Brasil enfrenta desafio na gestão de resíduos plásticos

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Especialista afirma que o desafio não é o plástico em sim, mas a gestão de resíduos e a desinformação em torno do material. (Foto: Envato Elements)

Como um material que dura séculos pode ser usado uma só vez? O mundo repensa as aplicações do plástico que surgiu nos anos 1900 como mocinho e que virou vilão. O plástico descartável é o centro de debates num mundo que busca a sustentabilidade. A reciclagem é apenas um dos caminhos. E o plástico biodegradável ganha viabilidade.

A solução definitiva, no entanto,passa pela consciência e pela educação de quem produz e de quem consome. Extrair, usar e descartar, no velho modelo linear, saiu de moda, abrindo espaço para a economia circular. Com regras mais rígidas, o mundo e o Brasil buscam alternativas diante de um consumidor mais criterioso.

Há inquietação de ambos os lados. E é enorme o desafio global a ser vencido pela indústria moderna e consciente da transformação do plástico. É preciso ampliar o índice de reciclagem mecânica de plásticos pós-consumo que, no Brasil, é da ordem de 21% a 24,5%, variável conforme o estudo e o tipo de material. Em se tratando especificamente de embalagens plásticas, a taxa de recuperação mecânica alcança até 28,6%, de acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast). Embora o índice brasileiro supere a média global (9% a 9,5%), o País ainda é o 4º maior produtor de lixo plástico do mundo, atrás apenas de Estados Unidos, China e Índia.

O Decreto do Plástico (Nº 12.688/2025), que instituiu o sistema de logística reversa de embalagens plásticas, definiu metas anuais obrigatórias de coleta e reciclagem que deve partir de 32% neste ano de 2026 para 50% até 2040. Também houve a criação de taxas extras de impostos para quem insistir em continuar usando embalagens de uso único. Ao mesmo tempo, algumas iniciativas, como as da WWF, da Fundação Ellen MacArthur, do Movimento Plástico Transforma – parceria entre a Braskem e a Abiplast dentro do Plano de Incentivo à Cadeia do Plástico/PICPlast – apostam na educação como ferramenta de conscientização.

Fomento à economia circular

Para Beto Chaves (foto), presidente do Sindquímica-CE e CEO da Intraplast, é fato que a consciência do consumidor final atingiu patamares nunca antes vivenciados, exigindo cada vez mais transparência corporativa. Ele acredita, no entanto, que ainda faltam alguns setores industriais acompanharem a premissa da atuação sustentável, que ele vê atualmente como a única possível.

Beto Chaves, presidente do Sindquímica-CE e CEO da Intraplast. (Foto: Arquivo pessoal)

“Os continentes, países e organizações mundiais vêm adotando medidas diversas para conter o lixo decorrente do plástico não reciclado, com metas e regulações específicas para esse mercado e punições mais ou menos severas.”

Beto Chaves, presidente do Sindquímica-CE e CEO da Intraplast

E alerta aos agentes desta indústria que na América Latina, por exemplo, o cenário é marcado pela expansão da Responsabilidade Estendida do Produtor (EPR), onde países como Brasil, Chile e Colômbia implementam ou fortalecem leis que responsabilizam as marcas pelo ciclo de vida e logística reversa de seus produtos. Entre os maiores gargalos regionais ele aponta a falta de infraestrutura de coleta, a informalidade no sistema de reciclagem e a falta de consciência e responsabilidade de alguns produtores em relação a uma atuação que viabilize as gerações futuras.

Beto Chaves lembra que a Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC) e o Sindquímica-CE têm sido fomentadores da economia circular e de uma atuação industrial mais próxima da linguagem ESG, cada vez mais sustentável e respeitosa com o meio natural. As entidades dispõem, por exemplo, de boas ferramentas que podem contribuir com essa jornada nas empresas, a exemplo do Projeto Rastreabilidade do Plástico e Economia Circular, por meio do PROCOMPI, e do Selo ESG da FIEC.

O presidente do Sindiquímica-CE acrescenta a união com a academia, como um caminho a ser perseguido. “Sabemos que é lá onde está boa parte das soluções para os problemas”, assegura. A propósito, ele lembra que recentemente o Sindicato esteve na Universidade Federal do Ceará conhecendo a UFC Inova, a Agência de Inovação da instituição, que atua como ponte entre a universidade e a sociedade, cujo objetivo é transformar pesquisas acadêmicas em soluções de mercado, fomentando o empreendedorismo, a inovação tecnológica e a proteção à propriedade intelectual. E o setor plástico deve ser um dos grandes beneficiados com essa parceria. “De mãos dadas, não podemos descartar o papel fundamental das cleantechs, que devem somar a esse cenário de viabilidade cada vez maior do plástico”, afirma ele.

“Vejo o futuro da indústria plástica como cada vez mais possível, com a união dessas forças”, diz o empresário do setor que atua de maneira sustentável e busca, cada dia mais, essa realidade viável para as próximas gerações, inclusive em conformidade com as principais normas internacionais de qualidade e já tendo conquistado o Selo ESG da FIEC.

Think Plastic Brazil

Criado em 2003, o programa de incentivo à exportação do plástico transformado brasileiro, Think Plastic Brazil, que conta com a participação de cerca de 100 empresas associadas, visa o desenvolvimento empresarial e a competitividade do Brasil como player global. Carlos Moreira (foto), diretor-executivo do Instituto Nacional do Plástico (INP) e diretor de projetos do Think Plastic Brazil, diz que com base na ciência, o desafio não é o plástico em sim, mas a gestão de resíduos e a desinformação em torno do material.

