O agro nordestino está em expansão e ganha relevância na economia regional com crescimentos acima da média nacional. Apoiado em polos como o Matopiba, Vale do São Francisco e o triângulo Sergipe, Alagoas e Bahia (Sealba), o agribusiness do Nordeste avança baseado nas tecnologias de irrigação que resultam em alta produtividade. A fruticultura é o grande motor, mas a diversificação de culturas começa a marcar presença forte como a pecuária de caprinos e ovinos.
Nichos de alto valor
Para a Federação da Agricultura e Pecuária do Ceará (FAEC), o potencial competitivo do Nordeste está em nichos de alto valor, condicionado ao avanço em eficiência, infraestrutura e gestão sustentável dos recursos. O agro nordestino não compete em volume, mas em eficiência localizada e valor agregado, especialmente em cadeias como a fruticultura irrigada, que é um modelo intensivo em tecnologia e dependente de controle hídrico, com alta produtividade por hectare. No entanto, uma das condições é a necessidade de elevados investimentos, em comparação com outras culturas.
“A eficiência não é homogênea na região, concentrando-se em polos tecnificados”, garante a equipe técnica da FAEC. O grupo, que acompanha a evolução de perto, explica que o modelo não é amplamente replicável, pois exige disponibilidade hídrica, energética, infraestrutura e acesso à tecnologia. Ou seja, a produção de alto valor compensa parcialmente a falta de escala, sendo viabilizada pela inserção de produtos específicos em mercados internacionais.
Para o grupo técnico, a tecnologia tem papel central na mitigação de riscos e no uso eficiente de insumos, mas não resolve integralmente limitações estruturais. Neste sentido, observam que as agtechs ganham espaço, sobretudo nas áreas de monitoramento, irrigação e gestão, com potencial de expansão em áreas como logística e financiamento.
E reforçam que a irrigação é essencial, mas traz desafios relacionados à variabilidade climática, o que deve melhorar quando a transposição do rio São Francisco estiver em plena operação.
Vocação frutífera
O Nordeste pode contribuir para o crescimento ainda maior do agronegócio no cenário nacional e internacional? O pesquisador da Embrapa Semiárido, João Ricardo Ferreira de Lima (foto), responde prontamente que a fruticultura é a vocação da região com destaque para manga, melão, melancia, uva e mamão. Por força da irrigação e da tecnologia, essas culturas têm relevância na pauta exportadora brasileira. “Nestes casos, o Nordeste é mais eficiente do que as demais regiões do Brasil e acima da média mundial”, garante.

Conforme dados da Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), em 2025, pelo terceiro ano consecutivo, as exportações brasileiras de frutas bateram recorde com crescimento de 12% em valor e quase 20% em volume. E a região do Vale do São Francisco, entre Bahia e Pernambuco, é um polo de excelência. Trata-se de um modelo que pode ser reaplicável em outras regiões, desde que tenham as mesmas condições climáticas, em especial, sol em abundância e água para irrigação. A propósito, já existem experiências com o uso de sensores que entendem as necessidades de água e libera o que cada planta necessita, economizando um recurso natural escasso.
Apesar do sucesso, há dificuldades a serem enfrentadas devido aos altos custos de produção, superiores aos dos países concorrentes. Entre elas, João Ricardo cita as práticas protecionistas, como as impostas pelo governo americano em 2025. No caso da Europa, ele acredita que a solução deverá chegar junto com o início do acordo com o Mercosul, que zera imediatamente a tarifa de importação de uvas, por exemplo. A seu ver, a competitividade nacional fica demonstrada pelo aumento dos embarques sempre que faltam frutas nos EUA e na Europa, seja por quebra de safra, sazonalidade ou pelo crescimento de demanda.
De resto, desconsiderando o litoral canavieiro, agronomicamente ele sabe que a produção agrícola é mais difícil por limitações de solos, pela concentração fundiária, chuvas irregulares, baixo nível tecnológico, acesso à crédito e, ainda, baixa qualificação dos produtores. Nesse sentido, ele lembrou o papel das agtechs que podem atuar tanto na parte de gestão do agronegócio, fundamental para a profissionalização exigida pelo nível atingido pela fruticultura, quanto a parte de aumento de eficiência produtiva, com redução de custos, e o aumento da agricultura de precisão, da robotização, da mecanização e do uso de Inteligência Artificial no campo.
Para ele, a tecnologia é fundamental não só porque viabilizou a produção em todas as semanas do ano e com alta produtividade, mas também por não substituir a necessidade de mão de obra. “Temos aqui um caso interessante onde se produz culturas intensivas em tecnologia e mão de obra, diferente do caso da soja, por exemplo, onde a tecnologia reduziu drasticamente a necessidade de pessoas no campo”, ilustra.
O pesquisador da Embrapa Semiárido alerta, entretanto, que o atual estágio de desenvolvimento da fruticultura no Nordeste está demandando novas tecnologias, pois a disponibilidade de mão de obra é menor do que o necessário para o incremento de novas áreas. E antevê que mecanização, robotização e uso de IA devem alterar o visual dos campos em um curto prazo, assim como já ocorre com o uso de drones.
Disparidade no progresso
O consultor legislativo do Senado Federal nas áreas de Economia e Agricultura, o engenheiro agrônomo Marcus Peixoto (foto), presidente da Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural (SOBER), vê disparidade entre o progresso tecnológico das cadeias produtivas do agronegócio e a precariedade dos indicadores sociais nas áreas de agricultura familiar. “O sucesso regional não pode ser dissociado da preservação biótica e da inclusão produtiva dos mais pobres”, afirma.

