Em um cenário de expansão do mercado livre de energia e avanço da transição energética no Brasil, a Kroma Energia consolidou-se como uma das principais referências do setor no Nordeste. Surgida em 2008, sendo a primeira comercializadora independente de energia da região, a empresa vem ampliando sua atuação por meio da integração entre comercialização, gestão energética e geração renovável.
Nesta entrevista exclusiva para a TRENDS, o CEO da Kroma, Rodrigo Mello, analisa os desafios enfrentados desde a fundação da companhia, comenta o amadurecimento do mercado livre de energia e avalia o papel da tecnologia, da inteligência artificial e das fontes renováveis no futuro do setor elétrico brasileiro.
Ao longo da conversa, o executivo também aborda temas como segurança regulatória, expansão da geração solar, gargalos de transmissão e as oportunidades estratégicas que colocam o Nordeste em posição de destaque no cenário energético nacional.
TRENDS – A Kroma nasceu como a primeira comercializadora independente de energia do Nordeste. Na sua visão, quais foram os principais desafios para consolidar esse modelo de negócio na região?
RODRIGO MELLO – Quando iniciamos a Kroma, em 2008, o mercado livre de energia ainda era pouco conhecido fora dos grandes centros econômicos do país. Um dos maiores desafios foi justamente desenvolver uma cultura de gestão estratégica de energia entre as empresas nordestinas. Precisamos mostrar que energia não era apenas uma despesa inevitável, mas uma variável capaz de gerar competitividade e ganhos financeiros relevantes.
Além disso, enfrentamos o desafio de formar mão de obra especializada e construir credibilidade em um mercado tradicionalmente concentrado em grandes agentes nacionais. O fato de estarmos há mais de 18 anos atuando nesse segmento demonstra a consistência da nossa visão e o conhecimento acumulado ao longo dessa trajetória.
O mercado livre de energia vive um momento de expansão no Brasil. Como o senhor avalia o nível de maturidade desse mercado atualmente?
O mercado livre evoluiu de forma significativa nos últimos anos. Hoje, existe um nível muito maior de conhecimento por parte dos consumidores, especialmente após a ampliação do acesso para empresas de menor porte.
Ainda estamos em um processo de amadurecimento, principalmente quando comparado a mercados mais desenvolvidos internacionalmente, mas já observamos consumidores buscando não apenas economia, mas também previsibilidade, sustentabilidade e inteligência energética. O próximo grande passo será a abertura total do mercado para os consumidores de baixa tensão, o que ampliará significativamente o acesso a soluções energéticas mais eficientes.
A Kroma vem apostando na verticalização, integrando comercialização, gestão energética e geração solar. Essa tendência deve se tornar dominante entre as empresas do setor elétrico nos próximos anos?
Acredito que a integração de serviços tende a ganhar cada vez mais espaço. O cliente busca soluções completas, e não apenas fornecedores isolados. Quando conseguimos integrar geração, comercialização e gestão energética, entregamos mais eficiência, previsibilidade e valor. Com a abertura do mercado para milhões de consumidores de menor porte, a inteligência artificial e a automação de processos serão fatores decisivos para o sucesso das comercializadoras. A capacidade de analisar dados em tempo real, personalizar soluções e automatizar operações permitirá ganhos de escala fundamentais para a competitividade do setor.
Em seus posicionamentos públicos, o senhor defende que a energia deixou de ser apenas um custo operacional e passou a ser um ativo estratégico. Como essa mudança de mentalidade vem impactando as empresas brasileiras?
As empresas que enxergam a energia de forma estratégica conseguem tomar decisões mais inteligentes sobre investimentos, expansão e competitividade. Hoje, a gestão energética influencia diretamente indicadores financeiros, metas ESG e até decisões relacionadas à localização de empreendimentos.
Essa visão permite transformar um centro de custo em uma oportunidade de geração de valor. Cada vez mais, ferramentas digitais, análise avançada de dados e inteligência artificial contribuem para que as empresas tomem decisões mais rápidas e assertivas sobre seu consumo energético.
