Yield Hunter: um mercado de oportunidades e de riscos

yield hunter
Os Yield Hunters ficaram mais evidentes após a crise financeira de 2008, quando os juros em várias economias ficaram extremamente baixos por longo tempo. (Foto:

Maior ganho, maior risco. Em se tratando do volátil e sensível mercado financeiro, a regra é clara, mas ganha maior ímpeto frente a mudanças de comportamento nos momentos de oferta de rendimentos menores. O que não mudou foi o interesse de investidores em potencializar rentabilidade apesar da maior exposição ao risco. Ao não se sujeitarem a esperar pela valorização no longo prazo, os recursos buscam fluxo de caixa, juros, dividendos, prêmios de opções, aluguéis de ativos, renda em moeda forte e outras formas de maximizar o retorno.

Trata-se do fenômeno denominado Yield Hunters (caçadores de investimentos), um fato que ficou mais evidente após a crise financeira de 2008, quando os juros em várias economias ficaram extremamente baixos por longo tempo. Os investidores institucionais e individuais viram-se na obrigação de abandonar a segurança dos títulos soberanos de curto prazo para conseguir bater a inflação. Essa “fuga para o risco” em busca de rentabilidade moldou o comportamento global de caça por prêmios mais gordos.

O Brasil, igualmente, identificou este nicho de investidores e oferece produtos atrativos, como o FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios). É o investidor saindo da zona de conforto para buscar renda em crédito privado, ações pagadoras de dividendos, fundos imobiliários, mercados emergentes, ETFs, opções e ativos internacionais, observam especialistas. Convém lembrar, no entanto, que não se pode confundir busca por rendimento com busca por promessa fácil. É preciso atenção e estratégias.

Quem é Yield Hunter? É o investidor que flutua entre os perfis moderado e arrojado, demonstrando uma postura analítica, curiosa e resiliente. Ele compreende que o tempo e a paciência são variáveis que geram valor. Gasta energia estudando teses de investimento, compreende conceitos como “assimetria de risco” e aceita, deliberadamente, abrir mão de liquidez imediata ou absorver um risco de crédito mais acentuado em troca de taxas de retorno substancialmente maiores.

Investimento exige atenção

O economista da SM Consultoria e presidente da Academia Cearense de Economia, Sérgio Melo (foto), entende que o fenômeno do Yield Hunter tende a aumentar no Brasil tendo por conta das altas taxas de retorno que oferece aos investimentos.

Sérgio Melo, presidente da Academia Cearense de Economia. (Foto: Arquivo pessoal)

“Propenso e ciente do risco, diferentemente do investidor tradicional, este público separa recursos para investir em papéis com alta rentabilidade”, define Sérgio Melo. Ele explica que o cenário macroeconômico atual impulsiona a busca ativa por retornos mais rápidos e que o investidor brasileiro ou estrangeiro está atento ao cenário nacional e global em razão das tensões geopolíticas que provocaram aumento das taxas de juros no Brasil e no mundo. “Para os Yield Hunters, há, neste momento, um grande leque de oportunidades, o que provoca maior aumento de ofertas de produtos com grandes rentabilidades”.

O Yield Hunter ganhou força no Brasil a partir da percepção de que a inflação estaria retornando a níveis civilizados e da queda da taxa Selic, anos atrás. Visar a rentabilidade das aplicações passou a ser um grande desafio, seja na identificação de rendimentos lastreados em renda fixa, seja em outros produtos financeiros com alta rentabilidade historicamente.

O economista Sérgio Melo alerta, entretanto, que não há ativos mais ou menos adequados para os Yield Hunters. Estes variam de tempos em tempos e de cada mercado e países. “O investidor nacional ou estrangeiro busca rentabilizar o seu capital de acordo com o seu perfil de risco”. Ele lembra que globalmente tem havido um movimento de migração de investimentos, inclusive com a ajuda das fintechs que abriram as portas, principalmente para o investidor de médio porte, pois criaram mecanismos para investimentos no Brasil e no exterior, neste caso, em moeda estrangeira. “O acesso a investimentos internacionais fez crescer esse mercado para aqueles que antes não tinham acesso”, observa.

Sérgio Melo: “O que deve ser ainda mais desenvolvido é a motivação dos brasileiros terem conta em dólar no exterior ou cartões de crédito específicos para investirem em produtos fora do País. É um mercado que se abre e cria um novo tipo de investidor.”

