A distância entre os melhores modelos de inteligência artificial (IA) dos Estados Unidos e da China caiu de 31,6 pontos percentuais, em 2023, para 2,7% em março de 2026. Os dados são do AI Index 2026, da Universidade Stanford.
No entanto, quando o assunto é investimento privado, a diferença permanece ampla. Em 2025, os Estados Unidos receberam US$ 285,9 bilhões em investimentos privados em IA. A China recebeu US$ 12,4 bilhões. O valor americano foi 23 vezes maior.
Apenas a Califórnia respondeu por US$ 218 bilhões desse montante. Assim, o estado investiu mais em IA do que a China inteira.
Desempenho avança, mas dinheiro ainda é desigual
Os números mostram dois cenários distintos. Enquanto a diferença de desempenho entre os modelos diminuiu, a distância nos investimentos continua elevada.
Segundo Stanford, a vantagem dos Estados Unidos em desempenho caiu para 2,7%. Ao mesmo tempo, a diferença nos investimentos chegou a 23 vezes.
Por isso, a China busca novas formas de financiar o desenvolvimento tecnológico. Segundo a Bloomberg, Pequim passou a usar o mercado de capitais de maneira mais direta como instrumento de política industrial.
Até então, o país priorizava subsídios, incentivos fiscais e investimentos estatais. Agora, reguladores aceleram processos de abertura de capital para empresas consideradas estratégicas. Além disso, ampliam o acesso dessas companhias à emissão de títulos.
Quando as ações de tecnologia caíram em julho, as autoridades também atuaram para recuperar a confiança dos investidores. O movimento faz parte de uma estratégia maior para direcionar recursos privados ao setor de tecnologia.
China mira poupança das famílias
O mercado acionário e de títulos chinês movimenta cerca de US$ 28 trilhões. Desse total, aproximadamente US$ 26 trilhões correspondem à poupança das famílias.
Essa reserva representa uma das maiores fontes domésticas de capital do mundo. Agora, Pequim busca direcionar parte desses recursos para setores considerados estratégicos, como semicondutores e inteligência artificial.
O objetivo é ampliar a capacidade de financiamento das empresas sem depender apenas do orçamento público. Dessa forma, o mercado de capitais passa a ter um papel maior na estratégia tecnológica chinesa.
IPO da CXMT testa nova estratégia
Um dos principais testes ocorreu em 27 de julho, com a estreia da CXMT na bolsa chinesa. A fabricante de chips de memória viu suas ações subirem mais de 500% nas primeiras horas de negociação.
A oferta levantou US$ 8,6 bilhões. Com isso, tornou-se a maior oferta pública inicial da Ásia em 2026. A operação também avaliou a companhia em cerca de US$ 543 bilhões.
Fundada em 2016, em Hefei, a CXMT produz chips DRAM usados em smartphones, computadores e servidores de inteligência artificial.
Além disso, a empresa registrou forte expansão de receita. Nos três primeiros meses de 2026, o faturamento chegou a US$ 7,5 bilhões. O resultado representa alta superior a 700% em um ano.
Apesar desse avanço, a companhia ainda fica atrás de Samsung, SK Hynix e Micron em valor de mercado. Portanto, a China também enfrenta desafios para transformar sua expansão tecnológica em liderança global de semicondutores.
China lidera em pesquisa e patentes
O avanço chinês não se limita ao mercado financeiro. O país também apresenta vantagem em indicadores de pesquisa e desenvolvimento em inteligência artificial.
A China responde por 23,2% das publicações científicas de IA no mundo. Os Estados Unidos representam 12,6%. Além disso, os chineses concentram 69,7% dos pedidos globais de patentes relacionados à tecnologia.
Na instalação de robôs industriais, o país também avança em ritmo nove vezes superior ao dos Estados Unidos.
Por outro lado, os Estados Unidos mantêm vantagens importantes. Em 2025, empresas americanas lançaram 50 modelos de IA considerados relevantes, contra 30 modelos chineses.
Os Estados Unidos também controlam cerca de 75% da capacidade computacional global em GPUs. Esse componente é essencial para treinar e operar modelos avançados de inteligência artificial.
Chips são o principal gargalo
É justamente nessa área que a China ainda enfrenta uma das principais limitações. A capacidade de processamento depende do acesso a chips avançados, além de equipamentos e infraestrutura para sua fabricação.
Por isso, o fortalecimento do mercado de capitais pode ampliar a capacidade de investimento das empresas chinesas. Ofertas como a da CXMT ajudam a financiar fábricas, equipamentos e pesquisas em semicondutores.
Assim, Pequim tenta reduzir a dependência de recursos públicos e ampliar o financiamento privado da indústria tecnológica.
A estratégia ocorre em um cenário de disputa tecnológica com os Estados Unidos. Enquanto Washington restringe o acesso chinês a determinados chips e equipamentos, Pequim busca ampliar sua capacidade doméstica.
A corrida pela inteligência artificial, portanto, não depende apenas de quem desenvolve os melhores modelos. Também envolve capital, semicondutores, capacidade computacional e infraestrutura. Nesse cenário, a China tenta transformar sua capacidade de mobilizar recursos domésticos em uma nova vantagem na disputa tecnológica.
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