Em entrevista exclusiva ao Portal Trends, Cid Alves, comerciante do segmento de material de construção e presidente do Sindilojas Fortaleza conta um pouco da trajetória de 65 anos das Casas Alves, a serem completados em novembro.
O legado, criado pelo avô Raimundo Alexandre Alves (foto) e continuado pelo pai Joaquim Alves, que, com mais de 90 anos, ainda marca presença frequente na empresa, conta com sua liderança, mas Cid Alves começa a preparar mais uma sucessão, repassando a experiência e o aprendizado de três gerações à irmã Raquel. Aqui, o nome do jogo é coragem e ousadia.

TrendsCE: A Casas Alves é uma referência em varejo de material de construção. Então, o senhor pode descrever um pouco desta história?
Cid Alves: Meu pai (foto) e meu avô fundaram as Casas Alves em novembro de 1961, num tempo em que não existiam CGC e CNPJ. Em 1976, meu pai abriu uma filial na Rua 25 de Março, em São Paulo, que era completamente diferente da atual, dominada pelo comércio ambulante. Lá havia muitos comerciantes estrangeiros, especialmente árabes, judeus e portugueses, estabelecidos em lojas.

Meu avô faleceu em 78, quando eu também fui para São Paulo, onde iniciei a faculdade de Administração. Voltei para Fortaleza em 82. Na época, meu pai tinha comprado estoque de ferragens, que meu avô gostava muito, como material de construção, que era vendido desde o interior da Bahia até o Maranhão através de vendedores externos. Foi aí que senti gosto por materiais de construção. Também fazíamos venda de perfumaria e utilidades. Vendíamos até comestíveis no atacado, até que em uma de nossas lojas começamos a vender no varejo artigos de cabeleireiro, além da perfumaria e itens como sabonete, shampoo e desodorante.
A decisão nos tornou o maior vendedor deste tipo de artigos para salões de cabeleireiro, supermercados e farmácias. Com isso, incrementamos nossas vendas, aumentamos nosso capital e assim conseguimos entrar mais fortemente no ramo de material de construção, o que nos colocou, em 95, entre os 10 maiores revendedores de cerâmicas no Brasil e entre os três maiores no Nordeste.
Crescemos e nos desenvolvemos. Fizemos a sucessão. Depois de vendermos de tudo, até confecções, sutiã e cuecas samba-canção, resolvemos focar mais em material de construção. Em 1997, meu pai foi homenageado como Lojista do Ano. Depois disto, ele decidiu montar uma estrutura para a política no nosso município, o Barro, com a abertura de uma rádio. Ele também fez investimentos numa fábrica no Crato e no agronegócio (gado e cana de açúcar) no Barro, com bons resultados.
Em 2005, depois da especialização em material de construção, tive um período fora por conta de um acidente com o filho Alexandre, quando saí da empresa, e em 2008 montei uma empresa para meus filhos. Foquei o negócio em tintas, que era tocado pelo meu filho André, falecido há um ano. E nas Casas Alves, a minha Irmã Raquel (foto) está à frente dos negócios onde está indo muito bem.

Como o senhor define a fase atual do grupo e posicionamento no mercado?
Nós estamos numa crescente. A gente não retomou ainda o espaço que era nosso. Com os nossos afastamentos e a separação na família que houve lá em 2005, quando meu tio, irmão do meu pai, também saiu da empresa. Os negócios sofreram com a ausência da gente. Mas Raquel está trabalhando bem e agora já temos seis CNPJs, com faturamento crescente e estamos conseguindo reconquistar parte do que a gente não chegou a perder, mas também não aumentou ao longo do tempo.

