Os Estados Unidos deixaram o Brasil fora da segunda distribuição da cota de açúcar bruto para o ano fiscal de 2027. Com isso, as 55.993 toneladas restantes da cota foram destinadas a outros 27 países.
A decisão pode retirar cerca de US$ 30 milhões em receitas das usinas do Nordeste, segundo estimativa de Renato Cunha, presidente da Novabio e do Sindaçúcar-PE. O dirigente avalia que a medida reduz o espaço de exportadores brasileiros em um mercado que oferece condições tarifárias diferenciadas.
A USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos) anunciou a distribuição em 23 de setembro. Segundo o órgão, a quantidade corresponde ao saldo da cota mínima de 1.117.195 MTRV estabelecida para o açúcar bruto no ano fiscal de 2027.
Brasil perde acesso a parcela adicional
O sistema norte-americano divide a distribuição da cota em etapas. Primeiro, a USTR destinou 1.061.202 MTRV entre os países elegíveis em julho. Depois, o órgão distribuiu as 55.993 toneladas que restavam.
Dessa vez, o Brasil não recebeu nenhuma parcela. Assim, os Estados Unidos completaram a distribuição do volume previsto para o ano fiscal de 2027 entre outros fornecedores.
A cota permite que determinados volumes de açúcar entrem no mercado norte-americano com tarifa menor. Acima desse limite, as importações ficam sujeitas a uma tarifa mais elevada, conforme explica a própria USTR.
Historicamente, o Brasil figura entre os principais países beneficiados pelo sistema. No ciclo anterior, a parcela brasileira destinada às usinas do Norte e Nordeste alcançava 155,9 mil toneladas, conforme dados citados pelo setor.
República Dominicana recebe maior parcela
A segunda distribuição concentrou volumes relevantes em alguns fornecedores. A República Dominicana recebeu 11.931 toneladas, enquanto as Filipinas ficaram com 9.151 toneladas e a Austrália, com 5.626 toneladas.
Além desses países, outros 24 fornecedores receberam parcelas do volume restante. Por outro lado, o Brasil não aparece na relação divulgada pela USTR.
Para o setor sucroenergético nordestino, a decisão representa uma mudança nas condições de acesso ao mercado norte-americano. Segundo Renato Cunha, as usinas da região enviavam entre 115 mil e 120 mil toneladas por ano aos Estados Unidos.
Nesse contexto, a perda da parcela preferencial reduz a previsibilidade comercial no início da safra. Além disso, o mercado norte-americano historicamente apresenta condições de preço relevantes para o açúcar brasileiro.
Cota brasileira já vinha encolhendo
A exclusão ocorre depois de uma redução expressiva da cota brasileira nos últimos ciclos. O volume destinado às usinas brasileiras chegou a 222.971 toneladas na safra 2023/2024.
Na temporada seguinte, porém, a quantidade caiu para 146.611 toneladas. O mesmo volume permaneceu em 2025/2026, o que representa uma redução de aproximadamente 34% em relação ao pico.
A trajetória também inclui oscilações anteriores. Na safra 2020/2021, por exemplo, a cota ficou em 177.118 toneladas, ante 293.796 toneladas no ciclo 2019/2020.
Depois disso, o volume voltou a crescer até atingir o pico de 2023/2024. Agora, a ausência do Brasil na segunda rodada de 2027 amplia a redução do acesso ao mercado norte-americano.
Disputa comercial amplia incertezas
A decisão ocorre em meio a uma relação comercial mais ampla entre Brasil e Estados Unidos. Em julho, a USTR anunciou a distribuição inicial da cota de açúcar para 2027, mantendo o volume total mínimo previsto no acordo da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Ao mesmo tempo, o governo norte-americano mantém discussões e medidas comerciais que afetam produtos brasileiros.
No caso do açúcar, o impacto específico da nova distribuição está relacionado ao acesso à cota tarifária. Portanto, a exclusão do Brasil reduz o volume que poderá entrar nos Estados Unidos dentro desse mecanismo.
O setor nordestino, por sua vez, acompanha o cenário porque uma parcela relevante das exportações regionais utiliza o mercado norte-americano. Com isso, alterações na cota podem afetar receita, planejamento de produção e estratégia comercial das usinas.
Mercado europeu surge como alternativa
Diante da redução do espaço nos Estados Unidos, o mercado europeu aparece como uma possibilidade para ampliar destinos. O acordo comercial entre Mercosul e União Europeia prevê uma cota de importação de 180 mil toneladas de açúcar.
Entretanto, a existência da cota não garante que o mercado europeu substitua as condições oferecidas pelos Estados Unidos. Preços, custos logísticos, exigências comerciais e negociações com compradores também entram nessa equação.
Para as usinas nordestinas, essa diferença é relevante. Enquanto a cota norte-americana oferece um mecanismo consolidado de acesso, a expansão para a Europa exige novas negociações e avaliação das condições comerciais.
Nordeste busca alternativas para exportação
A mudança na política de acesso ao mercado norte-americano ocorre justamente no início de um novo ciclo de produção de açúcar na região.
Por isso, produtores e usinas precisam avaliar destinos alternativos para parte do volume que poderia seguir aos Estados Unidos. A Europa aparece como uma possibilidade, mas outros mercados também podem ganhar importância conforme os preços e as condições de negociação.
Além disso, a diversificação reduz a dependência de um único mercado externo. Ainda assim, a substituição de uma cota preferencial não depende apenas da disponibilidade de compradores.
Na prática, as usinas precisam considerar preço líquido, frete, tarifas, prazo de pagamento e capacidade de absorção de cada destino.
Cota americana perde espaço no planejamento
A decisão da USTR fecha a distribuição da cota tarifária de açúcar bruto dos EUA para o ano fiscal de 2027. O país norte-americano manteve o volume total de 1.117.195 MTRV, mas distribuiu as parcelas entre fornecedores sem incluir o Brasil na segunda rodada.
Dessa forma, o impacto para o Nordeste não se limita às toneladas que deixam de ser exportadas. A mudança também altera o planejamento comercial das usinas que tradicionalmente utilizam o mercado norte-americano.
Agora, o setor precisa avaliar quanto desse volume poderá encontrar compradores em outros mercados e em quais condições. Ao mesmo tempo, a evolução das relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos continuará sendo acompanhada pelas empresas exportadoras.
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