A migração da dívida pública para títulos atrelados à Selic pode aumentar a velocidade de reação do mercado de câmbio diante de uma deterioração das contas públicas. O alerta é do UBS Global Wealth Management, que avalia que uma piora na percepção fiscal pode estimular investidores brasileiros a buscar proteção em dólar.
Segundo a equipe de pesquisa macroeconômica do banco, liderada pela economista Solange Srour, a maior participação de títulos pós-fixados na dívida facilita a realocação das carteiras. Isso ocorre porque esses ativos têm elevada liquidez e podem ser convertidos com mais facilidade em outras posições, inclusive em moeda estrangeira.
Por enquanto, o cenário não indica uma ruptura. O fluxo de capital estrangeiro ainda ajuda a absorver parte da demanda doméstica por dólar. No entanto, em um ambiente de maior estresse, esse equilíbrio pode mudar. Enquanto brasileiros aumentariam a procura por proteção cambial, investidores estrangeiros poderiam reduzir a oferta de moeda no mercado local.
Nesse caso, a pressão sobre o câmbio passaria a depender mais da capacidade de resposta da política econômica, das reservas internacionais e da confiança dos investidores na condução das contas públicas.
Dívida atrelada à Selic aumenta sensibilidade
A composição da dívida ganha importância nesse cenário porque a maior exposição à Selic cria uma relação mais direta entre juros e custo do endividamento público. De acordo com o Tesouro Nacional, cada aumento de um ponto percentual na taxa básica representa uma elevação mecânica de R$ 60,6 bilhões na dívida bruta, equivalente a 0,46% do PIB.
Além disso, quanto maior o estoque da dívida, maior tende a ser o impacto financeiro provocado por novas altas dos juros. Assim, uma deterioração das expectativas fiscais pode gerar um ciclo de maior prêmio de risco, juros elevados e aumento do custo de financiamento do governo.
O UBS avalia que esse mecanismo pode reduzir a eficácia da política monetária. Em uma situação de pressão sobre o câmbio, por exemplo, uma alta da Selic poderia ajudar a conter a demanda por dólares. Entretanto, ao mesmo tempo, a medida aumentaria o custo de uma parcela relevante da dívida pública.
O resultado seria um dilema para o Banco Central: elevar os juros para conter a pressão cambial poderia, em determinadas circunstâncias, ampliar a preocupação do mercado com a trajetória fiscal.
É nesse ponto que aparece o conceito de dominância fiscal, situação em que as condições das contas públicas passam a limitar a capacidade da política monetária de atuar sobre inflação, juros e câmbio.
O banco, contudo, ressalta que o Brasil ainda não se encontra nesse estágio. O alerta está relacionado ao aumento da vulnerabilidade caso a percepção de risco avance e o mercado passe a questionar a sustentabilidade da trajetória da dívida.
Prêmio nas LFTs vira sinal de alerta
Um dos indicadores que o UBS recomenda acompanhar é o comportamento das Letras Financeiras do Tesouro (LFTs), títulos públicos cuja remuneração acompanha a Selic.
Em condições normais, esses papéis são considerados entre os ativos de menor risco do mercado doméstico. Por isso, uma cobrança de prêmio relevante sobre a taxa básica para que o Tesouro consiga vender esses títulos poderia indicar uma deterioração da confiança dos investidores.
Atualmente, o indicador ainda não aponta para um cenário de estresse. O financiamento do Tesouro já ocorre, porém, com um pequeno prêmio em relação à Selic. Para o UBS, esse movimento merece acompanhamento, mas não é suficiente, isoladamente, para caracterizar uma ruptura.
O ponto de atenção está na combinação entre dívida elevada, juros altos e maior indexação à Selic. Caso a percepção fiscal piore, o mercado pode exigir remuneração maior para financiar o governo e, simultaneamente, aumentar a procura por ativos de proteção cambial.
Nesse cenário, o comportamento do dólar deixaria de depender apenas dos fluxos comerciais e financeiros tradicionais. A própria estrutura da dívida poderia acelerar a migração de recursos para a moeda americana, aumentando a sensibilidade do câmbio a episódios de estresse fiscal.
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