adicional exigida pelos investidores para assumir o risco de manter títulos de longo prazo. Além disso, o modelo considera a influência das taxas internacionais, principalmente dos juros de longo prazo praticados nos Estados Unidos.

A dívida bruta do governo geral passou de aproximadamente 75% do PIB em 2020 para mais de 81% em 2026, segundo os dados apresentados no estudo. Dessa forma, a trajetória fiscal permanece entre os elementos observados pelo mercado na formação das taxas futuras.

Consolidação fiscal poderia reduzir juros

Os economistas também simularam um cenário de consolidação fiscal, com uma desaceleração dos gastos semelhante à observada entre 2017 e 2019 e resultado primário de 1,7% do PIB.

Nesse cenário, o estudo estima que os juros longos poderiam recuar em até 250 pontos-base. Ainda assim, a simulação indica que as taxas dificilmente retornariam aos níveis próximos de 10% registrados antes da pandemia.

Isso ocorre porque, segundo o levantamento, parte da elevação dos juros teria caráter estrutural. Portanto, mesmo uma melhora relevante nas contas públicas não necessariamente levaria a curva de volta aos patamares observados no período de 2017 a 2019.

O que muda para o mercado

Com a Selic em 14% ao ano e os juros de longo prazo próximos de 14,5%, a estrutura da curva mantém elevada a remuneração dos investimentos de renda fixa. Ao mesmo tempo, a diferença entre as taxas de curto e longo prazo permanece reduzida.

Nesse ambiente, títulos prefixados de prazo mais longo ficam mais sensíveis às mudanças nas expectativas de inflação, política monetária e resultado fiscal. Por outro lado, títulos pós-fixados acompanham mais diretamente a taxa básica enquanto ela permanecer elevada.

Os títulos indexados à inflação também podem ganhar relevância em estratégias de proteção contra a perda do poder de compra. A escolha entre esses instrumentos, contudo, depende do prazo, do perfil de risco e das necessidades de liquidez de cada investidor.

Saiba mais:

Quer receber os conteúdos da TRENDS no seu smartphone?
Acesse o nosso canal no Whatsapp e fique bem informado

Siga a Trends: