O biometano ganha espaço como alternativa para a transição energética em economias emergentes. O combustível resulta da purificação do biogás e pode substituir o diesel e o gás natural de origem fóssil em diferentes aplicações.
A oportunidade é maior em países com forte atividade agropecuária, crescimento das cidades e grande oferta de resíduos orgânicos. Nesses mercados, a produção de biometano combina geração de energia, tratamento de resíduos e criação de novas fontes de receita.
A avaliação integra o estudo internacional “From Waste to Wheels: Turning Organic Waste into Renewable Fuel for Transport”, apoiado pelo Instituto Mobilidade de Baixo Carbono (MBCBrasil). O trabalho analisa matérias-primas, produção, infraestrutura e usos do biometano, com atenção especial ao transporte pesado.
O estudo reúne pesquisas de Gláucia Mendes Souza, da Universidade de São Paulo (USP), Clayton Barcelos Zabeu, do Instituto Mauá de Tecnologia (IMT), Heitor Cantarella, do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), e Luiz Augusto Horta Nogueira, da Universidade Federal de Itajubá (Unifei).
Economias emergentes concentram potencial
A produção comercial de biometano está mais desenvolvida na Europa e na América do Norte. No entanto, boa parte do potencial ainda disponível está em economias emergentes e em desenvolvimento.
Segundo dados da Agência Internacional de Energia (IEA), cerca de 80% do potencial sustentável de biogases está nesses países. Brasil, China e Índia aparecem entre os mercados com maior disponibilidade de matéria-prima.
Esse potencial está relacionado à combinação entre produção agropecuária, população, urbanização e geração de resíduos. Além disso, a expansão dessas atividades tende a aumentar a oferta de materiais que podem ser destinados à produção de biogás.
Atualmente, cerca de 40 países produzem biogás. O uso do combustível como fonte de energia para veículos ocorre em aproximadamente 30 mercados.
Entre os países com mercados mais desenvolvidos estão Suécia, Alemanha, Itália, França, Holanda, Dinamarca, Finlândia, Suíça, Reino Unido e Noruega. A Califórnia, nos Estados Unidos, também possui um mercado consolidado.
Por outro lado, Brasil, Estados Unidos, China, Índia, Espanha, Irlanda, Áustria e Bélgica estão entre os países onde o setor apresenta expansão.
Resíduos podem virar combustível
O potencial global sustentável para a produção de biogás e biometano chega a quase 1 trilhão de metros cúbicos por ano. O volume equivale a cerca de um quarto da demanda mundial por gás natural.
Apesar disso, menos de 5% das matérias-primas sustentáveis disponíveis são aproveitadas atualmente. Assim, existe uma margem relevante para ampliar a produção sem depender de novas fontes fósseis.
As maiores oportunidades aparecem na América Latina, na África Subsaariana e no Sul e Sudeste Asiático. Essas regiões combinam atividade agrícola, criação de animais, crescimento urbano e necessidade de ampliar o tratamento de resíduos.
Além disso, a urbanização cria novas fontes de matéria-prima. Restos de alimentos, esgoto e gás de aterros sanitários entram nesse grupo.
No campo, o crescimento da produção agropecuária também amplia a oferta de palhadas, vinhaça, resíduos de processamento e dejetos animais. Dessa forma, o avanço do biometano acompanha tanto a expansão do agronegócio quanto a necessidade de destinar corretamente esses materiais.
Brasil reúne oferta diversificada de matéria-prima
O Brasil aparece entre os países com melhores condições para ampliar a produção de biometano. A disponibilidade de resíduos está ligada principalmente à dimensão da agropecuária e da agroindústria nacional.
Entre os setores com potencial estão açúcar e etanol, carnes, leite e produção de grãos. A pecuária também gera grandes volumes de dejetos que podem entrar no processo de biodigestão.
Entre as principais fontes disponíveis no país estão:
- dejetos de bovinos, suínos e aves;
- vinhaça e torta de filtro;
- palhas, cascas e resíduos agrícolas;
- efluentes de frigoríficos e laticínios;
- resíduos alimentares;
- lodo de estações de tratamento de esgoto;
- gás produzido em aterros sanitários.
Brasil, Índia, China e Argentina possuem grande disponibilidade de dejetos animais. Já resíduos agrícolas aparecem em grande volume no Brasil, na Índia, na Tailândia e na Indonésia.
Com o aproveitamento desses materiais, o resíduo deixa de representar somente um custo ambiental. Ele pode gerar biometano, fertilizantes e receita para produtores rurais, cooperativas, agroindústrias e municípios.
