Socorridos, exportadores precisam reduzir perigosa dependência do mercado americano

Por: Gladis Berlato | Em:
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O tarifaço gerou um plano de contingência alinhado aos interesses dos exportadores, mas acendeu o alerta de que é preciso diversificar a dependência de transações externas tanto em produtos quanto em mercados. (Foto: Envato Elements)

Apesar do recuo frente à ameaça inicial de Donald Trump aos produtos brasileiros, o estrago continua devastador. O duelo comercial que chegou sem disfarce, com o viés político-institucional, gerou confusão e prejuízos à economia nacional que, sem precedentes, passou longe das civilizadas negociações entre as Nações parceiras há dois séculos. Dentro ou fora da lista de exceções – basicamente formada por insumos necessários à indústria americana – o fato é que as tarifas continuam pesadas.


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O tarifaço gerou um plano de contingência alinhado aos interesses dos exportadores porque envolve financiamento, seguro, crédito tributário e compras governamentais, mas acendeu o alerta de que é preciso diversificar a perigosa dependência na pauta verde-amarela de transações externas tanto em produtos quanto em mercados, um processo lento e que já está atrasado. A diversificação geográfica estruturada passa pelo mapeamento e priorização de mercados com baixo risco tarifário e maior estabilidade regulatória, aproveitando acordos comerciais do Brasil e do Mercosul. E outros que vierem.

Prejuízos de Norte a Sul

O impacto não poupou a geografia brasileira. Levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que praticamente todos os estados sofrerão as consequências. O Ceará e Espírito Santo, com forte dependência do mercado americano, podem ser especialmente afetados. Afinal, quase metade das exportações cearenses vai para os EUA. E o Espírito Santo embarca para lá nada menos do que um terço do que exporta. Em outros 11 estados, a participação americana nas vendas externas varia entre 10% e 20%. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que as tarifas impostas afetam os 22 estados brasileiros, com impacto superior a 95% em oito deles.

Levantamento preliminar da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul aponta que 85% dos produtos exportados por empresas gaúchas serão taxados, o que exigirá compensações por parte dos governos federal e estadual.

CNI defende negociação

Um cálculo dá a dimensão do prejuízo: em 2024, cada R$ 1 bilhão exportado ao mercado americano criou 24,3 mil empregos, R$ 531,8 milhões em massa salarial e R$ 3,2 bilhões em produção no Brasil. Fica fácil imaginar o que pode acontecer a cada bilhão não exportado.

Para a CNI, o momento exige negociação e não retaliação porque a medida compromete cadeias produtivas, reduz a produção, ameaça empregos e investimentos e contratos de longo prazo. A proposta da entidade é que o governo federal adote medidas para atenuar efeitos da sobretaxa, especialmente para salvaguardar pequenas e médias empresas.

“Seguimos defendendo a negociação como forma de convencer o governo americano que essa medida é uma relação de perde-perde para os dois países, não apenas para o Brasil”, afirma o presidente da CNI, Ricardo Alban (foto), apresentando alternativas, muitas delas confirmadas no anúncio de socorro Brasil Soberano.  

Ricardo Alban, presidente da CNI. (Foto: Acervo pessoal)

Impactos das exceções

Sobre a lista de quase 700 produtos brasileiros isentos da tarifa de 50%, a CNI ressalta que eles seguirão sujeitos à tarifa de 10%, anunciadas em abril. Do total das exceções, 565 referem‑se a produtos destinados ao uso da aviação civil. Essas mercadorias não estarão sujeitas à tarifa adicional, desde que comprovadamente destinadas ao setor de aviação civil. Setores importantes como de proteína animal, café, etanol, máquinas e equipamentos, outros manufaturados e produtos com grande relevância para a pauta exportadora brasileira ficaram de fora da lista e enfrentarão o aumento da tarifa.

