Mais volátil em véspera de eleição com quaisquer que sejam os postulantes ao poder, a economia brasileira navega num cenário de incertezas à espera de definições para retornar ao seu leito. Tudo vai depender da sinalização que o vencedor e sua equipe derem sobre questões básicas como responsabilidade fiscal, independência do Banco Central e segurança jurídica dos contratos.
Enquanto isso, vive-se o dilema do futuro dos próximos quatro anos, torcendo para que o Brasil resista à desaceleração normal diante de tantas incertezas. Especialistas discutem a condição econômico-financeira nacional e o ritmo de desaceleração da atividade, esperando uma reação positiva para seguir em frente.
Com continuidade ou com mudança, a saída passa pelo controle rigoroso de despesas estruturais para viabilizar a queda da Selic para cerca de 12% até 2027. Em caso de mudança, mesmo com um certo otimismo inicial, serão necessárias negociações políticas para o controle do orçamento.
Em ambos os casos, a retomada dos investimentos privados depende de credibilidade fiscal, saneamento das contas e a consolidação da reforma tributária, com expectativa de melhora a partir do segundo semestre de 2027.
Desaceleração econômica
Enquanto o resultado das urnas não chega, o diagnóstico é de desaceleração para o conselheiro do Corecon-CE, Pedro Rafael Fernandes (foto), baseado nos dados do PIB no segundo trimestre de 2026, revelando uma perda considerável de dinâmica na economia brasileira nos últimos meses. “O mercado de trabalho continua aquecido, mas com exceção do agro, os demais setores estão em plena desaceleração”, exemplifica e diz que o problema é fruto de um mix entre questões conjunturais e estruturais, como o gasto público superior à arrecadação.

Por conta disto, o economista vislumbra até mesmo uma recessão por conta do longo período de restrição monetária que mantém os juros altos para conter a inflação. A repercussão tem sido aumento do endividamento, da inadimplência e piora na evolução do ativo problemático nas carteiras de crédito das instituições bancárias brasileiras. Rafael Fernandes lembra que os últimos dados do Banco Central já sinalizam redução relevante na oferta de crédito. O crédito livre para empresas caiu 10% em julho/26, mesmo diante de um esforço considerável do governo via BNDES para compensar.
“A persistir a restrição ao crédito, é possível que a desaceleração se transforme numa recessão, porque crédito é vital para a manutenção da atividade econômica.” Pedro Rafael Fernandes, conselheiro do Corecon-CE
Se o período eleitoral em si é de aumento de incerteza e maior volatilidade nas expectativas, o peso da política na economia aumenta com a crise política e suas conexões entre corrupção, políticos importantes, e agora membros do STF. Para o conselheiro do Corecon-CE, sem alarmismos, o que se configura é uma crise semelhante a de 2015, dada a conjunção com grandes casos de corrupção e cenário macroeconômico restrito que resultam num potencial avassalador de deterioração das expectativas.
Âncora verde
A preocupação do economista recai também sobre o agronegócio, que tem se notabilizado como a âncora-verde da economia e agora ameaçada pelo El Niño. A administração Atmosférica e Oceânica dos Estados Unidos mostra uma piora na probabilidade de intensidade do El Niño, chegando a 95% no último trimestre de 2026. “A depender de como este fenômeno climático atingirá as regiões produtoras do Brasil pode-se ter, inclusive, um recuo do valor adicionado do agro, algo semelhante ao ocorrido entre 2023 e 2024, quando temperaturas muito superiores à média atingiram regiões produtoras do Centro-Oeste”.
Rafael Fernandes acrescenta a condição financeira atual do setor, que convive com taxa recorde de pedidos de recuperação judicial. Embora desde agosto os preços negociados em contratos futuros tenham crescido consideravelmente, uma potencial quebra de safra pode gerar uma crise sem precedentes. Outro fator de risco para o agro brasileiro é a persistência dos conflitos no Oriente Médio, que impactam diretamente os preços dos fertilizantes. A escalada dos conflitos pode gerar um estrangulamento de custos de produção e mais do que compensar a melhora nos preços internacionais.
Compromisso com redução de gastos
Ricardo Coimbra (foto), conselheiro da Apimec Brasil, não tem dúvidas de que o ciclo eleitoral é um dos principais vetores da instabilidade cambial e de adiamento de decisões estratégicas. O que o mercado espera é um compromisso com a redução dos gastos estruturais tanto do Judiciário como do Legislativo, inclusive com as emendas parlamentares. “A situação fiscal é o calcanhar de Aquiles de quem vai comandar os próximos quatro anos”, acredita ele, citando a necessidade de resolver a dívida bruta em torno de 82,5% do PIB.

