Ana Uriarte: IA reduziu os custos de desenvolvimento de startups

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Ana Uriarte, referência em inovação, analisa o crescimento das startups em PE, o impacto da IA generativa e as perspectivas do Mangue.Bit. (Foto: Magnific)

Uma das principais referências em inovação e empreendedorismo de Pernambuco, Ana Uriarte integra a coordenação do Mangue.Bit 2026 e faz parte da Comunidade Manguezal, uma das mais importantes redes de fortalecimento do ecossistema de startups do Estado. Cofundadora da Plataforma Quark, foi reconhecida pelo MIT Innovators Under 35 Latin America, é TEDx Speaker, alumni do programa YLAI 2024.

Ana Uriarte é embaixadora do Brazil at the Latin American Leadership Academy (ALAS) e participante do Halcyon EquityTech 2025. (Foto: Divulgação)

Com atuação voltada às áreas de edtechs e govtechs, também é coautora do livro Ecossistemas de Inovação. Nesta entrevista, ela analisa a evolução das startups em Pernambuco, os desafios do empreendedorismo inovador e as perspectivas para o Mangue.Bit, que celebra dez anos em 2026.

Confira a entrevista:

Mangue.Bit completa dez anos em 2026. Como você avalia a evolução do ecossistema de startups de Pernambuco ao longo dessa década?

Ao longo dos últimos dez anos, o ecossistema de inovação de Pernambuco — e do Nordeste como um todo — consolidou-se como um grande celeiro de talentos e de empresas de base tecnológica. Hoje vemos empreendedores criando soluções cada vez mais competitivas, capazes de atender clientes em todo o Brasil e até no exterior. Esse amadurecimento é, para mim, a principal diferença em relação ao cenário de uma década atrás. O propósito do Mangue.Bit sempre foi ajudar a acelerar esse movimento. Mais do que realizar um evento, queremos criar oportunidades para que empreendedores façam conexões, fechem negócios e mostrem ao Brasil a qualidade da inovação produzida no Nordeste.

Quais são, hoje, os maiores desafios enfrentados por uma startup que deseja crescer de forma sustentável no Brasil?

Na minha visão, o maior desafio é construir um modelo de negócio realmente escalável. Alguns anos atrás, talvez eu dissesse que o principal obstáculo era conseguir recursos para desenvolver a tecnologia. Hoje, com a inteligência artificial generativa e outras ferramentas que reduziram significativamente os custos de desenvolvimento, esse deixou de ser o maior gargalo. O desafio passou a ser o mercado: entender quem é o cliente, por que ele compraria a solução e como transformar isso em um processo de vendas repetível e sustentável. Em outras palavras, criar tecnologia ficou mais fácil; construir um negócio continua sendo a parte mais difícil.

O tema do Esquenta Mangue.Bit aborda vendas e crescimento. Na sua visão, por que vender ainda é um dos maiores gargalos para startups em estágio inicial?

As vendas continuam sendo um dos maiores desafios porque, quando criamos um produto inovador, normalmente também estamos criando um modelo de negócio que ainda não existe. Gosto de usar a metáfora da padaria: quando alguém abre uma padaria, todos já sabem como esse negócio funciona. Já uma startup precisa descobrir quem é o cliente, como vender, quanto cobrar e como transformar tudo isso em um negócio sustentável. Por isso, aprender com quem já percorreu esse caminho faz tanta diferença. Ouvir empreendedores que estruturaram operações comerciais, validaram seus modelos de negócio e construíram empresas financeiramente sustentáveis acelera o aprendizado e evita erros que custam tempo e dinheiro.

Você foi reconhecida pelo MIT Innovators Under 35 e participou de programas internacionais de liderança e inovação. Quais aprendizados dessas experiências podem ser aplicados ao ecossistema pernambucano?

