O governo oferece café “de graça” mas passa a conta no débito coletivo

Por: Adriana Melo | Em:
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governo e imposto de renda

Isenção do Imposto de Renda: no fim, o governo é forçado a buscar outras fontes de arrecadação para compensar esse “presente”. (Foto: Freepik)

O governo anunciou ontem (26) a elevação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$5 mil. A narrativa oficial é simples: alívio para a classe média. A realidade, no entanto, vem com notas de rodapé. É aquela promessa de café de graça, mas que acaba aparecendo na conta do débito coletivo.


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A faixa de até R$5 mil realmente fica isenta e o imposto deixa de ser retido na fonte. Só que o Brasil não adota uma tabela progressiva atualizada com base na inflação. Na prática, quem ganha acima de R$5.001 passa a ser tributado pelas faixas seguintes, que não foram corrigidas integralmente nos últimos anos.

Isso significa que quem recebe mais de R$5 mil não apenas continua pagando IR, como também sofre com a defasagem da tabela. Cada reajuste salarial empurra o contribuinte para uma alíquota maior, mesmo sem aumento real de renda.

A tabela prevê ainda uma alíquota intermediária com desconto simplificado para quem ganha entre R$5.001 e R$7.500. Já para quem recebe acima de R$7,5 mil, segue valendo o modelo antigo, sem correção real, o que afeta especialmente profissionais qualificados e parte da classe média que já sustenta boa parte da carga tributária. No fim, o governo é forçado a buscar outras fontes de arrecadação para compensar esse “presente”. Beneficia alguns, mas a conta inevitavelmente recai sobre outros.

Em resumo, a ampliação da isenção até 5 mil reais tem um apelo político evidente. Ela beneficia milhões de pessoas, criando uma percepção imediata de alívio, mas não resolve o problema estrutural. Continuamos com um sistema tributário que penaliza quem produz e quem formaliza, premia poucos e onera justamente quem sustenta um modelo já marcado por carga tributária elevada, e que tende a aumentar para que as contas públicas fechem.

É uma medida que funciona muito bem na manchete, mas que, do ponto de vista estrutural, é preocupante, especialmente porque sempre surge a dúvida sobre como o governo vai equilibrar o orçamento.

Além disso, há uma pressão adicional sobre a inflação: mais dinheiro circulando, pela isenção a milhões de contribuintes, tende a estimular o consumo e, consequentemente, aumentar a inflação. Ou seja, o efeito final acaba atingindo todos da mesma forma, enquanto o governo não avançar em produtividade, infraestrutura e redução de custos.

Adriana Melo, especialista em finanças e tributação
Adriana Melo, especialista em finanças e tributação. (Divulgação)

*Este conteúdo é de inteira responsabilidade do seu autor. A TrendsCE não se responsabiliza pelas informações contidas no material publicado.

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