Para além do mercado local

Na visão de Fábio Murad (foto), sócio e fundador da Ipê Avaliações, o fenômeno do Yield Hunter é mais amplo e não acontece apenas quando os juros estão baixos, porque mesmo em ambientes de juros altos, o investidor sofisticado busca eficiência comparando risco, moeda, liquidez, tributação, inflação e oportunidade global.

Fábio Murad, sócio e fundador da Ipê Avaliações. (Foto: Arquivo pessoal)

Ele observa que o brasileiro sempre teve uma cultura muito forte de renda fixa, CDI e juros altos. Durante muito tempo, bastava deixar o dinheiro em produtos conservadores para obter um retorno nominal elevado. Só que isso criou uma ilusão: retorno alto em reais não significa necessariamente ganho real de patrimônio, principalmente quando se considera inflação, impostos e desvalorização cambial.

Para ele, o fenômeno ganhou força quando o investidor brasileiro percebeu que precisava olhar além do mercado local. Primeiro vieram os fundos imobiliários, dividendos, crédito privado e produtos de renda fixa mais sofisticados. Depois, com a digitalização do acesso ao mercado internacional, muitos investidores passaram a buscar renda em dólar e exposição global.

“Houve mudança de mentalidade”, resume, referindo-se à atitude de deixar de ser apenas um investidor passivo dependente do CDI e passar a ser um investidor global, que entende ETFs, opções, proteção cambial, diversificação por moeda e geração de renda recorrente. Enquanto o investidor tradicional pergunta “onde meu dinheiro rende mais com segurança?”, o Yield Hunter questiona “qual é a melhor combinação entre rendimento, risco, liquidez, moeda, imposto e estratégia?”.

Trata-se de um investidor que necessariamente não é agressivo. Muitas vezes é um investidor conservador que percebeu que ficar parado também é um risco e que o risco não está apenas em perder dinheiro na bolsa, mas em perder poder de compra, ficar preso a uma moeda fraca ou depender de um único país.

Fábio Murad explica que o Yield Hunter é um fenômeno global aberto a investidores que buscam rendimentos nas oportunidades com riscos comparando alternativas nas várias geografias. O investidor moderno não deve olhar apenas para taxa nominal, mas o retorno real, moeda, risco de crédito, liquidez e previsibilidade porque um rendimento menor em moeda forte pode ser mais eficiente do que um rendimento aparentemente alto em moeda fraca.

Fábio Murad: “Não existe Yield Hunter grátis. Todo rendimento tem uma origem. O investidor precisa saber quem está pagando, por que está pagando e qual risco ele está assumindo para receber.”

O investidor brasileiro evoluiu

Por conta da evolução do investidor brasileiro, que se tornou mais globalizado, mais digital e mais consciente dos riscos de concentrar tudo em reais, os investimentos também migraram. Murad aponta alguns destinos como crédito privado, fundos imobiliários, produtos internacionais, ETFs, renda fixa global, ativos dolarizados e estratégias com opções. Também cresceu o interesse por ativos que pagam fluxo recorrente, como dividendos, juros, aluguéis de ativos e prêmios de opções.

Entre as estratégias mais usadas estão: compra de ETFs de renda e crescimento, reinvestimento de dividendos, venda coberta de opções, Wheel Strategy, alocação em renda fixa curta, proteção cambial, diversificação internacional e, em alguns casos, uso de stablecoins apenas como ferramenta de transferência e eficiência operacional, sempre dentro da legalidade e com declaração correta.

A propósito, no Brasil, a CVM regula o mercado de valores mobiliários, fundos e ETFs. O Banco Central regula instituições financeiras, instituições de pagamento, câmbio e, mais recentemente, regras ligadas a prestadores de serviços de ativos virtuais. A Receita Federal trata da parte tributária e declaratória. Embora o direito de escolha do investidor seja livre, a fiscalização é rígida sobre os emissores e distribuidores dos produtos financeiros. A regulação tem se intensificado na direção do princípio de Full Disclosure (Transparência Total). Marcos regulatórios recentes (como a Resolução CVM 175) reestruturaram as regras de fundos de investimento para garantir que os riscos embutidos no crédito privado e em ativos de maior rendimento sejam claros.

