Indústria de queijos do Ceará busca virada com certificações

produção de queijos
Ao agregar valor ao produto, o avanço impacta as comunidades locais, fixando o homem no campo e gerando renda e emprego. (Foto: Envato Elements)

Terceiro maior produtor de leite do Nordeste e entre os 10 maiores no Brasil, o Ceará almeja estar no topo também na produção de queijos. O Estado conta com mais de 100 mil produtores em todos os municípios, 90% dos quais são de pequeno porte, com menos de 50 litros diários de leite produzidos. No total, a produção leiteira chega a 2,0 milhões de litros. Com o principal insumo garantido, o Ceará trabalha em melhorias e na busca de certificações para o seu tradicional queijo coalho, visando ampliar sua presença no Nordeste, no Brasil e também no exterior.

Assim, com o upgrade do conhecido queijo coalho de churrasco, o Ceará pode se transformar em um polo de queijos artesanais premium. Ao agregar valor ao produto, o avanço impacta as comunidades locais, fixando o homem no campo e gerando renda e emprego. A mudança começou em 2020, com a Lei Estadual 17.318, que regulamentou o queijo artesanal cearense, formalizando a atividade de centenas de queijarias. O momento é dos melhores, mas há um longo caminho a ser percorrido.

Made in Ceará

O secretário executivo do Agronegócio da Secretaria do Desenvolvimento do Estado do Ceará (SDE), Silvio Carlos Ribeiro (foto), está confiante com a caminhada do setor porque a indústria de queijo cearense tem seu crescimento sustentado tanto pelo aumento da produção leiteira, como do rebanho e da produtividade, além de registrar melhoria de gestão das propriedades rurais.

Silvio Carlos Ribeiro, secretário executivo do Agronegócio da SDE. (Foto: Acervo pessoal)

“Estamos mostrando que é possível produzir queijos de qualidade”, afirma ele, referindo-se à conquista de certificações tanto estadual, com o Serviço de Inspeção Estadual (SIE), como nacional, com o Serviço de Inspeção Brasileiro (SIB), que já abriu as portas para o produto “made in CE” na região Nordeste e no centro do país (SP, RJ e MG).

Silvio Carlos garante que o governo vai continuar apoiando o setor em seus diferentes programas. Um deles é o fortalecimento da Agência de Defesa Agropecuária do Estado, a ADAGRI, responsável por garantir a sanidade animal e vegetal e agilizar o processo de certificações. O secretário da SDE também citou o apoio ao melhoramento genético do rebanho em parceria com a Federação da Agricultura (Faec) e o incentivo à valorização do queijo, através da participação em concursos e com a ajuda de consultorias.

O desafio, segundo o secretário, é multiplicar o número de queijarias certificadas e, num passo maior, ultrapassar os limites geográficos do país. Neste caso, para se integrar à vocação exportadora do Ceará, será necessário maior esforço para a conquista do Serviço de Inspeção Federal (SIF).

Ameaças internas e externas

José Antunes (foto), presidente do Sindicato das Indústrias de Laticínios e Produtos Derivados do Ceará (Sindlacticínios CE), concorda que houve grande avanço no setor leiteiro com melhoramento genético, mas que é necessário ir além. “Há pouco tempo uma vaca que produzia de 8 a 10 litros era considerada boa, hoje com 25 litros ordenhados diariamente, ela já não se paga”, alerta. Como proprietário da Laticínios Vale do Pirangi (Cambi), que transforma o leite recebido de 60 produtores em manteiga, ricota e requeijão, ele sabe que é preciso aumentar cada vez mais as certificações para que o produto ganhe maior valor.

José Antunes, presidente do Sindlacticínios CE. (Foto: Acervo pessoal)

Ele entende que o setor terá que ser firme nesta busca. A seu ver, o desafio se torna ainda maior por conta de ameaças internas e externas. Internamente, o Nordeste assiste a transformação do gado de leite em rebanho de corte, o que reduz a produção leiteira e, consequentemente, a indústria de queijos. Também cita a reforma tributária que, se efetivada nos moldes propostos, afetará os benefícios estaduais do Fundo de Desenvolvimento Industrial, que incentiva o uso do leite local na produção de derivados. Por fim, apontou o preço ao produtor que está sendo impactado pela importação do leite da Argentina e Uruguai. Ele explica que o leite vindo da Argentina e Uruguai é desidratado (Pó), mais barato e de fácil armazenamento, usado por toda indústria de sorvete. “Pagamos R$ 2,37 ao produtor enquanto esse leite do Mercosul chega a R$1,70”, ilustra. José Antunes também antevê que se o acordo União Europeia-Mercosul prosperar, haverá prejuízo ao setor que terá que conviver com a entrada de queijos europeus nos supermercados do Brasil.