Essas experiências me deixaram dois grandes aprendizados. O primeiro é que o Brasil produz tecnologia, pesquisa e empreendedores capazes de competir em nível global. Nosso desafio não é copiar modelos de outros países, mas compreender a nossa realidade e desenvolver soluções que façam sentido para o nosso mercado. O segundo aprendizado é que o empreendedor brasileiro precisa pensar maior. Como o Brasil já é um mercado muito amplo, muitas vezes limitamos nossa ambição ao território nacional. No entanto, vários dos problemas que resolvemos aqui também existem em outros países. Quando percebemos isso, começamos a enxergar oportunidades de expansão internacional que antes pareciam distantes.

Como cofundadora da Plataforma Quark, quais foram os principais desafios ao transformar uma ideia em um negócio?

Um dos maiores desafios foi validar que o problema que queríamos resolver realmente existia e que a solução gerava valor para quem iria utilizá-la. Muitas pessoas se apaixonam pela solução antes de compreender profundamente o problema, e acredito que esse seja um dos erros mais comuns no universo das startups. Na Quark, sempre buscamos manter um olhar muito próximo do usuário e validar continuamente nossas hipóteses. Foi um processo desafiador, mas também o maior aprendizado da empresa: boas startups não nascem apenas de grandes ideias, e sim da capacidade de ouvir o mercado e evoluir constantemente.

Pernambuco tem se consolidado como um polo de inovação. O que ainda falta para que mais startups locais consigam escalar nacional e internacionalmente?

Pernambuco já é um polo de inovação consolidado e relevante no Brasil. Temos talento, capacidade técnica e empreendedores qualificados. O que ainda precisamos desenvolver é uma mentalidade mais orientada ao mercado. Muitas startups nascem focadas em resolver um problema local e acabam limitando a própria ambição. Quando a empresa passa a enxergar o Brasil — e até outros países — como mercado desde o início, as possibilidades de crescimento aumentam significativamente.

O networking é apontado como um dos grandes diferenciais do Mangue.Bit. Que oportunidades concretas os participantes encontrarão na edição deste ano?

O networking sempre foi um dos grandes diferenciais do Mangue.Bit, mas acreditamos que conexão só faz sentido quando gera oportunidades. Por isso, nesta edição teremos três palcos com conteúdos distintos, rodadas de matchmaking entre startups e investidores, encontros com grandes empresas e uma arena dedicada ao networking. Além disso, mais de 100 startups estarão expondo seus produtos e serviços, criando inúmeras oportunidades para novas parcerias, conquista de clientes e geração de negócios.

As áreas de edtechs e govtechs fazem parte da sua trajetória. Quais tendências você enxerga para esses setores nos próximos anos?

Acredito que uma das principais tendências será o uso cada vez mais estratégico de dados na educação. Governos e instituições estão percebendo que decisões baseadas em evidências geram políticas públicas muito mais eficientes. Ao mesmo tempo, a inteligência artificial transformará profundamente a forma como ensinamos e aprendemos. Isso envolve tanto a personalização da aprendizagem quanto o apoio aos educadores. Naturalmente, esse avanço também ampliará o debate sobre regulamentação, ética e uso responsável dessas tecnologias.

A edição de 2026 promete mais experiências, novos palcos e foco na geração de negócios. O que o público pode esperar de diferente em relação aos anos anteriores?

O Mangue.Bit 2026 foi planejado para gerar ainda mais oportunidades de negócios. Ampliamos a programação de conteúdo, criamos novos espaços de interação entre startups, investidores e empresas e aumentamos significativamente o número de startups expositoras. Tudo isso parte da mesma ideia: colocar o empreendedor no centro da experiência. Queremos que quem participe do evento saia não apenas inspirado, mas também com conexões, aprendizados e oportunidades concretas para acelerar o crescimento do seu negócio.

Que conselho você daria aos jovens empreendedores que têm uma boa ideia, mas ainda não sabem como dar os primeiros passos para criar uma startup de sucesso?

Meu principal conselho é: não tente empreender sozinho. Criar uma startup já é uma jornada naturalmente desafiadora. Quando você se conecta com empreendedores mais experientes, programas de aceleração, comunidades e eventos de inovação, aprende muito mais rápido e evita erros que poderiam custar tempo e dinheiro. No empreendedorismo, pedir ajuda não é sinal de fraqueza; é uma das formas mais inteligentes de acelerar o próprio crescimento.

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