Especialista afirma que para a bioeconomia se desenvolver de forma sustentável é preciso sair do discurso abstrato para algo concreto. (Foto: Envato Elements)
Conhecida como Amazônia Legal, a região amazônica, composta por nove estados – Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e parte do Maranhão – conta com nada menos do que 5 milhões de km² de riquezas, nem sempre bem exploradas, o que inclui parcela do bioma Cerrado e Pantanal.
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O mundo olha para a região – que ocupa quase 60% do território nacional – e vê a diversidade da flora e da fauna como estrelas de fundamental grandeza. Tem, também, a maior bacia hidrográfica do Planeta que atende pelo nome de Rio Amazonas e concentra uma enorme riqueza cultural por conta da população indígena. Sua Majestade integra a bioeconomia, onde o Brasil ainda engatinha no que diz respeito a bem explorar. É um modelo de desenvolvimento econômico que comprova a boa convivência da sustentabilidade com o progresso econômico, um valoroso passaporte para a riqueza em favor da sociedade e do equilíbrio para o clima global cada vez mais conturbado.
A preservação da floresta amazônica “em pé” pode gerar um valor bruto anual na ordem de R$ 7,67 trilhões, mais até do que bem-sucedidas commodities como a soja. É bem verdade, entretanto, que há um potencial para empreendimentos de impactos inovadores que valorizem a biodiversidade e os conhecimentos locais. Plataformas como a Jornada Amazônia, que tem como propósito o desenvolvimento de um ecossistema de inovação que promova a conservação da floresta, gerando renda e prosperidade, buscam fomentar a inovação nas cadeias da bioeconomia.
Para quem acompanha esta temática dede pequeno o sentimento é desanimador. Filho de Beni Veras, ex-governador do Ceará, o economista Sérgio Alcântara (foto) não vê outra alternativa para o desenvolvimento da região amazônica que não passe pelas bioeconomia. Como ex-diretor da Federação das Indústrias do Ceará (FIEC), ele participou de discussões para uma melhor exploração das riquezas naturais, de forma a gerar uma indústria química e farmacêutica de elevado valor agregado, com impactos positivos no mercado de trabalho, diferentemente do caminho de industrialização escolhido via Zona Franca de Manaus.

“Na verdade, o Brasil ainda despreza o enorme potencial de desenvolvimento econômico e social da Amazônia”, afirma ele, temendo que esta postura abra espaço para as Organizações Não Governamentais (ONGs) de conduta duvidosa decidirem o futuro da região, além das atividades criminosas envolvendo o tráfico de armas e drogas.
“O Brasil ainda despreza o enorme potencial de desenvolvimento econômico e social da Amazônia.”
Sérgio Alcântara, ex-diretor da FIEC
Para Sérgio Alcântara, que também já foi gestor da área pública, há miopia governamental e falta de legislação inteligente e transparente para atrair o interesse das grandes corporações químicas e farmacêuticas para explorar com sustentabilidade os recursos naturais.
Ao mesmo tempo, ele aponta a educação e conscientização como fundamentais e sugere a criação da melhor faculdade focada nestes segmentos para formar especialistas, elevando a intelectualidade na região, o que acelera o crescimento da economia. “Enquanto isso não acontecer, os estrangeiros continuarão registrando como seus fármacos com nossos insumos, caso do açaí, pelo Japão, e o cogumelo Yanomani, pela Alemanha”, afirma.
Com mais de cinco décadas de atuação em economia agrícola, o engenheiro Alfredo Homma (foto), pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental, segue o mesmo raciocínio. Ele lembra que a Amazônia já contribuiu com vários recursos da sua biodiversidade, destacando a mandioca, cujo cultivo começou há cerca de 3.200 anos na Amazônia, tornando-se um alimento universal para mais de 800 milhões de pessoas no mundo. Duas plantas perenes, a seringueira e o cacaueiro, respectivamente, a segunda e a terceira planta perene com maior área plantada no mundo, também, foram fazer riqueza em outros países da África e da Ásia.
Em nível nacional, este mesmo fenômeno se verificou com o guaraná, onde desde a década de 1980, a Bahia concentra 65% a 70% da produção do país; a pupunheira, outra planta da biodiversidade amazônica, os estados de São Paulo, Bahia, Paraná e até na fria Santa Catarina, concentram mais de 90% da área plantada no país para produção de palmito.

