A prática mostra e especialistas confirmam que o melhor lugar para se investir é aquele em que ainda poucos o descobriram. Esta tem sido a realidade de municípios como Acaraú e Cruz, que assistem ao avanço do desenvolvimento ao longo do litoral, como está ocorrendo em torno de praias como as da Barrinha e do Preá. Paraísos da boa gastronomia, da prática de esportes náuticos e do viver bem, elas estão em plena transformação econômica a partir de empreendimentos imobiliários, de lazer e gastronomia.
Acaraú
Tradicionalmente focada no comércio, Acaraú e a região experimentam uma onda de diversificação de atividades. A cidade, que também atua na área com plantio de frutas e hortaliças, conta com produção e distribuição de bebidas (chopp feito em Jericoacoara) e concentra 45% das matrizes de camarão que saem da Fazenda Cacimbas, transformada em um parque aberto à visitação.
Um dos defensores do potencial da região é Thales Walker (foto), secretário de Turismo e Cultura de Acaraú. Em plenas comemorações dos 177 anos do município, ele o classifica como cidade-mãe de toda a região. Pelo menos até a década de 80, quando foi iniciado um processo de emancipações.

O secretário aponta, entretanto, que a cidade acordou tarde para a atividade turística, mas começa a aproveitar a vocação do local e das 17 praias ao longo de 38 km de costa. A população costuma crescer 10,5% em picos de alta estação como o réveillon, com a chegada de mais de 7000 pessoas em média, passando de 68 mil habitantes fixos para mais de 75.000. “Agora contamos com asfalto, cujas obras terão continuidade, o que muda tudo e deverá ampliar o volume de investimentos em infraestrutura turística”, afirma ele.
Segundo sua avaliação, a Praia da Barrinha, por exemplo, está aberta a novos investimentos também porque dispõe de uma ampla e ainda viável oferta de terrenos de frente para o mar, sem uma hiper urbanização. O local conta com mapeamento ecológico próprio e zoneamento feito pela Prefeitura em parceria com os interesses da comunidade quanto à definição de sua ocupação.
A Lagoa da Pinguela, os parques aquáticos, as dunas com lagoas de águas cristalinas formando piscinas naturais, os restaurantes típicos, a proximidade do aeroporto e os projetos de resorts são alguns atrativos apontados pelo secretário Walker. Para ele, “os quase 40 anos sem grandes investimentos turísticos geraram bolsões de oportunidades que estão levando a uma economia diversificada que vai do agro ao turismo”.
O pioneirismo do Komaki Restaurante
Quem também apostou no potencial do local ainda inexplorado, em julho de 2015, foi Márcio Neuton Araújo (foto), proprietário do Komaki Restaurante, localizado estrategicamente na Praia da Barrinha de Baixo, 20km ao leste de Jericoacoara e ao lado leste do Preá, onde também há muitos empreendimentos imobiliários de grande porte. Entre os points cobiçados para a prática do kitesurf é ainda um lugar de muita paz para aqueles que buscam conexão com a vida nativa, especialmente com os pescadores que saem para a pesca. “Um lugar paradisíaco”, assegura Márcio.

“Por que instalar um restaurante onde outros tantos já operam, ao invés de buscar o pioneirismo num lugar com enormes chances de desenvolvimento?”, questionou-se. Há 11 anos ele anteviu a boa combinação da beleza natural com a gastronomia baseada em frutos do mar. Embora o cardápio seja variado, incluindo outras carnes, é do mar que ele extrai a maior parte dos ingredientes que transforma em verdadeiras obras de arte para oferecer aos turistas vindos de todas as partes do Brasil e do exterior.
A decisão de montar seu próprio restaurante em sua terra natal foi fruto da experiência acumulada de um vasto e diversificado currículo profissional em terra e no mar. Márcio morou 12 anos em São Paulo com passagens por ícones da boa gastronomia como Rubayat, Terraço Itália e Rede Fasano. Também exercitou a atividade em navios de cruzeiro, uma verdadeira escola que vai muito além da cozinha. Sobre o que planeja para o futuro, a resposta é simples: continuar fazendo o que gosta e que, pelo visto, os clientes aprovam porque a maioria se torna amigo.
Cruz
O vizinho município de Cruz também ainda convive com a economia concentrada na agricultura, comércio e pecuária, além das atividades artesanais como renda, redes de dormir e de pesca, bordados e crochê. Mais recentemente, voltou-se ao turismo bem explorando a Praia do Preá, que atrai turistas para a prática do windsurfe e do kitesurf, graças aos ventos favoráveis.
O secretário do Turismo, Indústria e Comércio de Cruz, Wilamar Marques da Cunha (foto), comemora a chegada de complexos imobiliários de alto padrão que ampliaram a oferta de empregos em mais de 70% nos últimos anos. Dentro do conceito de luxo simples e arquitetura rústica com o uso de materiais nativos, como a carnaúba e o eucalipto, a cidade ganha uma nova feição. Na divisa com Acaraú, Cruz acompanha a construção do Resort Anantara, do Grupo XP Investimentos, com investimentos superiores a R$ 4,0 bilhões. Os projetos incluem até mesmo uma cidade sustentável para acolher a mão de obra necessária para as obras. Também está sendo levantado o prédio WindHouse Carnaúba, com 90 apartamentos.

