O Parque Nacional de Jericoacoara ganhou uma nova publicação dedicada à história natural e às transformações que moldaram a paisagem do destino turístico cearense. O material reúne informações sobre geologia, arqueologia, dinâmica costeira e conservação.
Produzido pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB) em conjunto com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o e-book integra a Série Fomento ao Geoturismo.
A proposta é usar o conhecimento sobre a paisagem para ampliar a educação ambiental. Ao mesmo tempo, o conteúdo mostra como processos naturais e ocupação humana interferem na configuração atual de Jericoacoara.
Turismo amplia pressão sobre o território
A publicação chega em um momento de forte movimentação turística na região. Em 2025, aproximadamente 1,3 milhão de pessoas visitaram Jericoacoara.
A estrutura de hospedagem acompanha esse fluxo. A vila concentra cerca de 450 estabelecimentos, entre pousadas, hotéis, hostels e resorts. Juntos, eles oferecem aproximadamente 14,5 mil leitos.
Além disso, o acesso aéreo mantém conexão regular com grandes centros. O aeroporto da região movimenta cerca de 265 mil passageiros por ano e recebe quatro voos diários de Azul, Gol e Latam.
São Paulo e Belo Horizonte estão entre os principais destinos conectados ao aeroporto. Nesse contexto, lideranças locais discutem a possibilidade de novas rotas internacionais, que poderiam aumentar a circulação de turistas e também a pressão sobre a infraestrutura e o ambiente.
O parque possui 89 quilômetros quadrados e se estende por Cruz, Jijoca de Jericoacoara e Camocim.
Paisagem atual resulta de processos antigos
Para entender os atrativos que atraem visitantes atualmente, o guia volta centenas de milhões de anos na história do território.
As formações rochosas do Morro do Serrote e da Pedra Furada, por exemplo, estão associadas à Formação São Joaquim. A origem dessas estruturas remonta a um período entre 600 milhões e 850 milhões de anos.
Naquele período, sedimentos se acumularam em um ambiente marinho. Posteriormente, movimentos das placas tectônicas e processos de transformação das rochas alteraram a composição desses materiais e deram origem aos quartzitos encontrados na região.
No entanto, a geologia de Jericoacoara não depende apenas das rochas. As oscilações do nível do mar também tiveram papel importante na configuração do território.
Há cerca de 120 mil anos, o oceano alcançou um nível aproximadamente seis metros superior ao atual. Já durante a última glaciação, há cerca de 11 mil anos, o mar recuou até aproximadamente 130 metros abaixo do nível contemporâneo.
Essas mudanças expuseram grandes áreas de areia. Com o passar do tempo, os sedimentos participaram da formação do sistema de dunas que caracteriza a paisagem.
Pedra Furada e Morro do Serrote contam parte dessa história
Os principais cartões-postais do destino também funcionam como registros desses processos.
O Morro do Serrote alcança 98 metros de altitude e abriga o Farol de Jericoacoara, construído em 1952. Já a Pedra Furada resulta do desgaste provocado pelas ondas em pontos de fratura da rocha.
A erosão também explica a existência da Pedra do Frade. Nesse caso, o desgaste progressivo e o colapso de estruturas contribuíram para formar o relevo observado atualmente.
Assim, elementos conhecidos pelo turismo cotidiano também ajudam a contar a evolução geológica do parque.
Areia modifica a paisagem de Jericoacoara
A dinâmica das dunas mostra que a paisagem do destino continua em transformação.
As dunas barcanas podem se deslocar entre 10 e 30 metros por ano, seguindo predominantemente o sentido nordeste-sudoeste. Por isso, a movimentação da areia interfere em acessos, lagoas e estruturas instaladas no território.
O desaparecimento da antiga Duna do Pôr do Sol representa um exemplo dessa dinâmica. Até 2023, a formação deixou de existir em decorrência do deslocamento natural da areia em direção ao mar. O guia também relaciona o processo a interferências causadas por construções e cursos d’água.
Outro registro importante são os eolianitos. Essas formações correspondem a dunas antigas que ganharam consistência há aproximadamente quatro mil anos com a ação do carbonato de cálcio.
Alguns desses locais preservam raízes fossilizadas. Por isso, além do interesse geológico, eles possuem relevância paleontológica e exigem cuidados específicos.
Maré muda configuração da faixa de areia
A movimentação da água acrescenta outra variável à paisagem. Em determinados períodos, a diferença entre os níveis de maré supera três metros ao longo de um único dia.
Como resultado, a faixa de areia da Praia Principal pode mudar em até 200 metros. A variação interfere, portanto, no acesso a determinados pontos, na realização de passeios e na rotina de atividades comerciais.
Nesse cenário, conhecer os ciclos naturais também se torna parte do planejamento da visitação.
Regras protegem formações frágeis
O guia associa o conhecimento científico a orientações para quem circula pelo parque. Entre as medidas está a proibição de acesso sobre a Pedra Furada, tanto por questões de segurança quanto para reduzir a degradação da formação.
Além disso, veículos não podem circular livremente sobre dunas e eolianitos. A retirada de areia e pedras também é proibida.
Essas restrições ganham importância diante da dimensão do turismo local. Afinal, formações que levaram milhares ou milhões de anos para se desenvolver podem sofrer alterações em períodos muito menores.
Patrimônio arqueológico amplia importância do parque
A história de Jericoacoara também inclui registros da ocupação humana. O Sítio Arqueológico Jericoacoara I reúne vestígios com mais de dois mil anos.
As pesquisas identificaram materiais datados a partir de 80 a.C., incluindo instrumentos feitos de quartzito e fragmentos de cerâmica.
Dessa forma, o e-book apresenta o Parque Nacional a partir de diferentes dimensões. Geologia, dinâmica costeira, arqueologia e turismo se encontram no mesmo território.
A publicação visa transformar as informações em uma ferramenta de conhecimento para visitantes e para as atividades relacionadas ao geoturismo. Ao mesmo tempo, reforça que a conservação da paisagem depende da compreensão dos processos que continuam modificando Jericoacoara.
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