Leonardo Queiroz: “Sustentabilidade é um caminho para a longevidade das empresas e do próprio desenvolvimento urbano”

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Leonardo Pessoa de Queiroz pretende transformar o Recife em um "hub de conhecimento técnico", como costuma dizer. (Foto: Divulgação)

A Associação das Empresas do Mercado Imobiliário de Pernambuco (Ademi-PE) tem um novo comando. Leonardo Pessoa de Queiroz assume a presidência em um momento de transição urbana e econômica, em que o setor imobiliário se consolida como o principal motor de transformação das cidades pernambucanas.


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Entre as prioridades da nova gestão está o fortalecimento do ambiente de negócios por meio da segurança jurídica e da desburocratização dos processos de licenciamento, pontos fundamentais para atrair novos investimentos para a Região Metropolitana do Recife (RMR).

Um dos pilares da nova administração é a aposta no retrofit como vetor de revitalização de áreas históricas, apoiado por marcos recentes como a Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo (LPUOS) e o Programa Recentro.

Leonardo Pessoa de Queiroz pretende transformar o Recife em um “hub de conhecimento técnico”, como costuma dizer. O objetivo é promover a troca de experiências entre empresas e órgãos como o IPHAN, minimizando a subjetividade das análises e acelerando a entrega de projetos emblemáticos.

Na entrevista concedida com exclusividade à Trends, Leonardo fala sobre qual será sua linha de trabalho, equilibrando a agenda de sustentabilidade (ESG) com a necessidade urgente de reduzir a judicialização do setor. Confira:

Trends: O senhor assume a presidência da Ademi-PE em um momento de desafios importantes para o setor. Quais são as prioridades imediatas dessa nova gestão?

Leonardo: Temos como prioridade imediata seguir avançando na melhoria do ambiente de negócios do mercado imobiliário pernambucano. Isso passa pela manutenção e pelo fortalecimento de iniciativas estratégicas, como o Morar Bem Pernambuco, além de uma atuação propositiva no acompanhamento de ajustes e aperfeiçoamentos do Minha Casa, Minha Vida. Outro eixo central da gestão será a busca por avanços na legislação e no ambiente regulatório, de forma a estimular as vendas de imóveis de médio e alto padrão. Nesse contexto, ganham especial relevância as discussões relacionadas à linha costeira, às questões ambientais, ao patrimônio da União e ao início dos debates em torno do Plano Diretor de 2028. Também teremos uma atuação muito próxima aos municípios pernambucanos, promovendo o diálogo em torno de melhorias nas legislações urbanísticas e nos processos de licenciamento.

Um dos temas em debate recente é o retrofit como vetor de desenvolvimento. Como a Ademi pretende estimular esse tipo de iniciativa no Recife, especialmente em áreas históricas?

Esse é um tema muito importante. Acredito que a Ademi pode atuar como um acelerador de conhecimento técnico em obras de retrofit. Temos um comitê, o Incontec, que reúne as áreas técnicas das empresas associadas e se consolida como um vetor fundamental para a difusão de conhecimento nesse tipo de intervenção. Recentemente, a construtora Moura Dubeux entregou a revitalização do Moinho — antigo moinho de trigo transformado em habitações — em uma obra de referência internacional. Aprendizados como esse precisam ser compartilhados para que todo o setor evolua e acelere essa transformação.

O Centro do Recife tem um grande potencial de revitalização. Que papel a entidade pode desempenhar para transformar esse potencial em projetos concretos?

Acredito que a Ademi pode ser a ponte entre o setor produtivo e os órgãos legislativos e licenciadores responsáveis pela aprovação dos projetos no Centro do Recife. Ao promover esse diálogo de forma estruturada, a entidade pode contribuir para simplificar fluxos, dar mais previsibilidade aos processos e acelerar a transformação de boas ideias em empreendimentos concretos. Além disso, a Ademi pode se consolidar como um hub de conhecimento técnico, reunindo incorporadores, urbanistas, especialistas e agentes públicos para compartilhar experiências, discutir soluções e difundir boas práticas.

A articulação entre iniciativa privada e órgãos como IPHAN e Recentro foi destacada nos encontros da entidade. Como fortalecer esse diálogo para destravar projetos?

Acredito que todos os atores envolvidos buscam o melhor para a cidade, embora seja natural que existam convergências e divergências ao longo do processo. O caminho é ampliar o diálogo para identificar pontos em comum e discutir as diferenças com empatia, compreendendo as razões e responsabilidades de cada parte. Ao levarmos aos órgãos competentes os desafios práticos enfrentados pelo setor, conseguimos alinhar entendimentos, reduzir ruídos e construir soluções efetivas.

O setor também enfrenta entraves técnicos e jurídicos, como vícios construtivos e judicialização. Que ações a nova gestão pretende adotar para reduzir esses impactos?

