A indústria automotiva brasileira pode ganhar vantagem competitiva na transição para uma economia de baixo carbono. Um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) aponta que a produção nacional de veículos leves tem potencial para emitir menos gases de efeito estufa do que cadeias produtivas totalmente importadas.
Além disso, a pesquisa quantifica, pela primeira vez com dados adaptados à realidade brasileira, as emissões geradas desde a extração de matérias-primas até a fabricação dos veículos. O levantamento integra a Linha V do programa Mover (Mobilidade Verde e Inovação), coordenado pela Fundação de Apoio da UFMG (Fundep).
Vantagem competitiva
Segundo o estudo, a matriz elétrica brasileira surge como um dos principais diferenciais competitivos do país. Atualmente, quase 90% da eletricidade consumida no Brasil vem de fontes renováveis.
Nesse sentido, os pesquisadores simularam diferentes cenários de produção. Como resultado, um veículo a combustão fabricado apenas com materiais nacionais pode registrar uma pegada de carbono 32% menor do que um modelo produzido com insumos importados.
Indústria automotiva concentra emissões nos materiais
A equipe analisou 12 veículos representativos do mercado brasileiro. O levantamento incluiu modelos hatch, sedan, SUV, versões a combustão, híbridas, híbridas plug-in e elétricas.
Os resultados mostram que a extração, produção e processamento de matérias-primas respondem por mais de 90% da pegada de carbono dos veículos. Entre os principais responsáveis estão aço, alumínio e polímeros.
Por outro lado, nos veículos elétricos, a fabricação das baterias concentra entre 46% e 47% das emissões da fase produtiva. Isso ocorre devido ao elevado consumo energético e ao processamento de materiais críticos.
Caminhos para descarbonização
O estudo também avaliou estratégias para reduzir emissões ao longo da cadeia produtiva.
Entre elas, destacam-se o aumento do uso de materiais reciclados, a redução de perdas industriais e a adoção de rotas produtivas mais eficientes.
Segundo Joaquim Seabra, professor do Departamento de Energia da Faculdade de Engenharia Mecânica da Universidade Estadual de Campinas (FEM/Unicamp), as ferramentas desenvolvidas ampliam as possibilidades de análise para o setor.
Debate sobre eletrificação
A pesquisa também contribui para o debate sobre veículos elétricos e combustíveis renováveis.
Embora os modelos elétricos não emitam gases de efeito estufa durante o uso, eles geram mais emissões na fase de fabricação. As baterias concentram a maior parte desse impacto.
Contudo, o estudo identifica um ponto de equilíbrio. A partir de determinada quilometragem, o veículo elétrico compensa a pegada de carbono acumulada durante sua produção.
Ao mesmo tempo, os pesquisadores verificaram que veículos flex abastecidos exclusivamente com etanol podem apresentar pegada de carbono inferior à de veículos eletrificados importados. O resultado depende da origem da eletricidade usada na recarga e das condições de produção do biocombustível.
Simulador
A pesquisa mobilizou 26 pesquisadores ao longo de 36 meses. Além disso, contou com a participação de 15 empresas parceiras e 11 associações setoriais.
O projeto gerou centenas de inventários adaptados à realidade brasileira. Dessa forma, os dados podem apoiar decisões empresariais e futuras regulamentações ligadas ao Programa Mover.
Por fim, a equipe prepara o lançamento da ferramenta MOVER-SE. O simulador permitirá que empresas e governos calculem e comparem a pegada de carbono dos veículos leves produzidos no Brasil.
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