O conceito de justiça climática nasce do reconhecimento de uma assimetria brutal: os que menos contribuíram para o aquecimento global são os que mais sofrem com seus efeitos. – Foto: Envato Elements
A crise climática deixou de ser uma pauta exclusivamente ambiental para se afirmar como a face mais recente e contundente das desigualdades históricas. Trata-se, antes de tudo, de uma questão de direitos humanos e de justiça social. O conceito de justiça climática nasce do reconhecimento de uma assimetria brutal: os que menos contribuíram para o aquecimento global são os que mais sofrem com seus efeitos. Enquanto países e corporações acumularam riqueza emitindo carbono sem freios, comunidades marginalizadas — das favelas do Rio às pessoas em situação de rua — pagam o preço com a perda de casas, com o adoecimento e, muitas vezes, com a vida. Essa geometria da injustiça opera com lógica previsível e perversa: quem mais polui costuma dispor de infraestrutura, tecnologia e políticas capazes de mitigar danos e adaptar rotinas; quem vive com uma pegada de carbono mínima é empurrado para a linha de frente das tragédias, sem rede de proteção e sem alternativas. O mapa dessa vulnerabilidade é global — da escassez hídrica e da contaminação do solo em territórios como a Faixa de Gaza, agravadas por restrições de soberania e infraestrutura precária, às periferias urbanas brasileiras onde a ausência do Estado transforma bairros inteiros em zonas de sacrifício.
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Nada disso é acidental. A desigualdade climática é sustentada por engrenagens interligadas. A desinformação, alimentada por lobbies fósseis e amplificada por algoritmos, não é mera ignorância: é estratégia. Ela confunde, desmobiliza e adia políticas de proteção e transição justa, atingindo sobretudo quem tem menos recursos para filtrar mentiras. A materialidade da injustiça aparece quando a chuva cai ou o calor aperta: deslizamentos e enchentes onde faltam saneamento, drenagem e moradia segura; ilhas de calor onde o concreto sufoca e as árvores rareiam; crises hídricas que convertem o básico — beber, cozinhar, higienizar — em disputa. Se as favelas encarnam essa vulnerabilidade, a população em situação de rua é sua face mais radical: sem teto para se proteger de ondas de calor, frios cortantes ou temporais, essas pessoas são as primeiras a sofrer e as últimas a ser socorridas. Adaptar-se ao clima, no mundo real, tornou-se um privilégio — e endereço, paredes e telhado são hoje linha de defesa tão crucial quanto qualquer tecnologia.
É nesse contexto que a escolha de Belém para sediar a COP30 se torna mais do que um gesto geopolítico: vira uma chance histórica de expor, sem filtros, o que significa viver a crise a partir das margens. Na Amazônia urbana, onde a floresta encontra o asfalto e o rio dita ritmos que a modernidade tenta disciplinar, a justiça climática ganha contornos concretos, com rostos, cheiros e histórias. No coração da cidade, o Ver-o-Peso é um mapa vivo dessa tensão: a feira secular onde pescados, ervas, saberes e temperos revelam a inteligência de povos que aprenderam a habitar com a água, com a várzea e com as oscilações do clima. Ali, as ancestralidades marajoaras — em sua cerâmica, cosmologias e tecnologias de manejo — desmentem a fantasia de que só o “moderno” produz soluções. Os conhecimentos que sustentam a vida numa geografia de rios oferecem respostas que o mundo procura, mas seguem subfinanciados, sub-representados e, muitas vezes, apropriados sem reconhecimento.
Belém também espelha, com crueza, a equação global mais incômoda: estruturas modernas e de alto nível para poucos, infraestrutura precária para muitos. Próximos aos hotéis climatizados e auditórios com tradução simultânea onde se negociarão metas de carbono, estendem-se palafitas, bairros de saneamento intermitente e casas que padecem sob ondas de calor. Circuitos turísticos requalificados — cartões-postais “instagramáveis” — convivem com a inacessibilidade econômica e espacial que exclui a maioria, enquanto uma multidão de trabalhadores informais e pessoas vulneráveis, incluindo pedintes, ocupa praças e marquises para sobreviver entre a instabilidade climática, a falta de renda e de políticas consistentes. A cada maré alta, a cada chuva que encontra bueiros entupidos e drenagens insuficientes, ruas se tornam impraticáveis e o custo do clima recai, de novo, sobre quem menos pode se proteger. Belém condensa, assim, a proximidade desconcertante entre o luxo e a vulnerabilidade: o progresso como ilha cercada por risco por todos os lados.
A cidade desafia os decisores a descerem de seus camarotes e caminhar pelo Ver-o-Peso na primeira luz do dia, a ouvir catraieiras e barqueiros que conhecem o regime dos ventos, a conversar com feirantes que percebem no preço do açaí e do pescado os sinais de um clima em desarranjo. Convida a atravessar pontes de madeira nas áreas alagáveis, a sentir o calor pesado entre concreto e umidade, a observar como a maré invade ruas e redefine trajetos. Convida, sobretudo, a reconhecer que, em Belém, adaptação climática começa pelo básico: moradia digna como principal política de adaptação urbana; saneamento e drenagem para que a chuva deixe de ser sinônimo de tragédia; arborização que combata ilhas de calor; transporte público que respeite o tempo do povo ribeirinho e reduza emissões sem punir os de sempre. O debate sobre carbono não pode se apartar da vida cotidiana porque é nela que a crise se materializa — e dela surgirão as soluções mais duráveis.
As ancestralidades marajoaras não pertencem a um passado museológico; oferecem um horizonte de futuro. Técnicas de habitar com a água, organizar o espaço com respeito às cheias e estiagens, produzir e conservar alimentos em ciclos sazonais, erguer infraestruturas leves e resilientes devem pautar urbanistas, engenheiros e planejadores que chegam com mapas e planilhas. O que falta não é inovação: é escuta. Reconhecer saberes amazônicos como ciência e política pública é parte da reparação exigida pela justiça climática, junto com a redistribuição de recursos e poder decisório às populações que mantêm a cidade viva. Combater a desinformação como se combate o carbono — responsabilizando quem lucra com a mentira e fortalecendo redes comunitárias —, democratizar o planejamento urbano com participação real das periferias e tirar da invisibilidade quem vive nas ruas são medidas que alinham ambição climática e dignidade humana.
Enfrentar a crise exige mais do que metas de emissões: requer reparação estrutural. É redistribuir risco e proteção, renda e voz; é transformar a COP30, em Belém, de vitrine em compromisso. Se a conferência usar a cidade como pano de fundo para fotos e promessas vagas, perderá a chance de confrontar o essencial. Se, ao contrário, permitir que a realidade nua e crua de Belém desestabilize protocolos e discursos, poderá inaugurar um caminho de coragem: tratar a moradia como política climática, a informação como infraestrutura, o saneamento como justiça, a participação popular como método e as culturas locais como tecnologia. A luta por justiça climática é, em última instância, a disputa pelo direito de existir em um planeta habitável — e só avançará quando proteger a vida de quem vive na beira do rio e nas bordas da cidade tiver o mesmo peso que os balanços de quem lucra poluindo. Em Belém, diante do Ver-o-Peso e das vozes que o atravessam, essa verdade não cabe em salões refrigerados: exige rua, escuta e decisão.

*Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Trends.
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