Quais os principais desafios e oportunidades do varejo de construção e os impactos do cenário econômico no setor?
O Ceará, é fato, está indo muito bem no que diz respeito à construção civil e, consequentemente, a gente também pode dizer que está bem, o setor de modo geral está muito bem, porque quando a construção civil está bem, o setor de material de construção, a revenda de material de construção, vai muito bem também. Então, se não acontece isso com todos, é claro que sempre tem uns que conseguem conquistar mais espaço do que outros, então, é isso mesmo, faz parte da rotina de qualquer negócio. Mas, a verdade é que o setor se encontra muito bem e nós estamos também, no que diz respeito a crescimento, também estamos evoluindo. Perdemos o mercado, como eu disse, mas estamos reconquistando através da Raquel.
Diante dos novos hábitos de consumo, como o varejo de construção enfrenta essa transformação diante de um consumidor que também mudou seu perfil (profissional x autoconstrução)?
Os hábitos de consumo, principalmente no que diz respeito à compra pelas plataformas, pelos e-commerces, o material de construção é pouco afetado, porque esse setor é muito técnico e pesado. Não há como, quem vai comprar o material de construção, decidir tudo pelas plataformas, apenas olhando a fotografia. É preciso pegar o material, sentir o material é muito importante. É uma venda muito técnica, como eu disse, a pessoa tem que sentir o brilho, o acabamento. Quando se coloca uma cerâmica em casa, ela fica vários e vários anos. É um investimento alto, que deve ser observado com mais cuidado.
Nesse contexto, como vem sendo o crescimento e estratégia de expansão da Casas Alves?
Conjuntamente estamos vendo e percebendo as reais necessidades e também possibilidades de crescimento, e já esse ano ou para o começo do ano que vem a expansão vai acontecer. Como já dito, temos seis CNPJs. E há também a vontade de se abrir mais unidades, inclusive em cidades do interior. Para isso estamos analisando e vendo qual é a cidade.
Como o senhor avalia a cadeia de suprimentos neste novo mercado? E o quanto isto repercute na eficiência operacional?
A cadeia de suprimentos nesse novo mercado está complexa. Complexa e dinâmica. E esse dinamismo, por um lado, traz uma boa qualidade. O produto tem melhorado, os acabamentos dos produtos têm melhorado bastante, mas os preços, em alguns casos, têm caído bastante, principalmente quando a gente compara o produto fabricado no exterior com o produzido aqui no Ceará ou em São Paulo, ou no Sul do Brasil. O produto estrangeiro, principalmente dos países orientais, tem chegado aqui mesmo com 90 dias de transporte marítimo, por exemplo, às vezes chega aqui mais barato e essa complexidade tem feito a gente se antenar para que nesse intervalo, do dia da compra efetiva até a entrega, não fiquemos sem produto e nem ficar fora às vezes por conta de qualquer anomalia como a que houve em função da guerra que, complica a logística.
Precisamos ficar atentos e preparados, e eu acho que a maioria dos comerciantes aqui do Ceará está preparada para lidar com a essa dinâmica da cadeia de suprimentos. O setor de material de construção está organizado para isso.
Tradicionalmente, o governo vinha sendo um cliente de destaque através de seus programas. A relação com o segmento privado mudou?
O governo vem adquirindo bastante no Ceará. Me refiro ao governo federal com o Minha Casa, Minha Vida, que vem se desenvolvendo bastante aqui. Os investimentos privados têm ido muito melhor, incomparavelmente melhor. Com isso a gente tem crescido sob todos os aspectos, em faturamento e em qualidade do produto vendido, o que agrega mais valor para o imóvel e em resultados nas vendas de materiais. Um metro de cerâmica da mais popular dá um lucro. O metro do porcelanato de alto padrão, que é o que está se comprando mais aqui no Ceará, por exemplo, não é só isso não, mas o alto padrão, desta mercadoria adquirida pela iniciativa privada para produzir os imóveis de alto padrão, deixa uma remuneração melhor. A gente está conseguindo perceber com muita nitidez um crescimento na quantidade e qualidade dos imóveis.
Especificamente sobre a Casas Alves, em que fase está o tema sucessão e o processo de transição geracional dentro da empresa?
Raquel tem 30 anos de idade. A gente tem um tempo para amadurecer. Ela é a renovação. Através dela, vamos preservar a Casa Alves, porque não se pode perder esse patrimônio que iniciou com meu avô, continuou com meu pai, com meu tio, que tem outros negócios, e comigo. Tive problemas pessoais e vou retomar as atividades, pelo menos uma pequena parte. Vou colaborar com Raquel e acho que a gente vai conseguir manter as Casas Alves por mais uns 65 anos.
Saiba mais:
Cid Alves propõe convergência de ações para evolução do agronegócio cearense
Casas Alves estima faturamento anual de R$ 100 milhões, afirma Cid Alves