Outro negócio citado pelo secretário é o Gav Resort, na divisa de Jijoca, que está sendo construído entre a Lagoa Azul e a Lagoa do Paraíso. O complexo inclui o hotel Gav Jeriquiá, a ser inaugurado ainda neste ano.
Polo turístico internacional, via Aeroporto Regional de Jericoacoara, localizado em Cruz, o município, igualmente, faz dos esportes náuticos uma de suas atrações, caso da Praia do Preá, conhecida mundialmente pela prática do kitesurf e windsurf. A região movimenta todos os equipamentos envolvidos no turismo, como hotelaria, translados, transfers e restaurantes que se destacam com sua gastronomia de alta qualidade. “Todo esse conjunto agrega à economia local”, ilustra o secretário.
Para o secretário, além dos benefícios trazidos à economia, o grande ganho será para a comunidade traduzido em empregos e no fornecimento de insumos locais com reflexos em outros municípios como Bela Cruz, Granja, Marco e até outros estados como Maranhão e Piauí.
A movimentação de obras, aliada à vocação da região para os esportes náuticos, estão atraindo mais de 1,0 milhão de visitantes por ano, segundo o secretário Wilamar, certo de que haverá impacto importante na arrecadação para dar suporte à infraestrutura da rede de água, esgoto e drenagem..
Mercado imobiliário ativado
O empresário do mercado imobiliário Ricardo Wagner (foto), sócio-diretor da Remax Du House – um paranaense que desde 2011 adotou o Ceará como sua terra –, vivencia um dos momentos mais importantes da história imobiliária do oeste do Ceará. A movimentação, segundo ele, é impulsionada pelo crescimento do turismo e também pela expansão da infraestrutura. Ele aponta, ainda, a consolidação da região como um destino internacional, principalmente pelos esportes à vela, um dos principais combustíveis turísticos desde 2017, com a inauguração do aeroporto regional de Jericoacoara, em Cruz.

Wagner diz que o desenvolvimento tende a continuar e cita como causa o leilão vencido pela Fraport, que vai administrar o aeroporto, com investimentos de R$ 100 milhões anunciados para breve expansão da pista e para estrutura de alfândega, Receita Federal e segurança. Atualmente, entre pousos e decolagens, o aeroporto opera com 30 voos semanais, registrando um crescimento superior a 20% ao ano.
Com isso, a região de Preá-Barrinha se credencia ainda mais a receber mais turistas do Brasil e do exterior. O fluxo, em especial, é dos europeus vindos da França e da Itália, hoje os maiores investidores e donos dos principais empreendimentos turísticos, como o Café Jeri, o Alchemy Speed Club, o Preabit Villas, entre tantos outros.
Com o conhecimento local adquirido como assessor de projetos do governo cearense em 2015 e de ex-secretário de Jijoca e até mais recentemente de Cruz, ele lembra que o turismo na região começou a se desenvolver inicialmente em Jericoacoara, classificada entre as dez praias mais lindas do Planeta Terra. “As pessoas vinham e dormiam em casas de pescadores, um turismo bem de base comunitária e que atraiu investidores que hoje são donos de pousadas e restaurantes, como Roberto Brottini”, ilustra.
Divisor de águas
Para ele, a divulgação “boca a boca” levando informações locais para dentro e fora do Brasil foi um divisor de águas que transformou a região a partir dos anos 2000, quando o Preá e a Barrinha eram ainda uma vila de pescadores, que ganhou impulso com o Rancho do Peixe (foto) e com a vinda de velejadores atraídos pelos ventos fortes e constantes. “Junto com isto veio a qualificação profissional, bons restaurantes e boas acomodações impulsionando o turismo”, observa.

A realidade atual, garante ele como profissional do mercado imobiliário, é que já começa a haver escassez de terrenos em Jericoacoara, abrindo espaço para outras áreas como o Preá, por exemplo, que vive um momento semelhante ao que Jericoacoara experimentou e se tornou o principal valor de expansão imobiliária hoje da região. Com a construção civil aquecida, começa a faltar casas de aluguel e o metro quadrado na venda acompanha esta valorização. Em Flecheiras, onde a Remax opera, uma casa de R$ 280 mil é encontrada por R$ 420 mil.
Quais são os desafios do Preá? Para Wagner, será preciso parceria entre o poder público de todas as esferas e a iniciativa privada, com apoio de especialistas para compatibilizar o crescimento acelerado do turismo com a necessidade de infraestrutura. “O Preá de amanhã e o daqui 20 a 30 anos precisa de planejamento”, alerta ele, certo de que a enorme transformação em curso leva a um destino qualificado e de charme.
A Barrinha segue o mesmo caminho de Jericoacoara e Preá e igualmente desperta o interesse de investidores que buscam áreas ainda com preços competitivos, mas não vai demorar muito para ganhar maior valorização imobiliária. Estrategicamente posicionada, a seu ver, a Barrinha, com uma pegada ambiental maior, vai precisar também de um apoio de infraestrutura.
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