“A classe média hoje está abandonada no mercado imobiliário”, alerta CEO global do GRI Institute sobre o Real Estate brasileiro

Por: Eduardo Andrade | Em:
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O Real Estate está diante de uma reconfiguração inevitável e quem não diversificar modelos de receita corre o risco de ficar para trás. (Foto: Geovanne Jinkings

O Trends Experience 2026 reuniu empresários e executivos em Fortaleza na última terça-feira (17) para discutir os rumos do mercado imobiliário diante de um cenário global de incertezas. O encontro, realizado no hoots gastropub, teve como destaque a palestra de Gustavo Favaron, CEO Global & Managing Partner do GRI Institute, que apresentou uma leitura internacional do setor e indicou mudanças estruturais com impacto direto no Brasil.


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Favaron abriu a análise pelo cenário macroeconômico e seus efeitos sobre o Real Estate. Segundo ele, a combinação entre conflitos geopolíticos, inflação persistente e juros elevados pressiona decisões de investimento em diferentes regiões. “A tendência é que o preço do petróleo siga alto por mais tempo, o que vai gerar um nível de inflação considerável”, afirmou. O ambiente, na avaliação dele, tende a manter as taxas elevadas também em economias emergentes como o Brasil.

O executivo destacou ainda mudanças no fluxo global de capital com impacto direto no crédito imobiliário. “Se os Estados Unidos decidem rever juros e a Europa também, significa que nós aqui do mercado emergente não conseguimos baixar os nossos”, disse. O raciocínio é direto: menos acesso ao crédito, menor capacidade de compra, maior pressão sobre o setor.

“O mercado imobiliário com juros a 15% é uma loucura. Estamos contando os dias para a Selic cair.”

Gustavo Favaron, CEO Global do GRI Institute

No recorte do Real Estate brasileiro, Favaron apontou uma distorção estrutural: concentração nos extremos da pirâmide de renda. Programas como o Minha Casa Minha Vida (MCMV) e o segmento de alto padrão seguem aquecidos, mas a classe média enfrenta um vácuo de oferta. “Vocês perceberam que o meio da pirâmide está meio abandonado? Ninguém está olhando para ele”, afirmou.

“A classe média hoje, no mercado imobiliário, está abandonada.”

Gustavo Favaron, CEO Global do GRI Institute

Multifamily no centro das oportunidades

A principal tese de Favaron gira em torno de uma mudança estrutural no comportamento do consumidor e da expansão do mercado de locação estruturada dentro do Real Estate. Com juros altos reduzindo o acesso à compra, o aluguel residencial subiu 9,44% em 2025, mais que o dobro do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que registrou 4,26% no mesmo período. A equação é simples: quem não consegue comprar, aluga. E o mercado ainda não se organizou para atender essa demanda em escala.

O movimento acompanha uma tendência global que já não pode ser ignorada. Nos Estados Unidos, a idade média para a compra do primeiro imóvel chegou aos 40 anos, enquanto os preços das residências subiram mais de 50% desde 2019. “Existe uma dor no mercado hoje desse consumidor da classe média”, disse Favaron.

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Para ele, essa assimetria entre custo de compra e demanda reprimida não é um problema conjuntural: é uma janela de oportunidade. (Foto: Geovanne Jinkings)

A resposta a essa dinâmica tem nome: multifamily. O modelo consiste em empreendimentos projetados desde a concepção para a locação, geridos de forma profissional e operados como ativos de renda, diferente do aluguel tradicional, fragmentado e informal, em que cada proprietário administra individualmente seu imóvel. No multifamily, a escala é o negócio: governança centralizada, padronização de serviços e receita recorrente compõem uma estrutura que se aproxima mais de um “hotel corporativo” do que de uma locação convencional.

“No Brasil, 100% constrói para vender. No mundo, uma parcela relevante já constrói para alugar.”

Gustavo Favaron, CEO Global do GRI Institute

Globalmente, o modelo já deixou de ser nicho. Segundo Favaron, 42% dos investidores globais já priorizam o formato multifamily em seus portfólios, com projeção de US$ 1,4 trilhão em investimentos até 2030. No Brasil, o movimento ainda engatinha — mas os primeiros sinais de institucionalização aparecem com a entrada de gestoras como a Brookfield, que já opera cerca de 6 mil unidades nesse formato.

Para viabilizar o modelo no contexto brasileiro de juros elevados, o executivo defende uma mudança de mentalidade: abandonar a lógica do retorno imediato e adotar a análise de ciclo longo. “A conta curta não fecha, mas a conta de ciclo fecha e entrega mais”, disse. A estratégia envolve aquisição de ativos em momentos de pressão, montagem de portfólio e desinvestimento futuro via fundos imobiliários, capturando valorização e renda ao longo do tempo.

E o diferencial competitivo, na visão de Favaron, não está na incorporação em si, mas em como o ativo é gerido depois de pronto: “É na operação que você ganha dinheiro.

Gestão eficiente, padronização e governança robusta são, segundo ele, os pilares que separam portfólios de locação rentáveis dos que ficam pelo caminho, e o que ainda falta ao mercado brasileiro para dar escala ao modelo.

Tendências e novos modelos de negócio

Outro vetor apontado por Favaron foi o retrofit de imóveis em áreas centrais, prática já em curso em São Paulo e no Rio de Janeiro. A requalificação urbana associada à locação pode ampliar a oferta de habitação próxima a centros econômicos, mas, segundo ele, o avanço depende de incentivos e ajustes regulatórios por parte do poder público.

No campo dos grandes players, o executivo citou a Brookfield como exemplo de movimento institucional no Real Estate brasileiro: a gestora já opera cerca de 6 mil unidades no modelo multifamily. “Eles estão construindo enquanto todo mundo joga pedra”, afirmou. Uma sinalização, na avaliação de Favaron, de que a mudança no mercado local é gradual, mas já está em curso.

A conclusão foi um alerta direto ao setor:

Sete em cada dez incorporadoras, depois de dez anos, desaparecem ou perdem relevância.”

Gustavo Favaron, CEO Global do GRI Institute

Para ele, o Real Estate brasileiro está diante de uma reconfiguração inevitável e quem não diversificar modelos de receita corre o risco de ficar para trás.

O Trends Experience

O Trends Experience é um evento promovido pela plataforma Trends com foco em negócios, economia e tendências setoriais. O encontro reúne empresários, investidores e especialistas para discutir temas estratégicos e compartilhar análises aplicadas ao mercado.

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Marcos André Borges, CEO do grupo VSM Comunicação, Gustavo Favaron, CEO Global do GRI Institute, e Carla Matos, CEO da TRENDS. (Foto: Geovanne Jinkings)

Na edição de 2026, o recorte foi o Real Estate e suas transformações diante do cenário global, conectando lideranças locais a visões internacionais e ampliando o debate sobre oportunidades e novos modelos de negócios.

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