CNI vê risco de desindustrialização com queda na indústria de transformação

indústria de transformação
Indústria de transformação recua no 2º trimestre e acumula queda de 1,1% em 2026. CNI aponta juros altos e importações como principais causas. (Foto: Magnific)

A indústria de transformação recuou 0,4% no segundo trimestre de 2026, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com isso, o setor acumula queda de 1,1% nos últimos quatro trimestres.

Para a Confederação Nacional da Indústria (CNI), o resultado reforça o processo de desindustrialização da economia brasileira. Além disso, a entidade vê riscos para o desempenho do setor no restante do ano.

Em 2025, a indústria de transformação já havia registrado retração de 0,2%. Agora, a CNI aponta os juros elevados e o avanço das importações como os principais fatores que pressionam a atividade industrial.

O cenário também afeta a demanda. No primeiro semestre de 2026, o volume importado de bens de consumo cresceu 16% em relação ao mesmo período de 2025.

Juros reduzem investimentos e consumo

Na avaliação da CNI, o nível elevado dos juros limita os investimentos das empresas e encarece o crédito para as famílias. Como consequência, o endividamento e a inadimplência aumentam.

“Os juros altos desestimularam os investimentos, encareceram o crédito aos consumidores, aumentando o endividamento e a inadimplência das pessoas e, consequentemente, restringiram a demanda por bens industriais”, afirma Mario Sergio Telles, diretor de Desenvolvimento Industrial da CNI.

Além disso, o aumento das importações amplia a pressão sobre os fabricantes nacionais. Segundo Telles, os produtos estrangeiros ocupam parte relevante de um mercado que já apresenta menor demanda.

Por outro lado, a indústria extrativa apresentou crescimento e evitou um resultado negativo para o conjunto do setor industrial.

Indústria extrativa evita queda maior

No segundo trimestre, a indústria extrativa cresceu 3,4%. Foi o único segmento industrial a registrar avanço no período.

Enquanto isso, a construção recuou 0,4%. O segmento de eletricidade, gás, água, esgoto e atividades de gestão de resíduos caiu 1,1%.

Assim, o desempenho da indústria extrativa compensou parte das perdas dos demais segmentos. No entanto, a indústria de transformação concentra a preocupação da CNI por seu peso na atividade econômica e pela perda de competitividade.

Os dados de consumo reforçam esse cenário. Conforme o Indicador Ipea de Consumo Aparente, a demanda por bens nacionais caiu 1,2% em 12 meses até maio de 2026.

No mesmo período, a procura por bens importados cresceu 2,6%. Portanto, a indústria nacional enfrenta concorrência externa mesmo com a redução da demanda interna.

Renda cresce mas consumo perde força

A retração também ocorre em um momento de menor consumo das famílias. Segundo o IBGE, o consumo recuou 0,4% no segundo trimestre de 2026.

O resultado chama atenção porque a massa de rendimento das famílias mantém trajetória de crescimento. Para a CNI, parte da renda disponível pode estar comprometida com outras despesas.

Nesse sentido, o pagamento de dívidas aparece como um dos fatores que limitam o consumo. Com menos recursos disponíveis, as famílias reduzem a compra de bens, o que também afeta a indústria.

Além disso, o avanço dos produtos importados amplia a disputa pelo mercado consumidor. Para a CNI, esse movimento evidencia a necessidade de medidas voltadas à competitividade da produção nacional.

CNI pode rever projeção para 2026

Diante desse cenário, a CNI avalia que pode revisar a previsão de crescimento de 0,5% para a indústria de transformação em 2026. A entidade havia divulgado essa projeção no fim de 2025.

A Confederação também cita outros fatores que aumentam a incerteza para as empresas. Entre eles estão a discussão sobre a redução da jornada de trabalho, a eliminação do Imposto de Importação para compras de até US$ 50 e o tabelamento do frete.

Para a CNI, a redução dos juros representa um movimento adequado. Ainda assim, a entidade considera o ritmo insuficiente diante do atual nível das taxas no país.

Por fim, a Confederação defende uma agenda de competitividade para recuperar espaço para a indústria nacional. A proposta envolve a redução do Custo Brasil e a criação de condições mais equilibradas de competição com produtos estrangeiros.

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