O Real Estate está diante de uma reconfiguração inevitável e quem não diversificar modelos de receita corre o risco de ficar para trás. (Foto: Geovanne Jinkings
O Trends Experience 2026 reuniu empresários e executivos em Fortaleza na última terça-feira (17) para discutir os rumos do mercado imobiliário diante de um cenário global de incertezas. O encontro, realizado no hoots gastropub, teve como destaque a palestra de Gustavo Favaron, CEO Global & Managing Partner do GRI Institute, que apresentou uma leitura internacional do setor e indicou mudanças estruturais com impacto direto no Brasil.
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Favaron abriu a análise pelo cenário macroeconômico e seus efeitos sobre o Real Estate. Segundo ele, a combinação entre conflitos geopolíticos, inflação persistente e juros elevados pressiona decisões de investimento em diferentes regiões. “A tendência é que o preço do petróleo siga alto por mais tempo, o que vai gerar um nível de inflação considerável”, afirmou. O ambiente, na avaliação dele, tende a manter as taxas elevadas também em economias emergentes como o Brasil.
O executivo destacou ainda mudanças no fluxo global de capital com impacto direto no crédito imobiliário. “Se os Estados Unidos decidem rever juros e a Europa também, significa que nós aqui do mercado emergente não conseguimos baixar os nossos”, disse. O raciocínio é direto: menos acesso ao crédito, menor capacidade de compra, maior pressão sobre o setor.
“O mercado imobiliário com juros a 15% é uma loucura. Estamos contando os dias para a Selic cair.”
Gustavo Favaron, CEO Global do GRI Institute
No recorte do Real Estate brasileiro, Favaron apontou uma distorção estrutural: concentração nos extremos da pirâmide de renda. Programas como o Minha Casa Minha Vida (MCMV) e o segmento de alto padrão seguem aquecidos, mas a classe média enfrenta um vácuo de oferta. “Vocês perceberam que o meio da pirâmide está meio abandonado? Ninguém está olhando para ele”, afirmou.
“A classe média hoje, no mercado imobiliário, está abandonada.”
Gustavo Favaron, CEO Global do GRI Institute
A principal tese de Favaron gira em torno de uma mudança estrutural no comportamento do consumidor e da expansão do mercado de locação estruturada dentro do Real Estate. Com juros altos reduzindo o acesso à compra, o aluguel residencial subiu 9,44% em 2025, mais que o dobro do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que registrou 4,26% no mesmo período. A equação é simples: quem não consegue comprar, aluga. E o mercado ainda não se organizou para atender essa demanda em escala.
O movimento acompanha uma tendência global que já não pode ser ignorada. Nos Estados Unidos, a idade média para a compra do primeiro imóvel chegou aos 40 anos, enquanto os preços das residências subiram mais de 50% desde 2019. “Existe uma dor no mercado hoje desse consumidor da classe média”, disse Favaron.

A resposta a essa dinâmica tem nome: multifamily. O modelo consiste em empreendimentos projetados desde a concepção para a locação, geridos de forma profissional e operados como ativos de renda, diferente do aluguel tradicional, fragmentado e informal, em que cada proprietário administra individualmente seu imóvel. No multifamily, a escala é o negócio: governança centralizada, padronização de serviços e receita recorrente compõem uma estrutura que se aproxima mais de um “hotel corporativo” do que de uma locação convencional.
“No Brasil, 100% constrói para vender. No mundo, uma parcela relevante já constrói para alugar.”
Gustavo Favaron, CEO Global do GRI Institute
Globalmente, o modelo já deixou de ser nicho. Segundo Favaron, 42% dos investidores globais já priorizam o formato multifamily em seus portfólios, com projeção de US$ 1,4 trilhão em investimentos até 2030. No Brasil, o movimento ainda engatinha — mas os primeiros sinais de institucionalização aparecem com a entrada de gestoras como a Brookfield, que já opera cerca de 6 mil unidades nesse formato.
Para viabilizar o modelo no contexto brasileiro de juros elevados, o executivo defende uma mudança de mentalidade: abandonar a lógica do retorno imediato e adotar a análise de ciclo longo. “A conta curta não fecha, mas a conta de ciclo fecha e entrega mais”, disse. A estratégia envolve aquisição de ativos em momentos de pressão, montagem de portfólio e desinvestimento futuro via fundos imobiliários, capturando valorização e renda ao longo do tempo.
E o diferencial competitivo, na visão de Favaron, não está na incorporação em si, mas em como o ativo é gerido depois de pronto: “É na operação que você ganha dinheiro”.
Gestão eficiente, padronização e governança robusta são, segundo ele, os pilares que separam portfólios de locação rentáveis dos que ficam pelo caminho, e o que ainda falta ao mercado brasileiro para dar escala ao modelo.
Outro vetor apontado por Favaron foi o retrofit de imóveis em áreas centrais, prática já em curso em São Paulo e no Rio de Janeiro. A requalificação urbana associada à locação pode ampliar a oferta de habitação próxima a centros econômicos, mas, segundo ele, o avanço depende de incentivos e ajustes regulatórios por parte do poder público.
No campo dos grandes players, o executivo citou a Brookfield como exemplo de movimento institucional no Real Estate brasileiro: a gestora já opera cerca de 6 mil unidades no modelo multifamily. “Eles estão construindo enquanto todo mundo joga pedra”, afirmou. Uma sinalização, na avaliação de Favaron, de que a mudança no mercado local é gradual, mas já está em curso.
A conclusão foi um alerta direto ao setor:
“Sete em cada dez incorporadoras, depois de dez anos, desaparecem ou perdem relevância.”
Gustavo Favaron, CEO Global do GRI Institute
Para ele, o Real Estate brasileiro está diante de uma reconfiguração inevitável e quem não diversificar modelos de receita corre o risco de ficar para trás.
O Trends Experience é um evento promovido pela plataforma Trends com foco em negócios, economia e tendências setoriais. O encontro reúne empresários, investidores e especialistas para discutir temas estratégicos e compartilhar análises aplicadas ao mercado.

Na edição de 2026, o recorte foi o Real Estate e suas transformações diante do cenário global, conectando lideranças locais a visões internacionais e ampliando o debate sobre oportunidades e novos modelos de negócios.
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