Artigo: Entre algoritmos e aleatoriedade

Joaquim Cartaxo, diretor Superintendente do Sebrae/CE (à esquerda), e Vinícius Lages, gerente da Unidade de Assessoria Internacional do Sebrae Nacional, à direita. (Foto: Divulgação)

Edgar Morin (1921-2026) compreende o ser humano como imperfeito, inacabado e plural: “a um só tempo, físico, biológico, psíquico, cultural, social e histórico” – uma unidade mesclada por variáveis entrelaçadas, inseparáveis e que não podem ser reduzidas entre si.

Esse entendimento qualifica a natureza humana como diversa, heterogênea e interconectada, contrariando as visões tradicionais simplificadoras e disciplinares.

Dada essa natureza, Morin argumenta que nossa capacidade de conhecer está sujeita a equívocos, distorções e incertezas. Em Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro (2000), adverte: “Todo conhecimento comporta o risco do erro e da ilusão”.

Daí a imperfeição humana, pois nossa consciência está sujeita a crenças ilusórias, enganos e percepções parciais que levam à confusão entre realidade e desejo. A imperfeição cognitiva tendencia simplificar e distorcer o real, com racionalizações aparentemente lógicas, porém falaciosas. Assim, Morin convida-nos a valorizar a correção de erros como parte integrante do processo de conhecimento.

A imprevisibilidade também integra a ambiguidade do ser humano. Diante de determinações antecipadas, qualquer movimento pode desencadear desdobramentos inesperados. Se essas alterações podem trazer surpresas desagradáveis, por outro lado, mudanças no cotidiano podem fazer eclodir criações geniais.

Desvios ao acaso e transformações sem planejamento originam novos fatos e situações, em combinações imprevistas que fazem surgir soluções sem programação, ou seja, inovação.

Por isso, a inteligência artificial (IA), fundada em padrões e previsibilidade, não substituirá a inteligência humana, dotada de imperfeições. A IA opera por meio de algoritmos planejados com vistas a otimizar desempenho, segundo critérios fixos com base em distribuições estatísticas controladas; simula inteligência a partir de informações predefinidas, sem considerar a experimentação direta nem as vivências em ecossistemas de convivência humana.

Cada ação de IA responde a padrões programados, sem correspondência com impulsos vitais ou improviso. O erro em uma máquina equivale a um defeito a ser eliminado. Na experiência humana, um erro pode derivar em aprendizado e ideias fora do catálogo dos códigos. Uma escultura, uma poesia, um meme.

Sob a ótica da complexidade, a interação de mentes humanas produz resultados imprevisíveis, não reproduzíveis pelo algoritmo. Assim, a criação humana, mesmo imperfeita, supera sistemas de IA em criatividade não linear, pois realiza movimentos sem garantia e sem repetição programada.

Nisso residem a autonomia e renovação humanas, rodeadas do acaso, da volatilidade e criatividade. Expressam a superioridade da imperfeição e da adaptação em relação à programação e à previsibilidade.

*Joaquim Cartaxo é diretor Superintendente do Sebrae/CE.

*Vinícius Lages é gerente da Unidade de Assessoria Internacional do Sebrae Nacional.

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