Baixa escala de produção

Das 15 bacias leiteiras do Brasil, duas estão no Ceará, a Bacia Leste Cearense, onde Morada Nova produz quase 300 mil litros/dia, e a Bacia Centro Cearense, onde Quixeramobim é o principal município produtor com mais de 200 mil litros/dia, fato que demonstra uma desconcentração espacial da produção, permitindo reduções de custo de logística, de disponibilidade e assistência técnica. Com maior facilidade de captação, ganha a indústria e o produtor que pode escolher a quem ele vai se associar para entregar o seu leite. “Este é um fator importante para o desenvolvimento da cadeia de lácteos no Brasil e no Ceará”, afirma o pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Samuel José de Magalhães Oliveira (foto).

Samuel Oliveira, pesquisador da Embrapa Gado de Leite. (Foto: Acervo pessoal)

Ele cita estudos da Embrapa que mostram um aumento expressivo de produtividade na década compreendida entre 2014/2024, quando passou de 857 litros por vaca/ano para 1654 litros, um aumento de quase 100%. Apesar disto, o estudo projeta que existe um grande espaço para ganho de tecnologia e produtividade para aumentar a eficiência e produção da pecuária leiteira cearense.

Uma característica interessante da produção de leite nordestina e cearense citada pelo pesquisador é que a maioria do leite produzido ainda não vai para a indústria formalizada. Enquanto no Brasil, em média, uma indústria de laticínio capta 38 mil litros de leite por dia, no Ceará, fica em apenas 18 mil, o que aumenta o problema da pequena escala de operação da indústria. “Isso é um fator desafiador para a competitividade da cadeia de lácteos”, diz Samuel Oliveira. Ele concorda que são providências importantes para o avanço questões envolvendo melhorias em logística, conservação, construção de marcas, embalagem e posicionamento.

Autorização limitada

A chefe-geral da Embrapa Caprinos e Ovinos, Ana Clara Cavalcante (foto), destaca que o setor leiteiro lidera a geração de renda entre as cadeias agropecuárias cearenses, com um Valor Bruto de Produção (VBP) de R$ 2,32 bilhões, representando mais de 20% de todo o VBP agropecuário do Estado. Ela observa, também, a relevância do setor para a agricultura familiar com a fixação no campo. Mais de 80% dos produtores de leite do Ceará são agricultores familiares, englobando entre 73 mil e 85 mil famílias ruralistas. Como a produção ocorre durante os 365 dias do ano — independentemente da ocorrência de chuvas —, ela garante uma receita mensal previsível, fundamental para conter o êxodo rural, gerar empregos e fixar as famílias no semiárido.

Ana Clara Cavalcante, chefe-geral da Embrapa Caprinos e Ovinos. (Foto: Acervo pessoal)

É sabido que o setor também desempenha um papel-chave na nutrição da população e no combate à pobreza extrema por meio de programas governamentais como o PAA Leite (Leite Fome Zero), que compra a produção local a preços justos e a distribui para a rede socioassistencial, incluindo escolas, creches, CRAS e hospitais.

Ana Clara observa que o setor sustenta polos industriais e milhares de queijarias artesanais distribuídas em regiões estratégicas, como o Sertão Central e o Baixo/Médio Jaguaribe (com destaque para municípios como Quixeramobim, Morada Nova e Milhã). Políticas recentes de isenção fiscal (como a desoneração de ICMS) e a emissão de certificações como o Selo Arte têm impulsionado a formalização e a expansão desses produtos para mercados de todo o Brasil. A primeira a obter a certificação no interior foi a Queijaria Dona Vita, de Limoeiro do Norte, ampliando seus limites de vendas para o país.