Isentos do tarifaço:

  • Agroindústria: castanhas-do-pará, suco e polpa de laranja, frutas processadas;
  • Máquinas e equipamentos: compressores, motores, geradores, bombas, válvulas, peças industriais;
  • Aeronáutica: partes de aeronaves civis, drones, turbojatos, hélices, instrumentos de navegação;
  • Produtos químicos e minerais: ceras vegetais, derivados de petróleo, fertilizantes, minérios (ferro, níquel, silício, manganês, estanho);
  • Eletrônicos e tecnologia: telecomunicações, roteadores, monitores, baterias, circuitos impressos;
  • Energia e elétrica: transformadores, disjuntores, UPS, sistemas de iluminação e controle;
  • Outros setores: borracha vulcanizada, plásticos técnicos, fibras têxteis, papel e celulose, madeira tropical, cortiça, móveis industriais.

CNA em linha com setor privado americano

Em reunião com dirigentes da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham) e da Câmara de Comércio dos Estados Unidos, no final de julho, o presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), João Martins (foto), destacou o prejuízo potencial da medida em relação à competitividade e na atração de investimentos, o que vai além da relação bilateral. As entidades se comprometeram em trabalhar em conjunto em prol de uma solução negociada entre os dois países, concordando que o prejuízo será para os dois lados. 

João Martins, presidente da CNA. (Foto: Wenderson Araujo)

O presidente da CNA enfatizou a preocupação com o setor e, principalmente, com os produtos do agronegócio que ficaram de fora das exceções do governo americano, em especial as cadeias formadas por pequenos produtores como frutas, mel e pescados. E se comprometeu a enviar para a US Chamber informações e dados sobre itens agropecuários que integram as cadeias de processamentos dos EUA, que ficaram fora da lista de exclusão.

A diretora deRelações Internacionais da CNA, Sueme Mori, informou que a entidade fará a defesa do agro brasileiro no processo aberto pelo governo americano contra o Brasil, sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, que permite ao Poder Executivo dos EUA investigar práticas comerciais de países que possam ser consideradas desleais ou discriminatórias, aplicando sanções unilaterais se forem comprovadas irregularidades. 

Câmara de Comércio vê oportunidades

Arno Gleisner (foto), diretor de Comércio Exterior da Câmara de Comércio, Indústria e Serviços do Brasil (Cisbra),diz que os impactos diretos para o país depois da lista de exceções são baixos em relação ao total das exportações brasileiras, mas alto e variável para um número considerável de empresas e regiões, com perdas em faturamento, empregos, tributos e até possíveis inadimplências. “O balanço, entretanto, não deve ser feito apenas de riscos, mas também de oportunidades. Há oportunidades na negociação, nos produtos da lista de exceções e em programas como o Nearshoring da Cisbra que, em resumo, mostra a importadores americanos alternativas de importações, que hoje fazem da Ásia”, avalia.

Arno Gleisner, diretor de Comércio Exterior da Cisbra. (Foto: Acervo pessoal)

Para a Cisbra, as empresas exportadoras, as entidades representativas e organizações dos governos federal, estaduais e municipais já realizam programas de diversificação e crescimento de exportações para um grande número de países. Também classifica como positivas as medidas emergenciais anunciadas, especialmente se somadas à continuidade das negociações.

Gleisner espera que as divergências entre Brasil e Estados Unidos se restrinjam ao fluxo comercial porque uma forte guinada geopolítica pode trazer riscos desnecessários. Ele lamenta as manifestações hostis de algumas autoridades em contraposição à busca de negociação de outras sob o argumento de que o fluxo comercial entre os dois países tem sido mutuamente benéfico. O executivo também condena retaliações que piorariam o cenário com prejuízos maiores ao Brasil.

Substituir o mercado do tamanho do americano é muito difícil, em parte porque as empresas exportadoras já têm buscado o máximo possível em outros mercados e também porque não existe outro mercado do porte do americano para os produtos hoje exportados para este país”, conclui.

ABAG defende estratégias de defesa comercial

Também a Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG) vê com muita apreensão o impacto do tarifaço e como fundamental o processo negocial envolvendo as diversas cadeias do agro brasileiro como café, açúcar, carnes, frutas, pescados, máquinas agrícolas entre outras. “Não há respaldo técnico ou comercial para tamanha taxação e quando as medidas descolam da lógica econômica os prejuízos se espalham para além das fronteiras e testam a resiliência das relações internacionais”, afirma a entidade em nota oficial.

