Quem já não viu restos de materiais de construção junto a alguma obra pública ou privada? O entulho é apenas a face visível do desperdício e da sobrecarga de insumos extraídos da natureza e nela depositados em forma de entulhos. Não por outra razão, a cadeia da construção no mundo responde por 37% das emissões de gases de efeito-estufa (GEE) e 36% do uso de energia, sob a liderança da fabricação de cimento com 6% das emissões. É verdade que a informação é mundial, mas no Brasil a realidade é semelhante.
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Os principais impactos de materiais como cimento e aço estão no seu processo de fabricação, desde a obtenção das matérias-primas até o transporte para o canteiro de obras. A transição para um futuro mais sustentável passa necessariamente pelo planejamento urbano, pelo projeto com tecnologia da informação (BIM para as edificações e CIM para o ambiente urbano) e por todas as etapas construtivas, a começar por materiais reciclados e reusados, técnicas de construção, políticas públicas e educação.
A mudança significativa na redução e mitigação dos impactos ambientais virá, segundo analistas, pela incorporação da Economia Circular no ambiente construído. Para a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) o setor avança na transição para uma economia de baixo carbono, num esforço conjunto para capacitar a mão de obra, desenvolver tecnologias mais limpas e impulsionar políticas públicas eficientes. A participação na COP 30 reforça o compromisso do setor em ser protagonista de um futuro mais sustentável.
Líder em emissões
Segundo o professor do curso de Engenharia Civil da Universidade Federal do Ceará, Eduardo Cabral (foto), somente a construção civil responde por algo em torno de 8% das emissões mundiais de CO², liderada, em parte substancial, pela parte do cimento e do aço, dada a alta exigência energética, justamente dois dos mais relevantes insumos desta indústria.

O setor também é responsável pela geração de 50% dos resíduos sólidos urbanos envolvendo sobras de materiais e, por conta das demolições, o que explica o fato da taxa de geração nacional, alcançar nada menos do que 500 quilos/habitante/dia. Exemplo próximo pode ser constatado em Fortaleza. Conforme o professor, a capital do Ceará com seus dois milhões e meio de habitantes, gera algo como 2.200 toneladas de resíduo diariamente, somente considerando resíduo de construção.
Também coordenador do Laboratório de Materiais de Construção Civil da Universidade, Eduardo Cabral aponta os materiais sustentáveis e as tecnologias verdes em geral como solução para o país buscar reaproveitar esses resíduos. “É preciso fazer com que os canteiros de obra reaproveitem a água e os próprios resíduos gerados”, diz.
A tendência, que já pode ser percebida, é que o canteiro de obras se transforme em pátio de montagem, dado o avanço da industrialização, com edificação e serviços de automação (gruas e guindastes), ao mesmo tempo em que a mão de obra seja capacitada para a consciência ambiental que leve à baixa geração de resíduos, menor tempo de execução e baixo consumo de energia.
Ele cita a necessidade de uma urbanização com baixo impacto ambiental com o uso de cimento verde, de baixa emissão de carbono. “Produzimos aqui bancos de concreto para espaços públicos que geram mais ou menos um terço do valor de emissão de CO²”, observa, defendendo a necessidade de incentivar iniciativas sustentáveis.
“O estado tem que fomentar o uso de materiais sustentáveis com a redução de taxas e impostos para quem utiliza esse tipo de tecnologia”, afirma, inspirado nas práticas de Nova Iorque que adota o sistema de selos verdes, dos green buildings, premiando os diferentes níveis de aproveitamento de resíduos, redução de consumo de água e redução energética.
Rico em startups, o Brasil poderia, a seu ver, aproveitar as ideias criativas e as soluções desenvolvidas por elas, inclusive na universidade, para tirar das prateleiras os projetos prontos à espera de investidores.
Diferentes realidades
Para o professor do programa de pós-graduação em Engenharia Civil da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Sérgio Fernando Tavares (foto), há diferentes realidades no setor.

