“Otimização do valor econômico e socioambiental”: pesquisador explica efeitos da governança na atração de capital

João Mário de França, do FGV IBRE e da UFC, analisa os desafios da governança corporativa
João Mário de França, do FGV IBRE e da UFC, analisa os desafios da governança corporativa e seus impactos sobre investimentos e competitividade. (Foto: Acervo pessoal)

A baixa maturidade em governança corporativa ainda representa um desafio para boa parte das empresas brasileiras. Levantamento da Fundação Getulio Vargas (FGV) identificou que 110 companhias de capital aberto apresentam níveis incipientes ou básicos de adoção dessas práticas. Em contrapartida, apenas oito empresas alcançaram pontuação de referência no Índice de Maturidade da Governança Corporativa (IMGC).

Para João Mário de França, pesquisador do FGV IBRE e professor do Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal do Ceará (UFC), a dificuldade não está apenas na criação de estruturas formais. Segundo ele, embora o tema tenha avançado, persistem obstáculos estruturais e culturais que impedem a consolidação de mecanismos efetivos de governança.

“Mesmo com avanços importantes neste tema, ainda existem barreiras em aspectos tanto estruturais quanto culturais que se traduzem nessa baixa maturidade em governança.”

João Mário de França, pesquisador do FGV IBRE

Em entrevista exclusiva à TRENDS, o pesquisador chama atenção para situações em que as empresas criam comitês apenas para cumprir exigências, sem garantir que essas estruturas exerçam suas atribuições. Além disso, a concentração das decisões nas famílias proprietárias ou em poucos acionistas pode limitar a fiscalização externa e dificultar a profissionalização da gestão.

Outro entrave está na predominância de decisões orientadas pelo curto prazo. Nesse cenário, o planejamento estratégico perde espaço, enquanto a falta de documentação das regras internas e de acompanhamento de indicadores compromete a avaliação dos resultados.

Governança influencia competitividade

A adoção de boas práticas de governança também tem efeitos diretos sobre a competitividade das empresas. De acordo com João Mário de França, estruturas bem definidas contribuem para reduzir falhas nas decisões estratégicas, fortalecer a relação com clientes e melhorar a capacidade de atrair e reter profissionais.

O pesquisador destaca ainda que a transparência e a organização dos mecanismos de conformidade ajudam a reduzir a percepção de risco por parte dos investidores. Dessa forma, empresas com processos mais estruturados podem encontrar melhores condições para acessar financiamentos e crédito.

“Boas práticas de governança ajudam na atração de investimentos, pois diminuem a incerteza de informações para os investidores, dada sua maior transparência e por terem um compliance bem estruturado, sendo vistas como de menor risco de fraudes.”

João Mário de França, pesquisador do FGV IBRE

Além dos efeitos financeiros, a governança contribui para a continuidade das operações. Isso ocorre porque o planejamento de riscos reduz a exposição a crises legais e de reputação. Da mesma maneira, regras de sucessão bem definidas ajudam a preservar a gestão e a operação dos negócios diante de mudanças na liderança.

Índice avalia seis dimensões da gestão

O diagnóstico da FGV considera informações públicas de 321 companhias, referentes ao ano de 2024 e divulgadas em 2025. Desenvolvido pela FGV Alta Gestão, o IMGC utiliza 65 questões distribuídas em seis dimensões: conselho de administração, auditoria e controles internos, transparência e divulgação, estrutura de propriedade, remuneração executiva e reputação e conduta.

A pontuação média das empresas avaliadas foi de 64,31 pontos, abaixo da referência intermediária de 69,14 pontos. Além disso, a diferença entre os resultados evidencia a distância entre as companhias: a maior nota chegou a 91,54, enquanto a menor ficou em 21,08 pontos.

Na avaliação de Gilberto Sarfati, coordenador dos programas da FGV Alta Gestão, parte das dificuldades está relacionada à falta de independência dos conselhos, à ausência de comitês com atribuições claras e à concentração acionária sem mecanismos suficientes de controle. O especialista também aponta os custos de manutenção de estruturas profissionais como um obstáculo, sobretudo para empresas menores.

Oito empresas alcançam nível de referência

Entre as companhias com melhor desempenho no levantamento estão B3, Embraer, Odontoprev, Prio, Suzano, Telefônica Brasil (Vivo), Totvs e Vale. As oito registraram pontuações entre 89,23 e 91,54 pontos.

Segundo Sarfati, o resultado reflete a consistência das práticas adotadas nas diferentes dimensões avaliadas. Entretanto, a pontuação representa o nível de maturidade observável em governança, e não uma medida direta da qualidade geral da empresa ou de seu desempenho financeiro.

A evolução, por sua vez, não depende necessariamente da criação de novas estruturas. Conforme a avaliação do coordenador da FGV Alta Gestão, empresas podem avançar em um período de 12 a 24 meses ao conectar mecanismos já existentes, fortalecer a independência dos conselhos, documentar procedimentos e ampliar a autonomia das áreas de compliance.

Nesse processo, também ganham importância canais efetivos de denúncia, diversidade na liderança, políticas de remuneração de longo prazo e compromissos públicos de governança, como a adesão ao Novo Mercado.

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