“Entendemos ser fundamental que o governo brasileiro adote medidas estruturantes para mitigar perdas dos setores atingidos e reforçar a sua competitividade”, propõe a ABAG, ciente de que é essencial a abertura de novos mercados e o fortalecimento de destinos já consolidados, para médio e longo prazos, dentro da agenda de internacionalização do Agro. Ela entende que é hora de afirmar o protagonismo do Brasil como fornecedor confiável e sustentável de alimentos, energia e soluções para o mundo.

FAEC quer preservar competitividade

Para Amílcar Silveira (foto), presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará (FAEC), se o tarifaço é ruim para o Brasil, é péssimo para o Ceará que tem os EUA como destino de 32% das exportações do setor, atingindo de frente produtos como pescados, cera de carnaúba e frutas, incluindo água de coco. Somente este grupo responde por aproximadamente US$ 300 milhões em exportações e correspondem a mais da metade das exportações do agro cearense em 2025. “Vamos perder metade do ano com prejuízos significativos”, prevê ele, certo de que também o consumidor americano será afetado.  A cada 10 litros de suco de laranja consumidos por lá, oito saem do Brasil.

Amílcar Silveira, presidente da FAEC. (Foto: Acervo pessoal)

O presidente Amilcar Silveira entende ser fundamental a busca de soluções diplomáticas que preservem a competitividade do agronegócio cearense e brasileiro com os EUA por ser um mercado exigente e que remunera bem. “Não se reconstrói um mercado da noite para o dia”, afirma.

Sobre o plano de contingência apresentado pelo Governo Federal, a expectativa da FAEC era de que a Lei Kandir fosse antecipada como a melhor forma de socorrer as empresas. Também citou a devolução do crédito do ICMS como necessária neste momento.

FGV defende socorro transitório

Ao analisar as medidas de ajuda anunciadas aos exportadores, o pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV/Ibre), João Mário de França (foto), classificou como justificáveis e necessárias as medidas de contingenciamento anunciadas pelo governo. Ele fez questão de alertar, entretanto, que devem ser aplicadas apenas para aliviar o choque que tende a ter longa duração e sem muitas chances de incluir novas isenções pelo governo americano.

João Mário de França, pesquisador da FGV/Ibre. (Foto: Acervo pessoal)

Ele destacou a linha de financiamento de R$ 30 bilhões como a principal ajuda, além do diferimento de impostos e as compras governamentais. “As medidas precisam ser transitórias diante do déficit fiscal brasileiro”, afirmou, lembrando que a desoneração da folha de pagamento criada em 2011 como emergencial permanece em vigor, da mesma forma que o apoio a eventos (Perse), criado por ocasião da pandemia.

Professor da Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal do Ceará, França defende uma maior abertura da economia brasileira, inclusive a cearense, que destina 77% de suas exportações para o mercado americano. Poderia ser pior ainda, se o ferro e o aço estivessem incluídos, embora já sofram sobretaxa de 50% desde o início do ano.

“Se a pauta exportadora brasileira fosse mais ampla em produtos e em mercados, o choque seria menor”, afirmou, contrariando as opiniões que querem retaliações como resposta ao tarifaço. A seu ver, o Brasil tem que escolher o caminho da diplomacia para abrir novas fronteiras e até mesmo para novos produtos, inclusive para os EUA.

Inteligência diplomática

A especialista em direito aduaneiro, Andrea Aquino (foto), advogada no DB Tesser Sociedade de Advogados, também presidente da comissão de Direito Marítimo e Portuário da OAB/CE, diz que o Brasil vivencia um dos mais duros testes à resiliência da pauta exportadora. “O Brasil precisa de diplomacia comercial ativa, instrumentos internos robustos de proteção e um plano de diversificação e sofisticação da pauta exportadora”, aponta ela, para quem não basta reagir à crise, mas preparar a economia para não depender de um único mercado nem de um único cenário tarifário.

Andrea Aquino, advogada no DB Tesser Sociedade de Advogados. (Foto: Acervo pessoal)

Para ela, é fundamental acionar os canais previstos na Organização Mundial do Comércio (OMC), buscar consultas formais e, ao mesmo tempo, negociar bilateralmente para ampliar a lista de exceções e proteger setores estratégicos. Essa postura preserva o relacionamento de longo prazo, demonstra compromisso com as regras do comércio internacional e abre espaço para soluções que minimizem o impacto sobre os exportadores.