No que se denomina de construção convencional, blocos e estrutura em concreto, a literatura técnica aponta um desperdício de 25 a 30%. No universo das chamadas obras secas, ou em painéis, construções em wood frame, por exemplo, este percentual cai para não mais do que 5%.
No entanto, a construção de base industrial é apenas uma das variáveis na complexa relação da construção civil com a natureza. Os impactos ambientais relativos aos resíduos são uma parte, talvez das mais visíveis, deste problema.
O panorama mais amplo e real inclui, além do consumo de energia e a geração de gases do efeito-estufa com o consequente aumento do aquecimento global, a exploração desregrada de matérias-primas, o consumo e poluição das águas e a degradação de biomas e sistemas ambientais.
Tavares, que leciona disciplinas de Sustentabilidade aplicada às edificações e Projetos de Arquitetura mais sustentáveis, diz que a boa notícia é que a ciência já se debruça sobre estas questões há algum tempo e resultados positivos começam a aparecer. E alerta que se não houver ações mais efetivas sobre a exploração e o uso de fontes fósseis de energia, a chamada transição energética e o futuro mais sustentável ficarão mais distantes.
Avanços a caminho
Líder na representatividade do setor, a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) discute metodologias mais aprimoradas de medição de sua responsabilidade na emissão de CO² em busca de ferramentas de monitoramento para padronização de indicadores de modo a viabilizar metas mais efetivas de redução de emissões.
Para o vice-presidente de Sustentabilidade da CBIC, Nilson Sarti (foto), há movimentos importantes na direção de soluções. Ele garante que a separação de resíduos já faz parte da rotina dos canteiros de obras em muitas regiões. Quando realizada diretamente nas frentes de trabalho, facilita o armazenamento temporário, ampliando as taxas de reaproveitamento.

Além disso, há iniciativas de logística reversa e reuso de materiais como blocos, pedras e embalagens metálicas. “Essas boas práticas têm contribuído para ampliar a reciclagem e reduzir a destinação irregular”, afirma ele.
Na área de materiais, ele diz que há avanços, como o uso de madeira engenheirada, técnicas construtivas industrializadas e sistemas que capturam carbono, soluções alinhadas com o esforço global por construções mais resilientes, que requerem adequação dos canteiros às mudanças climáticas. Na prática, a sustentabilidade nos canteiros envolve o uso racional de recursos como água, reutilização de fôrmas e materiais, controle de resíduos e iluminação natural.
Segundo Nilson Sarti, há iniciativas em todo o Brasil que promovem a capacitação para práticas sustentáveis. “Ferramentas como o CECarbon ajudam a orientar obras e profissionais rumo à construção de baixo carbono. E a valorização do trabalhador, a segurança no canteiro e a inclusão também fazem parte desse processo de qualificação”, ilustra.
Urbanismo sustentável
Também estão no radar da CBIC projetos de reocupação de centros urbanos e ações voltadas à segurança hídrica, drenagem e resiliência. A entidade atua na indução de políticas públicas e projetos que reforcem a sustentabilidade nos territórios urbanos.
Convicta de que o urbanismo sustentável é uma ferramenta de mitigação climática, a entidade defende a implementação de soluções integradas de drenagem urbana, gestão de águas e uso racional de materiais. A CBIC acredita que o Brasil vem desenvolvendo políticas públicas, incentivos e mecanismos voltados à construção sustentável. Entre as ações, o vice-presidente cita estímulos via instituições financeiras, exigência de certificações verdes e apoio a soluções tecnológicas mais limpas.
Um exemplo importante é o IPTU Verde, implementado em cidades como Salvador, como incentivo à sustentabilidade urbana. Globalmente, há experiências como o uso de concreto fotocatalítico e tecnologias solares aplicadas à edificação. Nesse sentido, a CBIC cita o papel importante das startups e construtechs verdes para acelerar a inovação no setor.

Case de sucesso: edifício-árvore em SC
Em um mercado imobiliário onde a busca pelo prédio mais alto ainda dita tendências, o Fischer Group aposta em um caminho oposto: um edifício que simula o comportamento de uma árvore e coloca a saúde, a eficiência e a personalização no centro do projeto. Com apenas 26 unidades residenciais e VGV estimado em R$ 100 milhões, o Auris Residenze, que será construído em Balneário Camboriú (SC), propõe um novo modelo de moradia no segmento de alto padrão.
Apelidado de “edifício-árvore”, o projeto tem fachada em concreto pigmentado que muda de cor com o tempo, jardineiras suspensas com irrigação automatizada e brises horizontais inspirados em galhos, que atuam como elementos naturais de regulação térmica e solar.

Com essas soluções, a estimativa é de redução de até 52% no uso de água, 26% no consumo de energia elétrica e 42% na necessidade de ar-condicionado. Além disso, o empreendimento terá certificações internacionais como WELL, focada no bem-estar do morador, e LEED, voltada à eficiência energética e sustentabilidade ambiental. “O Auris não é apenas um novo empreendimento, é uma resposta concreta a uma mudança de paradigma no mercado imobiliário”, afirma Claudio Fischer, presidente do Fischer Group.
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