Cada vez mais, o regulador aperta o cerco para impedir que plataformas vendam ativos de altíssimo risco disfarçados de renda fixa tradicional. E no exterior, o investidor deve observar as regras do país em que opera, como acontece no mercado americano com seus órgãos reguladores.

Aceleradores do Yield Hunter:
• Queda e alta abrupta dos juros
• Expansão das plataformas digitais
• Maior acesso do brasileiro ao mercado internacional

Ativos mais adequados ao Yield Hunter:

Investidores da base da carteira – ETFs amplos e líquidos são muito eficientes, porque permitem diversificação, baixo custo e exposição a mercados inteiros. Para renda, entram ETFs de dividendos, renda fixa de curta duração, títulos indexados à inflação, fundos imobiliários ou REITs, sempre avaliando risco e liquidez.

Investidores mais preparados – Há estratégias com opções, como Covered Call, Wheel, travas e condors, principalmente sobre ETFs líquidos. Essas estratégias podem gerar fluxo de caixa recorrente, mas exigem conhecimento, controle de risco e disciplina.

Migração estrutural

Na visão de Thiago Cambraia Negreiros (foto), analista Renda Variável na Avin Investimentos, a inflação é o verdadeiro combustível por trás da psicologia do Yield Hunter. “O maior temor desse investidor não é a oscilação diária das cotas, mas sim o fantasma silencioso da perda do poder de compra, porque quando a inflação corrói o ganho nominal, o investidor percebe que a segurança aparente da renda fixa tradicional se tornou um prejuízo real”, explica. E acrescenta que a volatilidade dos mercados tradicionais (como a oscilação agressiva do Ibovespa ou do mercado cambial) funciona como um catalisador desse movimento.

Thiago Cambraia Negreiros, analista Renda Variável na Avin Investimentos. (Foto: Arquivo pessoal)

Diante do cansaço gerado pela instabilidade das ações, o investidor migra em massa para o mercado de crédito privado. Ele busca um rendimento que pareça contratado, “travado” e previsível, embora — e aqui reside o grande alerta de proteção — muitas vezes ele ignore que está trocando o risco de mercado (oscilação) pelo risco de crédito (a possibilidade real de calote da empresa emissora).

De qualquer modo, o analista garante que houve uma migração estrutural das aplicações tradicionais para mais arrojadas. Em momentos de elevação de juros básicos, bilhões de reais deixaram fundos de ações tradicionais e migraram em direção a letras de crédito de bancos médios e fundos de crédito privado estruturados.

A estratégia mais inteligente e sofisticada utilizada pelos caçadores prudentes é a chamada Barbell Strategy (Estratégia da Barra de Peso). Em vez de expor todo o patrimônio a um risco mediano, o investidor divide as extremidades: aloca a maior parte do capital (70% a 80%) em ativos de máxima segurança jurídica e liquidez imediata (como o Tesouro Selic) e destina uma parcela minoritária e controlada (20% a 30%) para os ativos “arriscados” de altíssimo rendimento. Se a parcela de alto risco sofrer algum revés, a base sólida protege a carteira do investidor, exemplifica.

O analista da Avin Investimentos lembra que no atual ambiente de mercado, os instrumentos mais utilizados e tecnicamente adequados para a busca de yields saudáveis envolvem Crédito Privado de Alta Qualidade (Investment Grade) tais como Debêntures, CRIs e CRAs emitidos por empresas líderes de mercado (geralmente nos setores de energia, saneamento e logística) que oferecem taxas competitivas com o benefício da isenção de Imposto de Renda para a pessoa física.

Também são usados os Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs) e Fiagros focados na geração de renda passiva recorrente por meio de aluguéis ou recebíveis imobiliários/do agronegócio, distribuídos mensalmente de forma isenta de tributação. E, ainda, tem as Ações de Valor e Dividendos, papéis de companhias maduras, com forte geração de caixa e baixa necessidade de reinvestimento, operando em setores perenes e protegidos por contratos reajustados por índices inflacionários.

Thiago Cambraia Negreiros: “A diversificação internacional e o acesso a títulos corporativos (bonds) mais sofisticados eram privilégios de contas Private ou grandes corporações com milhões para investimentos. As fintechs e corretoras digitais desintermediaram esse processo numa relação direta, umbilical e indissociável.”

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