Transporte pesado está entre os principais mercados
O transporte rodoviário de cargas aparece como uma das aplicações com maior potencial para o biometano. Caminhões e ônibus preparados para operar com gás podem utilizar o combustível renovável em substituição ao diesel.
Além da redução do consumo de combustível fóssil, o biometano pode diminuir as emissões de gases de efeito estufa. O resultado, contudo, depende da matéria-prima utilizada e de todo o ciclo de produção.
Quando produzido a partir da biodigestão de dejetos animais, o combustível pode apresentar emissões cerca de 45% menores que as do diesel. No caso de resíduos alimentares, a redução pode chegar a 75%.
Os cálculos consideram as etapas de produção, processamento, distribuição e utilização do combustível. Portanto, a comparação leva em conta o ciclo completo, e não somente a queima nos veículos.
O resultado pode ser ainda mais favorável quando o processo impede a liberação direta do metano presente nos resíduos. Nesse caso, a captura e utilização do gás evitam a emissão de um gás de efeito estufa com elevado potencial de aquecimento global.
Além disso, o biometano apresenta menor emissão de material particulado e de alguns poluentes atmosféricos quando comparado ao diesel.
Projeto pode ter várias fontes de receita
A comercialização do gás não precisa ser a única fonte de faturamento de um empreendimento de biometano. A própria estrutura de produção pode gerar diferentes produtos e serviços.
Entre as possibilidades estão o tratamento remunerado de resíduos, a venda de biofertilizantes, a comercialização de gás carbônico renovável e a geração de energia elétrica e térmica.
Também entram nesse modelo os créditos de carbono e os certificados de garantia de origem. Segundo os estudos reunidos pelos pesquisadores, essas receitas complementares podem responder por 20% a 60% do faturamento de um projeto.
O processo ainda gera biofertilizante, que pode retornar às lavouras. Com isso, parte dos nutrientes presentes nos resíduos volta ao sistema produtivo e pode reduzir a necessidade de fertilizantes minerais.
Na prática, o modelo conecta quatro frentes: produção agropecuária, tratamento de resíduos, geração de energia e recuperação de nutrientes. Essa integração amplia as possibilidades econômicas de uma mesma cadeia produtiva.
Regulação influencia expansão do mercado
A expansão do biometano depende de investimentos e de um ambiente regulatório que dê previsibilidade aos projetos. Como as plantas exigem infraestrutura e capital, políticas de longo prazo têm peso na decisão dos investidores.
Entre as iniciativas adotadas em diferentes mercados estão metas de descarbonização, exigências de utilização de combustíveis renováveis, incentivos fiscais, financiamento de infraestrutura e sistemas de certificação ambiental.
Desde 2020, mais de 50 novas políticas relacionadas ao biogás e ao biometano foram implementadas no mundo. O movimento acompanha a busca por alternativas aos combustíveis fósseis e por soluções para o tratamento de resíduos.
Além da regulamentação, a expansão exige infraestrutura. Entre os investimentos necessários estão biodigestores, unidades de purificação, redes de distribuição, postos de abastecimento e equipamentos para compressão ou liquefação do gás.
Brasil, Índia e China já acumulam experiências na adaptação dessas tecnologias às condições de economias em desenvolvimento. Essas iniciativas podem servir de referência para outros mercados com características semelhantes.
Produção próxima ao consumo reduz riscos
A geração descentralizada é outra característica relevante do biometano. O combustível pode ser produzido próximo a fazendas, agroindústrias, aterros e centros urbanos.
Essa proximidade reduz a dependência de cadeias internacionais de combustíveis fósseis. Consequentemente, projetos locais podem diminuir a exposição a oscilações cambiais, crises geopolíticas e problemas de abastecimento externo.
O biometano também apresenta compatibilidade com parte da infraestrutura utilizada pelo gás natural. Isso permite aplicações em indústrias, veículos e sistemas de geração de energia, conforme as condições técnicas de cada projeto.
Para o agronegócio brasileiro, o avanço desse mercado pode criar novas receitas, reduzir custos relacionados à energia e logística e dar destinação econômica a resíduos.
Dessa forma, o biometano amplia seu papel para além da substituição do diesel. A tecnologia permite conectar energia renovável, produção agropecuária, gestão de resíduos e desenvolvimento rural.
O potencial é especialmente relevante para economias emergentes. Afinal, esses países concentram grande parte das matérias-primas que podem sustentar a expansão de uma cadeia de biometano em escala.