O programa de proteção à indústria implementado pelo México já produz efeitos sobre as exportações brasileiras. Um levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgado na última quinta-feira (23), mostra que as vendas dos produtos atingidos pelas novas tarifas caíram 42,5% no primeiro semestre de 2026, na comparação com a média do mesmo período dos três anos anteriores. A redução representa US$ 91,5 milhões em exportações.
Além disso, a entidade apresentará os resultados ao governo brasileiro durante reunião virtual da seção brasileira do Conselho Empresarial Brasil-México (Cebramex). Segundo a CNI, o cenário reforça a necessidade de ampliar o diálogo entre os dois países para evitar novos prejuízos ao comércio bilateral.
Medida mexicana
O governo mexicano lançou o Programa de Protección para las Industrias Estratégicas em janeiro de 2026. Desde então, elevou o imposto de importação de 1.463 códigos tarifários, com alíquotas que, em alguns casos, superam 50%.
Com essa decisão, o Brasil passou a ocupar a quinta posição entre os países mais expostos às novas tarifas, considerando as nações que não possuem acordo de livre comércio com o México. Ao todo, cerca de US$ 665 milhões em exportações brasileiras podem sofrer impacto direto.
CNI defende acordo comercial entre Brasil e México
Diante desse cenário, a CNI defende que o México retire os produtos brasileiros da lista de sobretaxas. Ao mesmo tempo, a entidade pede avanço nas negociações de um acordo de livre comércio entre os dois países.
Segundo a confederação, um tratado comercial pode acrescentar US$ 13,8 bilhões ao PIB conjunto, elevar o comércio bilateral em US$ 3,2 bilhões e atrair aproximadamente US$ 8 bilhões em investimentos.
Para Constanza Negri, gerente de Comércio e Integração Internacional da CNI, as novas tarifas seguem na direção oposta ao fortalecimento da relação entre os dois mercados.
“O aumento de tarifas para alguns produtos preocupa a indústria brasileira e vai na contramão do que o setor busca com o país: aprofundar a relação bilateral e avançar nas negociações de um acordo comercial.”
Ela acrescenta que o México representa um parceiro estratégico para o Brasil, sobretudo em um momento em que a diversificação dos mercados ganha importância para as exportações nacionais.
Insumos industriais concentram maior parte das perdas
O estudo mostra ainda que os maiores impactos recaem sobre os bens intermediários, que representam 78,1% da queda nas exportações. Em outras palavras, as novas tarifas afetam principalmente cadeias produtivas integradas entre Brasil e México.
Entre janeiro e junho de 2026, 113 dos 171 produtos brasileiros atingidos pelas novas tarifas registraram queda nas vendas ao mercado mexicano.
Além disso, alguns segmentos sofreram perdas ainda mais expressivas. As exportações de tubos de ferro e aço utilizados em oleodutos e gasodutos, por exemplo, caíram 100% no primeiro quadrimestre, interrompendo completamente as vendas ao México.
Mais de 90% das oportunidades comerciais enfrentam tarifas
A análise da CNI também identificou 474 oportunidades comerciais para produtos da indústria de transformação brasileira no mercado mexicano. No entanto, 456 delas, o equivalente a 90,3%, continuam sujeitas às tarifas de importação.
As maiores oportunidades concentram-se nos setores de:
- químicos (18,8%);
- máquinas e equipamentos (17,3%);
- alimentos (9,9%);
- produtos de metal (6,1%);
- borracha e plástico (6,1%);
- veículos automotores (5,3%).
Segundo a entidade, essas barreiras reduzem significativamente o potencial de expansão das exportações brasileiras.
Conselho discutirá próximos passos
Ainda na última quinta-feira, o Cebramex reuniu representantes do governo e do setor privado para discutir alternativas de fortalecimento da relação comercial entre Brasil e México.
Além da retirada das tarifas sobre produtos brasileiros e da conclusão de um acordo comercial, a CNI também recomenda ampliar o Acordo de Reconhecimento Mútuo de Operadores Econômicos Autorizados, eliminar barreiras comerciais e fortalecer a cooperação regulatória entre os dois países.
Na avaliação da entidade, essas medidas podem preservar a competitividade da indústria brasileira e criar novas oportunidades para empresas que atuam no mercado mexicano.
Saiba mais:
CNI aponta que crédito à exportação cresceu mais de R$ 15 bi em seis anos
CNI: indústria deve liderar retomada da competitividade brasileira