Num cenário de continuidade com a manutenção da atual equipe econômica, o mercado vai exigir uma imediata guinada focada no controle das despesas estruturais.
“Isso pode abrir espaço para consolidar a continuidade do ciclo de cortes da Selic, estimado para 2027 em torno de 12%.” Ricardo Coimbra, conselheiro da Apimec Brasil
No outro cenário, o de mudança, a reação inicial dos mercados tende a ser a livre dos prêmios de risco, a valorização da B3, sobre algum tipo de promessa de privatização e rigidez fiscal. “Essa retomada sustentável dependerá da capacidade do novo Executivo de construir maioria sólida, sem desidratar o orçamento, o que provavelmente será uma grande dificuldade, visto que na gestão anterior ocorreu um crescimento mais significativo do poder do Congresso e do Centrão em cima do orçamento, elevando a despesa pública”, registra. E acrescenta que o saneamento fiscal com a consolidação da reforma tributária destrava fortemente o investimento privado no segundo semestre de 2027.
Independentemente de eleições e dos problemas fiscais de curto prazo, entretanto, Ricardo Coimbra destaca alguns diferenciais do Brasil. Entre os principais ele cita ativos estruturais sólidos, matriz energética limpa com mais de 80% da energia renovável atraindo indústrias sustentáveis, um sistema financeiro sofisticado com bancos altamente capitalizados e o PIX batendo recordes diários.
Em relação às reservas internacionais, o conselheiro da Apimec Brasil lembra que US$ 370 bilhões blindam o país contra a crise de baixa de pagamentos. Também aponta como uma vantagem interessante é a neutralidade geopolítica, que garante capacidade de comercializar com o mundo: Estados Unidos, China, União Europeia e o bloco dos BRICS.
Resfriamento econômico
Resfriamento é a palavra que resume a percepção do cenário econômico atual para Rogério Sobreira (foto), economista-chefe do Banco do Nordeste do Brasil (BNB). Embora o analista opere com um cardápio amplo de preocupações, que incluem juros altos, política fiscal em xeque e tensões geopolíticas, os dados de diferentes origens no segundo trimestre surpreenderam, trazendo um quadro menos crítico do que o esperado, inclusive nos gastos públicos. “É um quadro de pouso, ainda que em queda”, ilustra.

Para o terceiro trimestre, Sobreira entende que não há ainda indicadores suficientes para uma leitura mínima, mas ele se anima com o primeiro dado do desempenho industrial de julho, segundo o IBGE, que também não foi dos piores. “A economia perdeu força, mas não há dados que sugiram que perderá ainda mais”, ameniza, certo de que se trata mais de um resfriamento do que propriamente desaceleração.
O economista do BNB atribui essa “aterrissagem mais suave” a fatores como a baixa taxa de desocupação na ordem de 5,4%, embora acompanhada de perda de rendimento médio real em contraposição ao crescimento da massa de rendimentos ampliada, a Renda Bruta Disponível, que tem crescido, aqui incluindo o trabalho formal e temporário. “Desde 2024 a tendência é de melhora, o que justifica a força da economia”, explica. Outro fator que justifica este quadro é o do crédito que, apesar do endividamento das famílias, continua sustentando a capacidade de compra do consumidor.
Diante deste olhar ponderado sobre a economia brasileira com eleições presidenciais, a conclusão a que chega Rogério Sobreira é que não se pode apostar numa piora no terceiro e quarto trimestres do ano. Para ele, o terceiro trimestre tende a repetir a performance menos feia do segundo e, no quarto trimestre, pós ressaca eleitoral, tudo ficará mais claro. O próprio BNB projeta um crescimento de 2,0% no PIB. Mas não descarta riscos como o aprofundamento da guerra com impactos no preço do petróleo, o El Niño e, também, a subida de juros americanos, o que dificulta a trajetória de queda nos juros brasileiros que ele projeta em 13,75% neste ano e em 12% em 2027.
O desafio maior do novo ou velho governo continuará o mesmo: o quadro fiscal, cujos ajustes precisarão ser críveis.
“Será necessário uma consolidação fiscal gradual para não desordenar a economia subitamente, uma tarefa conjunta do Executivo com o Legislativo e com a ajuda dos Estados e municípios.” Rogério Sobreira, economista-chefe do BNB
Ajuste fiscal e credibilidade
Pelo acompanhamento de João Mário de França (foto), pesquisador da FGV/IBRE e professor de pós-graduação em economia da Universidade Federal do Ceará (UFC), a economia brasileira às vésperas das eleições já mostra sinais de desaceleração e um claro esgotamento do modelo de crescimento baseado em uso intensivo de trabalho, da baixa produtividade e fortemente puxado pelos gastos do governo.

Para ele, a previsão de um crescimento abaixo de 2% neste ano (1,8 a 1,9%), inferior aos anos anteriores, não chega a surpreender por conta do impacto da expansão fiscal.
“Com o hiato do produto positivo e mercado de trabalho pressionado, o gasto público está sendo financiado por mais dívida, o que acaba elevando a taxa de juros que anula, em boa parte, seu efeito na economia.” João Mário de França, pesquisador da FGV/IBRE
Para o ano de 2027, ele antevê muitas incertezas e uma forte tendência de menor crescimento que 2026, devido, principalmente a dois fatores: o consumo das famílias (o mais importante componente do PIB pelo lado da demanda) que deve desacelerar mais ainda, principalmente as famílias de menor renda e muito endividadas. E como algum ajuste fiscal está sendo esperado (de menor ou maior intensidade dependendo do vencedor da eleição), o consumo do governo deve cair também em relação a 2026.
João Mário França acrescenta que se o ajuste fiscal prometido conseguir gerar credibilidade e se também for acompanhado de um conjunto de reformas que aumentem a eficiência da economia, terá potencial de reduzir a taxa de juros real da economia, impulsionando investimentos e iniciando um ciclo de crescimento mais sustentável para os próximos anos.
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