Copom ressalta que manter a Selic em 15% é a estratégia considerada mais adequada para assegurar a convergência da inflação à meta oficial. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil manteve a taxa básica de juros (Selic) em 15% na última quarta-feira (10), alinhando a decisão com o objetivo de conter a inflação e responder ao cenário de desaceleração econômica. A taxa permanece no patamar mais alto desde julho de 2006, quando atingiu 15,25%, e reflete a avaliação de riscos inflacionários persistentes que influenciam a condução da política monetária.
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A permanência da Selic em 15% contraria a expectativa manifestada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que desde 2023 busca a redução dos juros para estimular o crescimento econômico, e ocorre após sete elevações consecutivas pelo Copom entre setembro de 2024 e junho de 2025. O comitê destacou riscos de inflação acima e abaixo do previsto, e ressaltou a necessidade de cautela diante da incerteza econômica global, incluindo tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros.
As tarifas americanas chegaram a alcançar 50% sobre itens exportados pelo Brasil, com impacto direto nos segmentos agrícola e industrial, embora Washington tenha concedido isenções parciais para produtos como café e carne bovina, cuja produção elevada e exportação são estratégicas para o setor empresarial nacional. Esses fatores influenciam as projeções de investidores e executivos, que monitoram possíveis efeitos sobre setores exportadores e cadeia produtiva.
O Copom também ressaltou que manter a taxa Selic em 15% por período prolongado é a estratégia considerada mais adequada para assegurar a convergência da inflação à meta oficial de 1,5% a 4,5%, depois que o índice acumulado em 12 meses ficou em 4,46% no mês passado, entrando no intervalo esperado pelo Banco Central.
Instituições financeiras consultadas pelo Boletim Focus do Banco Central ajustaram a estimativa de inflação para 4,40% em 2025, e confirmaram que a manutenção da taxa Selic tende a reduzir o ímpeto de crescimento da economia, embora ainda preserve a estabilidade de preços. Enquanto isso, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 1,8% em 12 meses no terceiro trimestre de 2025.
Apesar dos desafios externos e internos, o mercado de trabalho mostrou resiliência, com a taxa de desemprego caindo para 5,4% no trimestre entre agosto e outubro, o menor nível desde 2012, fator que pode sustentar a demanda doméstica e influenciar decisões de tomadores de decisão e gestores de empresas ao planejar investimentos e estratégias para 2026, considerando o cenário de juros altos e inflação controlada.
O ambiente externo ainda se mantém incerto em função da conjuntura e da política econômica nos Estados Unidos, com reflexos nas condições financeiras globais. Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por tensão geopolítica.
Em relação ao cenário doméstico, o conjunto dos indicadores segue apresentando, conforme esperado, trajetória de moderação no crescimento da atividade econômica, como observado na última divulgação do PIB, enquanto o mercado de trabalho mostra resiliência. Nas divulgações mais recentes, a inflação cheia e as medidas subjacentes seguiram apresentando algum arrefecimento, mas mantiveram-se acima da meta para a inflação.
As expectativas de inflação para 2025 e 2026 apuradas pela pesquisa Focus permanecem em valores acima da meta, situando-se em 4,4% e 4,2%, respectivamente. A projeção de inflação do Copom para o segundo trimestre de 2027, atual horizonte relevante de política monetária, situa-se em 3,2% no cenário de referência (Tabela 1).
Os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, seguem mais elevados do que o usual. Entre os riscos de alta para o cenário inflacionário e as expectativas de inflação, destacam-se (i) uma desancoragem das expectativas de inflação por período mais prolongado; (ii) uma maior resiliência na inflação de serviços do que a projetada em função de um hiato do produto mais positivo; e (iii) uma conjunção de políticas econômicas externa e interna que tenham impacto inflacionário maior que o esperado, por exemplo, por meio de uma taxa de câmbio persistentemente mais depreciada. Entre os riscos de baixa, ressaltam-se (i) uma eventual desaceleração da atividade econômica doméstica mais acentuada do que a projetada, tendo impactos sobre o cenário de inflação; (ii) uma desaceleração global mais pronunciada decorrente do choque de comércio e de um cenário de maior incerteza; e (iii) uma redução nos preços das commodities com efeitos desinflacionários.
O Comitê segue acompanhando os anúncios referentes à imposição de tarifas comerciais pelos EUA ao Brasil, e como os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam a política monetária e os ativos financeiros, reforçando a postura de cautela em cenário de maior incerteza. O cenário segue sendo marcado por expectativas desancoradas, projeções de inflação elevadas, resiliência na atividade econômica e pressões no mercado de trabalho. Para assegurar a convergência da inflação à meta em ambiente de expectativas desancoradas, exige-se uma política monetária em patamar significativamente contracionista por período bastante prolongado.
O Copom decidiu manter a taxa básica de juros em 15,00% a.a., e entende que essa decisão é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante. Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego.
O cenário atual, marcado por elevada incerteza, exige cautela na condução da política monetária. O Comitê avalia que a estratégia em curso, de manutenção do nível corrente da taxa de juros por período bastante prolongado, é adequada para assegurar a convergência da inflação à meta. O Comitê enfatiza que seguirá vigilante, que os passos futuros da política monetária poderão ser ajustados e que, como usual, não hesitará em retomar o ciclo de ajuste caso julgue apropriado.
Votaram por essa decisão os seguintes membros do Comitê: Gabriel Muricca Galípolo (presidente), Ailton de Aquino Santos, Diogo Abry Guillen, Gilneu Francisco Astolfi Vivan, Izabela Moreira Correa, Nilton José Schneider David, Paulo Picchetti, Renato Dias de Brito Gomes e Rodrigo Alves Teixeira.
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