Carlos Moreira, diretor-executivo do INP e diretor de Projetos do Think Plastic Brazil. (Foto: Arquivo pessoal)

O estudo Plastics and Sustainability, conduzido pela consultoria Trucost para o American Chemistry Council em 2016, demonstrou que substituir o plástico em bens de consumo por uma combinação de materiais alternativos que cumpram a mesma função elevaria o custo ambiental de US$ 139 bilhões para US$ 533 bilhões por ano, quase quatro vezes mais. “Ou seja, na maioria absoluta das aplicações, o plástico é a escolha ambientalmente superior, não inferior”, defende ele.

Segundo o livro Detonando a Ilusão dos Plásticos, do químico Chris DeArmitt (2025), baseado em mais de quatro mil estudos revisados por pares, em média, 0,45 kg de plástico substitui de 1,36 a 1,82 kg de papel, metal, madeira ou vidro, porque o plástico faz mais com menos massa. O relatório da Denkstatt (2011) é ainda mais categórico: substituir produtos plásticos por outros materiais, na maioria dos casos, aumenta o consumo de energia e a emissão de gases de efeito estufa.

Carlos Moreira sabe que a pressão regulatória e a consciência do consumidor são reais e dá boas-vindas ao novo regulamento europeu de embalagens, com metas de conteúdo reciclado, e ao Decreto brasileiro por criarem demanda estruturada para a reciclagem nacional.

A seu ver, é preciso comunicar a verdade científica sobre o material e, ao mesmo tempo, resolver de vez o fim de vida por meio de coleta, reciclagem mecânica e química. É um desafio de gestão e de comunicação, reforça ele, e não uma sentença contra o plástico. “O Brasil, com sua matriz limpa e sua indústria diversificada, tem tudo para liderar essa narrativa em vez de sofrê-la”, garante.

Respostas práticas

A resposta do setor brasileiro é concreta, mensurável e positiva. Segundo o monitoramento anual do PICPlast, o índice de reciclagem mecânica de embalagens plásticas pós-consumo no Brasil alcançou 24,4% em 2024, com produção de 1,012 milhão de toneladas de resina pós-consumo, e Brasil e México respondem, juntos, por cerca de 76% de todo o plástico reciclado na América Latina. “Temos, portanto, uma das maiores indústrias de reciclagem do hemisfério sul já em operação, com espaço enorme para crescer”, assegura.

O diretor do Instituto Nacional do Plástico aponta a reciclagem mecânica como um processo barato e comprovado, porque reduz tipicamente entre 70% e 80% o consumo de energia e a emissão de gases de efeito estufa em relação à resina virgem. Ele garante que os benefícios ambientais de ampliar a reciclagem superam seus custos em pelo menos 3,9 vezes. Redução, reutilização e reciclagem não são slogans; são estratégias com retorno ambiental auditável.

Conforme o núcleo de inovação, design e sustentabilidade no Think Plastic Brazil, o Global Green Design, há bons exemplos concretos. Na Fispal Tecnologia 2026, a Fibrasa apresentou o projeto Menos é Mais, baseado em ecodesign, que reduz o consumo de polipropileno sem comprometer a resistência das embalagens; a Eurocel lançou fita de polipropileno com 60% de matéria-prima reciclada; a Valgroup apresentou filme stretch com tecnologia de 101 nanocamadas que aumenta a retenção de carga reduzindo o consumo de resina; e a Jaguar Plásticos leva ao mundo a linha Eco Nature, feita com matéria-prima 100% reciclada. “Esse caminho vai longe e vai bem, desde que percorrido com método e sem demonizar o material que, segundo os dados, é justamente o que permite fazer mais com menos”, afirma.

Para ele, a reciclagem química é a peça que completa o quadro, permitindo reaproveitar o que a rota mecânica não alcança. A reciclagem mecânica é e seguirá sendo a espinha dorsal, pela economia e pela baixa pegada energética. Mas plásticos multicamada, filmes contaminados e aplicações que exigem pureza de contato com alimentos precisam de uma rota que devolva o material ao nível molecular, indistinguível do virgem. É exatamente o que a despolimerização e a pirólise fazem.

A boa notícia é que no Brasil isso já saiu do papel, e de forma exemplar. A Braskem, em parceria com a Valoren, construiu em Indaiatuba a primeira planta de reciclagem química do país por pirólise, transformando resíduos sem rota mecânica viável em matéria-prima circular certificada.

Segundo a Braskem, a Anvisa reconheceu a efetividade e a segurança da reciclagem química por pirólise para a produção de plásticos destinados ao contato com alimentos, porque os monômeros gerados têm a mesma pureza dos de origem fóssil, o que destrava o mercado de maior valor, o de embalagens alimentícias.

“O Brasil, com matriz agrícola e energética renovável, tem vantagem comparativa real, especialmente na rota do plástico verde. O que precisamos é transformar essa vantagem em política industrial e em posicionamento de mercado, sem cair na armadilha de trocar um material eficiente por outro que, mal aplicado, pode aumentar o impacto total.”

Carlos Moreira, diretor-executivo do INP e diretor de Projetos do Think Plastic Brazil.

Think Plastic Brazil em números – 2025

  • Promoção comercial envolveu 158 empresas em 13 projetos internacionais, gerando negócios imediatos de US$ 16,67 milhões e expectativa de negócios de US$ 116 milhões, com índice de geração de exportação da ordem de US$ 101 para cada dólar investido.
  • O efetivo de exportadoras ativas cresceu de 157 empresas em 2024 para 190 em 2025, um salto de cerca de 21%.
  • Na Feira Ambiente 2026, em Frankfurt, as 17 empresas geraram mais de US$ 2,2 milhões em expectativas de negócios e mais de 340 novos contatos, vendendo design sustentável, conteúdo reciclado e inovação.

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