Apesar desse avanço, a grande maioria das queijarias artesanais do sertão cearense ainda possui autorização limitada ao comércio local ou atua na informalidade por falta de inspeção sanitária oficial. Para reverter esse quadro e permitir que mais produtores vendam para o resto do Brasil, entidades como a FAEC e a ADAGRI vêm promovendo novos selos e mecanismos de regularização desburocratizados.

O mapa do leite no CE:

  • 73 mil famílias tiram sustento diretamente da atividade leiteira no CE
  • Entre 83 mil e 85 mil estabelecimentos ou unidades produtoras de leite
  • Agricultores familiares representam de 80% a 86,6% dos produtores de leite
  • Oito polos regionais concentram mais de 80% do volume produzido
  • Quixeramobim é 2º maior produtor municipal e Milhã é a “Terra do Leite”
  • Solonópole, Senador Pompeu e Mombaça são outros produtores.
  • Baixo e Médio Jaguaribe tem forte integração industrial e abriga 2,0 mil queijarias.
  • Morada Nova lidera produção cearense (107,6 milhões de litros) e 2º maior do Nordeste
  • Limoeiro do Norte, Jaguaretama e Jaguaribe também são grandes produtores
  • Alto Salgado: é outra região produtora, a começar por Iguatu e Acopiara
  • Outros polos: Sobral, Cariri, Inhamuns, Vale do Curu e região metropolitana

Valorização da cadeia do leite

A indústria de Laticínios Framilk (Fazenda Bom Jesus) é um exemplo de iniciativa que começou pequena e de maneira artesanal, em 1994, produzindo unicamente queijo coalho. Os proprietários Vicente Francélio Maia e Carmen Lúcia Barreto (foto) apostaram num crescimento sólido e foram agregando novos produtos seguindo o processo de regularização e registro. Passaram a produzir muçarela e, ao longo dos anos, sempre com o objetivo de agregar valor ao negócio, foram ampliando de forma responsável o mix de produtos com diferentes tipos de queijos e outros derivados do leite.

Vicente Francélio Maia e Carmen Lúcia Barreto, proprietários da Framilk. (Foto: Acervo pessoal)

“Olhar para aquele início, na sala de uma casa, e ver tudo o que foi construído ao longo desses anos representa para nós uma história de trabalho, perseverança e evolução”, conta Carmen Lúcia, acrescentando que além da qualidade, são preservados os princípios da responsabilidade e compromisso com a confiança dos clientes.

Como indústria de laticínios, a estrutura de produção da Framilk não depende exclusivamente da propriedade rural, utilizando o leite de produtores parceiros da região. “Essa parceria é fundamental para o funcionamento da indústria e também contribui para fortalecer e movimentar a cadeia produtiva do leite, gerando renda e valorizando os produtores locais”, entende ela.

A família de produtos aumenta regularmente. Além do queijo coalho tradicional e também nas versões com orégano, pimenta, light, zero lactose e muçarela, a Framilk também produz requeijões, ricota fresca, creme de ricota, nata, manteigas, bebidas lácteas e doces de leite, oferecendo diferentes opções aos consumidores.

O variado portfólio é comercializado principalmente no Ceará, atendendo supermercados, mercadinhos e outros estabelecimentos do varejo em diversos municípios, entre eles Pacajus, Cascavel, Horizonte, Pindoretama, Barreira, Buriti, Ocara, Eusébio, Fortaleza, Paracuru, Itaitinga, São Gonçalo, Maracanaú, Sobral, Banabuiú e Morada Nova.

Francélio e Carmen projetam o fortalecimento da marca com novos produtos a partir de investimentos na melhoria dos processos. “Queremos crescer e inovar sem abrir mão da qualidade e da essência que construímos ao longo de mais de três décadas”, afirmam. Eles entendem que a tradição do Ceará na produção de leite e derivados tem uma relação muito próxima com a cultura e a gastronomia cearense que cada vez mais se profissionaliza e investe em tecnologia para garantir qualidade e segurança dos alimentos para um consumidor cada vez mais exigente.

O desafio, segundo eles, é a garantia de fornecimento de leite, que sofre oscilações ao longo do ano. Para isso, é preciso valorizar a cadeia produtiva, a começar pelo produtor de leite, base da indústria de laticínios. Com menor oferta, o setor também enfrenta aumentos de custos.

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