Ele entende que a Política de PSA (Pagamento por Serviços Ambientais) e os novos planos de combate à desertificação devem ser integrados ao crédito rural e à assistência técnica para garantir que o desenvolvimento seja, de fato, sustentável e resiliente às mudanças climáticas que ameaçam a região.
O Nordeste convive com extremos: de um lado, polos produtivos e tecnificados voltados a mercados consolidados e à exportação; e no outro, uma agricultura familiar de subsistência vulnerável a adversidades climáticas, com baixo acesso a políticas públicas voltadas para a produção e dependente de programas sociais e de transferência de renda. Trata-se de biomas distintos — Caatinga (predominante no sertão), Mata Atlântica (faixa litorânea), Cerrado (oeste da Bahia e sul do Maranhão/Piauí) e Amazônia (oeste do Maranhão) — e climas que variam do tropical úmido ao semiárido.
Marcus Peixoto levanta, também, a gestão fundiária e o avanço da agropecuária no Matopiba. No Nordeste, o Decreto nº 11.767/2023 criou um Comitê Gestor para elaborar o novo Plano de Desenvolvimento Agropecuário e Agroindustrial do Matopiba – PDA-Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), originalmente criado em 2015 para promover e coordenar políticas públicas voltadas ao desenvolvimento econômico, ambiental e social sustentável.
Segundo ele, o novo PDA-Matopiba ainda não foi efetivamente publicado pelo Comitê, mas tudo indica que se limitará à harmonização dos programas, dos projetos e das ações federais existentes. “Essa articulação programática é fundamental, mas pode ser insuficiente diante das restrições fiscais e orçamentárias da União, e de demandas complexas e específicas de desenvolvimento da região”, alerta.

Na região, o crescimento da sojicultora, em rotação com milho e algodão, principalmente, é impulsionado por tecnologias mecanizadas e capital intensivo, mas frequentemente gera processos de fragmentação territorial e vulnerabilidade para as atividades preexistentes. Entre 1985 e 2020, a área destinada à atividade agropecuária passou de 5,6 milhões de hectares para 14,6 milhões de hectares, um aumento de 258%, graças a condições climáticas propícias e o baixo valor das terras agricultáveis, quando comparadas às do Sul e Sudeste.
As áreas produtoras de soja no Matopiba cresceram 114% nas últimas 10 safras (até 2025), alcançando cerca de seis milhões de hectares, segundo a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento). A produção de soja na região do Matopiba na safra 2024/2025 ficou em 32 milhões de toneladas, 19% do total do país, de 166,1 milhões de toneladas. A safra de grãos (cereais, leguminosas e oleaginosas) de 2025 atingiu 346,1 milhões de toneladas, um recorde na série histórica iniciada em 1975, conforme o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA) do IBGE.
Instrumentos de crédito
O consultor legislativo lembra que o Governo Federal anunciou R$ 516,2 bilhões para custeio e comercialização (R$ 414,7 bilhões) e investimento (R$ 101,5 bilhões) no Plano Safra 2025/2026, destinados à agricultura empresarial. Desse total, R$ 69,1 bilhões são para médios produtores (PRONAMP), e o restante para cooperativas e demais produtores. “Será obrigatório seguir as recomendações do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc),” alerta.
Paralelamente, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF), também prevê o Plano Safra da Agricultura Familiar. Na safra 2025/2026, R$ 78,2 bilhões estão destinados a créditos do PRONAF. Outros R$ 5,8 bilhões integram o Plano para coberturas do Proagro, e R$ 1,1 bilhão para o Benefício Garantia-Safra. São recursos do Fundo Garantia-Safra para garantir a subsistência e de continuidade da produção agropecuária aos agricultores familiares estabelecidos em municípios situados na área de atuação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE).
Também está prevista a elaboração do Plano Regional de Desenvolvimento do Nordeste (PRDNE), como parte da Política Nacional de Desenvolvimento Regional (PNDR), que tem o Banco do Nordeste como um dos principais instrumentos de financiamento do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE).
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