A Associação Brasileira de Energia Eólica e Novas Tecnologias (ABEEólica) defende a criação de um plano nacional para reduzir os cortes na geração de energia renovável. A proposta integra o documento “Ventos Para Transformar o Brasil”, entregue pela entidade aos candidatos à Presidência da República.
A discussão ganha peso para o Nordeste, região que concentra grande parte dos empreendimentos eólicos e solares do país. Segundo a consultoria Volts Robotics, os cortes de geração provocaram perdas estimadas em R$ 6,5 bilhões para geradoras eólicas e solares em 2025.
Para Elbia Gannoum, presidente da ABEEólica, o chamado curtailment deixou de representar apenas uma perda financeira para as empresas. Agora, segundo ela, o problema também envolve a operação e a segurança do sistema elétrico brasileiro.
“Os cortes são um problema do país, porque envolvem a operação e, inclusive, os riscos de operação do sistema elétrico”, afirmou a executiva durante entrevista coletiva na última terça-feira (1º).
O cenário atual
A expansão das fontes renováveis ocorre ao mesmo tempo em que o sistema enfrenta dificuldades para absorver toda a energia disponível. Nesse contexto, as grandes usinas eólicas e solares acabam entre os empreendimentos que recebem ordens de redução da geração.
Além disso, a geração distribuída ampliou a complexidade da operação. O Brasil possui 75 GW de capacidade instalada em energia solar, dos quais cerca de 50 GW correspondem à geração distribuída, segundo Elbia. Nesse modelo, os sistemas ficam conectados diretamente às redes das distribuidoras, como ocorre com instalações fotovoltaicas em imóveis.
Como parte dessa geração não pode sofrer os mesmos comandos de controle aplicados às grandes usinas, o operador precisa administrar o equilíbrio do sistema por outros meios. Consequentemente, os empreendimentos centralizados podem absorver uma parcela maior dos cortes.
A ABEEólica estima que eólicas e solares deixaram de produzir cerca de 20% da energia potencial em 2025 por causa das restrições de geração.
Baterias entram no centro da estratégia
Diante desse cenário, a ABEEólica coloca o armazenamento de energia entre as principais medidas para aumentar a flexibilidade do sistema. Para Elbia, as baterias podem armazenar a energia produzida nos períodos de maior oferta e disponibilizá-la quando a demanda ou a necessidade do sistema aumentar.
A entidade também defende que o custo dessa estrutura tenha caráter sistêmico. Ou seja, em vez de concentrar a despesa apenas nas empresas geradoras, o modelo deveria distribuir o custo entre os diferentes agentes beneficiados pela maior flexibilidade do sistema.
Além disso, a associação propõe uma mudança no modelo de contratação. Em vez de promover leilões separados para cada tecnologia, a sugestão é contratar soluções capazes de atender às necessidades específicas do sistema.
Nesse modelo, uma combinação de eólica com baterias, por exemplo, poderia disputar espaço com hidrelétricas, repotenciação de usinas ou outras alternativas. “O Brasil precisa de leilão de soluções energéticas”, afirmou Elbia.
Transmissão precisa acompanhar novos investimentos
Outro ponto apresentado pela ABEEólica envolve a expansão da transmissão de energia e do acesso à rede. A entidade avalia que o planejamento precisa considerar não apenas novos projetos de geração, mas também grandes consumidores que pretendem se instalar no país.
Entre eles estão empreendimentos de data centers e hidrogênio, setores que demandam grandes volumes de eletricidade. Por isso, a associação defende a criação de um “mapa de cargas”, que reúna informações sobre localização e tamanho da demanda para orientar os investimentos em transmissão.
Segundo Elbia, a capacidade disponível atualmente não atende todos os projetos que aguardam conexão. Assim, a expansão da rede passa a ser também uma questão de atração de investimentos e desenvolvimento industrial.
Entidade defende mudanças no setor elétrico
Além das medidas relacionadas aos cortes, o documento apresentado aos candidatos reúne propostas sobre governança, previsibilidade e capacidade de execução. A ABEEólica defende maior coordenação entre os órgãos responsáveis pelas decisões do setor elétrico.
A entidade também propõe mudanças nos sinais econômicos aplicados à geração distribuída e maior isonomia entre os diferentes modelos de geração. A avaliação é que regras mais eficientes podem contribuir para reduzir distorções e melhorar a operação do sistema.
Por fim, a associação relaciona a expansão da eletrificação ao processo de reindustrialização brasileira. Atualmente, a eletrificação representa cerca de 25% do consumo de energia, segundo Elbia. Para a entidade, ampliar esse percentual pode aumentar a demanda por energia renovável e, ao mesmo tempo, favorecer a atração de novos investimentos produtivos.
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