As medidas anunciadas, segundo Andrea, aliviam o caixa no curto prazo, mas não resolvem a elevada dependência de um mercado que representa 12,5% das exportações brasileiras. “É preciso ir além da contingência e trabalhar em um plano de longo prazo, com diversificação de mercados, apoio à inovação, fortalecimento da governança contratual e incentivo à instalação de hubs internacionais, para que o exportador brasileiro esteja menos exposto a choques unilaterais”, alinha ela.

As ações sugeridas incluem renegociação contratual e cláusulas preventivas, aproveitamento de regimes fiscais como drawback ampliado, créditos de PIS/Cofins e linhas especiais de crédito e seguro do BNDES/FGE, além da exclusão tarifária nos EUA com a revisão de classificação tarifária e fundamentação técnica junto ao Department of Commerce e à U.S. International Trade Commission.

Outras iniciativas incluem gestão de estoque excedente para evitar perdas, venda interna com campanhas promocionais e redes de distribuição alternativas, exportação para novos mercados com menor barreira tarifária, parcerias com tradings e distribuidores internacionais para reposicionar o produto e adequar embalagens e formatos para atender preferências de outros mercados-alvo. Andreatambém cita a busca de recursos e estudos junto ao BNDES, ApexBrasil e NDB (Banco do BRICS) para financiar expansão, adaptar produtos e identificar nichos promissores.

A voz do mercado financeiro:

“A tarifa de 50% imposta por Trump oficializa um cenário mais difícil para empresas brasileiras que dependem da exportação ou da integração com cadeias globais”, João Kepler, CEO da Equity Group.

“O tarifaço impõe não só barreiras alfandegárias, mas exige resposta tributária estratégica e coordenação política para evitar perdas de receita, empregos e participação global”, Mary Elbe Queiroz, Advogada Tributarista, presidente do Cenapret e sócia da Queiroz Advogados.

“O que está em jogo não é apenas a taxa de juros, mas a reconstrução de um modelo de negócios viável para um país que volta a enfrentar barreiras externas, juros altos e custos crescentes”, Pedro Da Matta, CEO da Audax Capital.

“O investidor deve observar com atenção as mudanças nas cadeias produtivas e os impactos na capacidade de pagamento dos devedores, especialmente nos setores exportadores”, Richard Ionescu, CEO do Grupo IOX.

“Mesmo as empresas que atuam no mercado interno devem se preparar para efeitos indiretos na cadeia de suprimentos. É um cenário que exige atenção redobrada a capital de giro, estrutura de dívida e governança financeira”, André Matos, CEO da MA7 Negócios.

“O ambiente exige do investidor institucional uma postura mais estratégica, com foco em ativos estruturais, inovação em energia e soluções que integrem segurança geopolítica e sustentabilidade”, Felipe Vasconcellos, sócio da Equus Capital.

“A medida deve encarecer importações e pressionar a inflação, especialmente em setores ligados ao agro e à indústria de base, elevando a Selic e comprometendo a retomada do PIB, exigindo cuidado com margem, custos e planejamento de caixa”, Carlos Braga Monteiro, CEO do Grupo Studio.

“Mesmo com inflação sob controle, a pressão cambial e o risco de repasse de preços podem frear novos cortes na Selic, mudando o cenário de fim de ano: inflação pode subir e PIB desacelerar”, Pedro Ros, CEO da Referência Capital.

“Com a possível postergação dos cortes na Selic, o custo do crédito tende a continuar alto, o que reforça a necessidade de revisão estratégica nas empresas, com foco em eficiência e resiliência financeira”, Jorge Kotz, CEO da Holding Grupo X.

“O investidor precisa acompanhar de perto como essa tensão vai se refletir na balança comercial, na inflação e nos papéis ligados à cadeia exportadora”, Sidney Lima, analista CNPI da Ouro Preto Investimentos.

“O cenário exige cautela e adaptação, com foco na diversificação internacional e em investimentos mais resilientes”, Fábio Murad, Economista e CEO da Super-ETF Educação.

“Com a economia mais imprevisível, empresários tendem a ser mais cautelosos na tomada de crédito, na mesma medida que a concessão fica mais restrita também”, Volnei Eyng, CEO da gestora Multiplike.

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