A adoção da inteligência artificial nas empresas deixou de ser um desafio tecnológico e passou a exigir mudanças na gestão. É o que aponta a quarta edição do relatório AI at Work, publicado pelo Boston Consulting Group (BCG), com base em quase 12 mil entrevistas realizadas com funcionários, gestores e executivos em diversos mercados globais.
Ao mesmo tempo, o estudo revela uma contradição. Embora o uso da tecnologia tenha avançado rapidamente entre os trabalhadores, a maioria das organizações ainda não adaptou processos, métricas ou estruturas para capturar o valor gerado pela IA.
Produtividade
Segundo o levantamento, 74% dos profissionais da linha de frente utilizam inteligência artificial diariamente ou algumas vezes por semana. O índice representa um avanço de 23 pontos percentuais em relação a 2025.
Além disso, 42% dos usuários frequentes afirmam economizar pelo menos oito horas por semana com o uso da tecnologia, o equivalente a um dia de trabalho. Em marketing, esse percentual alcança 60%. Já em tecnologia da informação, chega a 53%, enquanto recursos humanos registra 50%.
No entanto, a pesquisa mostra que a maior parte das empresas ainda não orienta os funcionários sobre como utilizar esse tempo economizado. Atualmente, dois terços dos profissionais afirmam não receber direcionamentos sobre o tema.
Falhas de gestão
O relatório identifica a chamada “clareza estratégica” como um dos principais fatores que diferenciam empresas que geram resultados com IA daquelas que apenas ampliam a adoção da tecnologia.
Nesse sentido, organizações com objetivos claros conseguem obter melhores resultados mesmo quando possuem menos acesso a ferramentas avançadas. Por outro lado, apenas um terço dos funcionários afirma compreender com clareza as mensagens da liderança sobre inteligência artificial.
Além disso, somente 28% percebem alinhamento entre o discurso dos executivos e as ações adotadas pelas empresas. Ao mesmo tempo, 72% relatam mudanças nas habilidades exigidas pelo trabalho, mas apenas 36% receberam treinamentos adequados.
Transformação nas operações
O estudo divide a maturidade das empresas em três estágios. O primeiro envolve o uso da IA como ferramenta de produtividade individual. O segundo contempla o redesenho de fluxos de trabalho completos. Já o terceiro inclui a criação de novos modelos de negócio.
Entre 2025 e 2026, a participação das empresas nos dois estágios mais avançados saltou de 22% para 42%. Ainda assim, elas seguem como minoria.
Por sua vez, essas organizações registram níveis mais elevados de geração de valor, satisfação dos funcionários e confiança interna quando comparadas às empresas que utilizam a IA apenas como ferramenta operacional.
Inteligência artificial desafia lideranças
Para os CEOs, o relatório aponta que a transformação exige mais do que comunicação. Segundo os pesquisadores, líderes que assumem diretamente a agenda de inteligência artificial alcançam melhores resultados em geração de valor, engajamento e confiança organizacional.
Da mesma forma, gestores intermediários enfrentam desafios crescentes. Atualmente, 67% dos profissionais afirmam que a tecnologia assumiu tarefas mais simples, deixando atividades mais complexas sob responsabilidade humana.
Além disso, quase metade dos entrevistados relata dedicar mais tempo à revisão de conteúdos produzidos por IA. Já 41% afirmam gastar mais tempo com processos de tomada de decisão.
Debate sobre bem-estar
O estudo também identifica o chamado “paradoxo da alegria”. Mais de dois terços dos usuários frequentes relatam aumento da satisfação profissional após a adoção da tecnologia.
Em contrapartida, 41% dos trabalhadores e 48% das lideranças afirmam sentir maior estresse mental associado ao uso da inteligência artificial.
Segundo o relatório, empresas que alinham discurso, governança e acompanhamento de resultados conseguem equilibrar melhor produtividade e bem-estar dos funcionários.
Uso de agentes autônomos
Os agentes de IA, sistemas capazes de executar tarefas com mínima intervenção humana, avançam rapidamente dentro das organizações. Atualmente, 84% dos entrevistados afirmam conhecer a tecnologia.
Além disso, 30% informam que suas empresas já utilizam agentes de IA em fluxos de trabalho reais, contra 13% registrados no ano anterior. Paralelamente, metade das organizações já realizou testes ou projetos-piloto envolvendo esses sistemas.
Ainda assim, a governança não acompanha a velocidade da adoção. Hoje, metade dos entrevistados afirma que suas empresas não possuem regras claras para administrar equipes formadas por pessoas e agentes de inteligência artificial.
Por fim, quase o mesmo percentual aponta questões relacionadas à responsabilização da IA entre as principais preocupações para os próximos anos.
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