O Nordeste se consolidou como uma das principais regiões do país para geração renovável. Quais vantagens competitivas Pernambuco e os estados nordestinos oferecem hoje para novos investimentos?
O Nordeste possui recursos naturais excepcionais, especialmente em energia solar e eólica. Além disso, a região conta com disponibilidade de áreas, experiência acumulada no desenvolvimento de projetos renováveis e uma cadeia produtiva cada vez mais estruturada. Pernambuco, em particular, possui localização estratégica, infraestrutura logística relevante e um ambiente empresarial favorável a novos investimentos em energia e indústria. A combinação desses fatores coloca a região em posição privilegiada para liderar uma parcela importante da transição energética brasileira.
A Kroma administra mais de 1.600 unidades consumidoras em gestão energética. Quais são hoje os maiores erros cometidos pelas empresas brasileiras na gestão do consumo de energia?
O principal erro é tratar a energia apenas como uma conta a ser paga no fim do mês. Muitas empresas ainda não monitoram adequadamente seus indicadores de consumo e deixam de aproveitar oportunidades de eficiência energética. Outro equívoco comum é não alinhar a estratégia energética ao planejamento financeiro e operacional da companhia. Hoje, existem tecnologias capazes de monitorar, prever e otimizar o consumo em tempo real, e empresas que não utilizam esses recursos acabam perdendo competitividade.
O setor elétrico brasileiro enfrenta debates sobre previsibilidade regulatória e segurança energética. Qual é a avaliação do senhor sobre o atual ambiente regulatório para investidores em energia renovável?
O Brasil possui um dos maiores potenciais renováveis do mundo e continua sendo um mercado atrativo para investidores. Entretanto, previsibilidade regulatória é fundamental para projetos de longo prazo. O setor precisa de regras claras, estabilidade institucional e planejamento consistente para garantir a confiança dos investidores e permitir a continuidade da expansão dos investimentos em infraestrutura energética. O avanço da transição energética exige segurança jurídica compatível com o volume de capital necessário para financiar essa transformação.
A companhia já possui cerca de 525 MW em operação e projetos em expansão. Como a Kroma enxerga o crescimento da geração solar centralizada no Brasil diante do aumento da demanda energética?
A demanda por energia continuará crescendo, acompanhando o desenvolvimento econômico, a digitalização da economia, a expansão dos data centers, a eletrificação de processos industriais e o avanço de novos segmentos produtivos. A geração solar centralizada terá papel importante nesse processo por sua competitividade, escalabilidade e rapidez de implantação. Acreditamos que o Brasil ainda possui um espaço muito relevante para expansão da capacidade solar nos próximos anos.
O mercado de energia renovável também enfrenta desafios como armazenamento, transmissão e financiamento. Quais gargalos o senhor considera mais urgentes para garantir a expansão sustentável do setor?
Atualmente, a infraestrutura de transmissão é um dos principais desafios. Precisamos garantir que a energia gerada chegue aos centros consumidores de forma eficiente. O armazenamento também ganhará relevância crescente à medida que a participação das fontes renováveis aumenta. Além disso, mecanismos de financiamentos competitivos continuam sendo fundamentais para viabilizar projetos em larga escala. O desafio é garantir que toda a cadeia evolua no mesmo ritmo da expansão da geração renovável.
Com o avanço da transição energética global, qual deve ser o papel das empresas brasileiras de energia nos próximos anos e como a Kroma pretende se posicionar nesse cenário?
As empresas brasileiras têm a oportunidade de assumir protagonismo global na transição energética, aproveitando a matriz elétrica já majoritariamente renovável do país. Nosso papel será desenvolver soluções que combinem competitividade, sustentabilidade e inovação. Na Kroma, seguimos investindo em geração renovável, comercialização inteligente e gestão energética, mas também em tecnologia, automação e inteligência artificial, que serão elementos centrais para atender um mercado cada vez mais amplo e dinâmico. Acreditamos que o futuro do setor passa pela combinação entre energia limpa, digitalização e experiência do consumidor.
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