Juros altos no Brasil são “novo normal”, aponta BNB

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Relatório do Banco do Nordeste, sediado em Fortaleza, mostra que juros altos no Brasil devem persistir e explica impactos fiscais e globais. (Foto: Envato Elements)

Os juros de longo prazo no Brasil devem permanecer em patamar historicamente elevado nos próximos anos. A conclusão está em relatório assinado por Rogério Sobreira, PhD e economista-chefe do Banco do Nordeste (BNB), divulgado em agosto de 2026. O documento reúne dados do Banco Central, do IBGE, da Anbima e de dois estudos recentes do Santander e do BTG Pactual.

Segundo o levantamento, as taxas das NTN-B com vencimento em 2035 e 2040 saíram de uma faixa entre 3% e 4% ao ano em 2020 para cerca de 8% em agosto de 2026. Para o economista-chefe do BNB, instituição com sede em Fortaleza, esse movimento não é apenas cíclico. Ele reflete, segundo o relatório, uma reprecificação persistente do risco fiscal brasileiro.

A dívida bruta do governo geral também mudou de trajetória. O indicador saiu de cerca de 71% do PIB em 2023 para 82% do PIB em junho de 2026. Com isso, qualquer variação no custo de financiamento passa a ter efeito fiscal ainda maior sobre as contas públicas.

Fiscal e inflação pressionam a curva de juros

O relatório aponta dois grupos de fatores por trás da alta dos juros longos: um doméstico e outro global. No Brasil, o déficit fiscal recorrente reduz a margem de manobra do governo e alimenta a percepção de risco entre investidores.

A inflação também contribui para o quadro. O IPCA ficou consistentemente acima da meta ao longo do período analisado, o que aumenta a cautela do mercado. Além disso, as expectativas de inflação para os próximos anos se desancoraram do centro da meta, segundo dados do Boletim Focus citados no estudo. Assim, o mercado passa a exigir juros mais altos por mais tempo, inclusive nos vencimentos mais longos.

Cenário nos EUA reforça a pressão

O componente externo também pesa. O déficit fiscal americano, hoje próximo de 6% do PIB, e a dívida pública dos Estados Unidos, que atingiu 122,59% do PIB no primeiro trimestre de 2026, ante 100,49% em 2015, elevaram a oferta de títulos do Tesouro americano.

Como consequência, as taxas dos Treasuries de 20 e 30 anos giram atualmente em torno de 5% ao ano. Esse movimento eleva a taxa livre de risco global e encarece o custo de capital para economias emergentes, entre elas o Brasil. Segundo o relatório, a inflação americana também se mostrou mais persistente do que o esperado após a pandemia, o que mantém o Federal Reserve (Fed) mais cauteloso diante de cortes de juros.

Prêmio de risco chega a 380 pontos-base

Um dos estudos citados no relatório, do Santander, estima que o prêmio a termo embutido na curva brasileira de cinco anos chega a 4,2%. Desse total, cerca de 380 pontos-base correspondem a um prêmio idiossincrático do Brasil em relação aos Estados Unidos, ou seja, um valor acima da média histórica em ciclos de alta de juros.

Já um levantamento do BTG Pactual mostra o caminho inverso: cada ponto percentual de melhora no resultado primário do governo tende a reduzir o juro real de equilíbrio em cerca de 86 pontos-base. Em um cenário de consolidação fiscal, com resultado primário de 1,7% do PIB, o juro real de cinco anos recuaria de 6,5% para 3,8%. Nesse cenário, a dívida pública se estabilizaria entre 95% e 100% do PIB até 2036.

Sem espaço para volta rápida aos patamares pré-pandemia

O relatório reconstitui a cadeia de eventos que levou ao cenário atual. A pandemia gerou um choque de oferta e rompeu cadeias produtivas. Em resposta, governos ampliaram os gastos fiscais para sustentar renda e emprego. Esse movimento deixou como legado déficits, dívida e inflação em patamares mais altos.

A partir daí, a política monetária mais restritiva elevou os juros de curto e longo prazo simultaneamente. Como resultado, a rolagem da dívida ficou mais cara, o que retroalimenta o próprio risco fiscal. Segundo o economista-chefe do BNB, os juros altos deixaram de ser apenas um instrumento de combate à inflação e passaram também a agravar a dinâmica fiscal.

Espaço para queda existe, mas é limitado

O relatório conclui que há espaço para redução dos juros no Brasil, mas esse espaço enfrenta dois limites. Por um lado, os juros globais mais elevados restringem até onde as taxas domésticas podem cair. Por outro, a dificuldade política e econômica de promover uma consolidação fiscal crível e gradual também limita uma queda mais expressiva.

Dessa forma, o cenário-base do relatório aponta para juros estruturalmente mais altos no Brasil nos próximos anos. Ainda assim, os dois estudos citados sugerem que uma reconstrução da credibilidade fiscal poderia comprimir o prêmio de risco embutido na curva e abrir espaço para normalização gradual das taxas.

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