Situação idêntica ocorre com o cupuaçu, açaí, jambu, entre outras plantas e animais como o pirarucu, tambaqui, etc. O açaizeiro, hoje, é plantado em São Paulo, Tocantins, Bahia, Distrito Federal, entre outros.
“Parece que as coisas boas são levadas para outros locais, a despeito do discurso da biodiversidade, retirando as oportunidades de renda e emprego para as populações rurais”, afirma Homma, que defende a necessidade de investir pesadamente na domesticação dos produtos cuja oferta extrativa já chegou no seu limite e apresenta grande mercado como a castanha do Pará, bacuri, pau rosa, paricá e mogno brasileiro. Afinal, a bioeconomia é mesmo a nova fronteira de desenvolvimento sustentável? Resposta: Precisamos sair do discurso abstrato para algo concreto, sem fantasias.
A propósito, há mais de 20 definições de bioeconomia. Alfredo Homma adota um conceito amplo. A soja, a cana-de-açúcar, a pecuária, o cacaueiro e a seringueira são bioeconomias porque o gado consome capim e transforma em leite. A cana moída é fermentada gera o álcool combustível, que deu pioneirismo ao Brasil na produção da agroenergia, gerada através da agricultura. A cachaça, a cerveja, o vinho e o queijo são produtos da bioeconomia. “Aceitar esta definição, sem xenofobia botânica ou animal, para que tenhamos a possibilidade de criarmos uma grande bioeconomia produtiva na Amazônia, observando o nexus com água, solo, clima, melhoria do bem-estar da população, sustentabilidade, entre outras”, afirma ele, ao explicar que a questão não é a soja, a pecuária e o eucalipto, mas o padrão tecnológico com que estas atividades estão sendo conduzidas.
A área reflorestada na Amazônia Legal é menos de 1,0 milhão de hectares. Convém lembrar que estados como Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo possuem área florestada superior à soma dos nove estados componentes da região amazônica. Isto porque até 2024 foram desmatados cerca de 82 milhões de hectares, ou três vezes o Estado de São Paulo. Dois estados de São Paulo são áreas de pastos. Os estadunidenses com menos da metade do rebanho bovino nacional conseguem produzir 1,25 vez mais carne que o Brasil, que é o maior exportador mundial de carne. “Nós podemos reduzir as áreas de pastos na Amazônia Legal pela metade e mantendo o mesmo rebanho, de quase a metade do país, mediante aumento de produtividade do rebanho e das pastagens em uma década”, calcula.
Pragmático, o pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental diz que não há soluções mágicas como propõem alguns.
“Desenvolvimento sustentável não existe, mas um desenvolvimento ‘mais sustentável’ sempre é possível em qualquer atividade produtiva. Dependerá do padrão tecnológico com que estas atividades vão ser desenvolvidas.”
Alfredo Homma, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental
Homma exemplifica: a extração madeireira do auge na Amazônia Legal em 1994 ficou reduzida a 20%, o que levou a um risco de apagão florestal, dada a necessidade de madeira, lenha para secagem de grãos (soja, milho, trigo), para beneficiamento da farinha de mandioca na Amazônia e para atender os frigoríficos, entre outras aplicações.
A complexidade dos problemas e soluções são desafiadoras. Com os maiores bolsões de pobreza, a Amazônia é também a região das oportunidades. Para isto, precisa estancar os problemas básicos, a começar pelo reflorestamento das margens dos cursos de água, dar sentido econômico na recuperação de Áreas de Preservação Permanente (APP) e nas Áreas de Reservas Legal (ARL), mediante reflorestamento, plantio de cultivos perenes, neutralizando o desmatamento. “Com isso, podemos crescer com saldo positivo que, na Amazônia, acredito, seja em torno de 10 a 15 milhões de hectares”, diz o pesquisador.
Para o pesquisador Alfredo Homma, a área desmatada constitui o que ele chama de Segunda Natureza e a floresta intocada a Primeira Natureza. O desafio seria como transformar uma parte da Segunda Natureza – que representa 82 milhões de hectares ou 18% da Amazônia Legal – em uma Terceira Natureza, com atividades produtivas mais adequadas.
As alternativas agrícolas passam, portanto, de como utilizar a Segunda Natureza, que equivale três vezes a superfície de São Paulo ou mais do que a soma da Região Sul ou duas vezes a superfície do Japão ou da Alemanha, respectivamente, a terceira e a quarta economia do planeta.

Para Julia Ferreira Tatto (foto), conselheira da Associação dos Negócios da Sociobioeconomia da Amazônia (Assobio) e cofundadora da Urucuna, a sociobioeconomia representa uma nova fronteira de desenvolvimento sustentável para o Brasil e para o mundo. É um modelo que valoriza a floresta em pé e reconhece os saberes tradicionais como base para inovação e geração de valor.
Os negócios que integram a Assobio que ela representa demonstram que é possível aliar impacto socioambiental positivo à viabilidade econômica, com mais de 50 mil hectares preservados, 600 empregos gerados e cerca de R$ 10 milhões em renda anual movimentada em segmentos como alimentos, cosméticos, moda, turismo, fármacos e serviços ambientais.

A Amazônia Legal, com seus nove estados, é estratégica não apenas pela sua biodiversidade, mas por seu potencial de liderar a transição para uma economia regenerativa e de baixo carbono. Os produtos e serviços que nascem na floresta, uma combinação de conhecimento ancestral e científico, podem posicionar o Brasil como uma potência global em inovação baseada em natureza.
Para Julia Tatto, entretanto, para que esse potencial se realize, é urgente superar entraves estruturais como a falta de acesso ao crédito adequado à realidade dos pequenos negócios, os altos custos logísticos, a burocracia regulatória e a ausência de políticas públicas robustas voltadas ao fortalecimento das cadeias da sociobioeconomia. Falta ainda infraestrutura básica em muitas comunidades e investimentos em pesquisa, desenvolvimento e comunicação setorial.
Mesmo assim, a entidade vê com otimismo o crescente interesse de investidores, empresas e consumidores por modelos de negócios éticos, rastreáveis e com impacto positivo. A sociobioeconomia tem despertado atenção justamente por oferecer essa combinação de inovação, valor cultural, preservação ambiental e geração de renda local.
“Investir na sociobioeconomia é ter a possibilidade de contribuir com soluções para a crise climática, apoiar o protagonismo dos povos da floresta e acessar produtos únicos, com identidade e propósito.”
Julia Ferreira Tatto, conselheira da Assobio
“O futuro da Amazônia depende da construção de um ecossistema interconectado de pequenos e médios empreendedores, com escala baseada na diversidade, replicabilidade e na colaboração”, acredita a conselheira da Assobio, convicta de que os negócios que regeneram, fortalecem e respeitam são o verdadeiro caminho para o desenvolvimento da região.
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