Esse é um tema em que precisamos evoluir. Há um debate nacional relevante que precisa ser enfrentado de forma estruturada para defender o mercado e reduzir a insegurança jurídica: a definição objetiva do marco a partir do qual um imóvel é considerado efetivamente entregue para fins de contagem dos prazos de garantia.

Acredito que esse é um ponto crucial da agenda da nova gestão: aprofundar essa discussão, buscar alinhamento institucional e contribuir para a construção de parâmetros mais claros, que reduzam a judicialização e tragam mais previsibilidade para todo o setor.

A relação com a Caixa Econômica Federal é estratégica para o mercado imobiliário. Como a Ademi pode contribuir para alinhar exigências e dar mais segurança aos empreendimentos?

A Caixa é a principal parceira do mercado imobiliário brasileiro e, em Pernambuco, essa relação também é estratégica e muito bem estruturada. Temos um Comitê de Habitação Popular (CHP), um espaço permanente de diálogo para discutir, em conjunto com a Caixa, temas técnicos e operacionais específicos. Esse fórum permite alinhar exigências, aperfeiçoar fluxos, acelerar processos e ampliar a segurança jurídica para todos os envolvidos — instituição financeira, incorporadores e, principalmente, os clientes.

Acredito que é justamente por meio desse ambiente de discussão qualificada, com pautas objetivas e construção conjunta de soluções, que seguiremos evoluindo e fortalecendo ainda mais essa parceria tão essencial para o desenvolvimento do setor.

Em um cenário com escassez de terrenos em áreas consolidadas, o retrofit surge como alternativa. Esse modelo pode ganhar escala em Pernambuco?

Sem dúvida. Em Pernambuco, especialmente no Centro do Recife, esse movimento tende a ganhar ainda mais escala após a aprovação da Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo (LPUOS), que trouxe mecanismos como o subsídio cruzado e criou estímulos importantes para esse tipo de intervenção. Ao mesmo tempo, é fundamental amadurecer o debate técnico e regulatório. Hoje, muitos projetos de retrofit ainda passam por análises subjetivas, o que gera insegurança e pode limitar a expansão desse modelo. Precisamos avançar na construção de critérios mais objetivos e de pontos de convergência entre os diversos agentes envolvidos. Acredito que a Ademi tem condições de contribuir com essa discussão para que o retrofit ganhe escala de forma sustentável.

A sustentabilidade tem ganhado espaço no setor. Como a nova diretoria pretende incorporar práticas mais sustentáveis nos projetos imobiliários?

Acredito profundamente na sustentabilidade como um caminho para a longevidade das empresas e do próprio desenvolvimento urbano. Precisamos estimular cada vez mais a incorporação de práticas sustentáveis, desde a concepção dos projetos até a escolha de materiais, a eficiência operacional das edificações e a redução dos impactos ambientais das obras. Também não podemos esquecer do benefício que nossos empreendimentos entregam à sociedade.

Na Ademi, já promovemos esse debate por meio do nosso evento anual de ESG, um espaço importante para discutir boas práticas, inovação, eficiência energética, uso de materiais mais sustentáveis e soluções que reduzam a pegada ambiental do setor. Tudo isso é fundamental para que o mercado continue evoluindo.

De que forma a Ademi-PE pode contribuir para tornar o ambiente de negócios mais atrativo para novos investimentos no estado?

Acredito que a Ademi-PE pode contribuir de forma decisiva no debate sobre o futuro das cidades e na modernização do ambiente regulatório. Recentemente, assinamos um termo de compromisso com o Governo do Estado e o Insper para implantar em Pernambuco o Laboratório de Cidades do Insper – uma iniciativa transformadora, que pela primeira vez sai de São Paulo e chega ao nosso estado. O objetivo inicial é analisar as legislações dos 14 municípios da Região Metropolitana, oferecendo suporte técnico às gestões públicas para aprimorar marcos legais, simplificar processos, reduzir burocracias e ampliar a segurança jurídica.

Ao tornar as regras mais claras, eficientes e previsíveis, criamos um ambiente muito mais atrativo para novos investimentos.

Além disso, tivemos participação ativa na revisão da LPUOS do Recife no ano passado. Apresentamos as contribuições do setor e, pela primeira vez, a lei foi aprovada por unanimidade, refletindo um processo de escuta ampla e uma importante convergência entre os diversos interesses da sociedade.

Nossa intenção é aprofundar esse modelo de diálogo permanente com o poder público, órgãos licenciadores, concessionárias, terceiro setor e movimentos populares. Quando ampliamos a capacidade de escuta e construção conjunta, saímos de uma lógica de demandas isoladas para uma agenda coletiva, orientada pelo bem-estar social, pelo desenvolvimento econômico e pela sustentabilidade — pilares essenciais para atrair investimentos e impulsionar Pernambuco.

Ao final do mandato, qual legado o senhor espera deixar para o mercado imobiliário pernambucano?

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer a todos os associados pela confiança e pela oportunidade de assumir essa missão. Recebo essa responsabilidade com muito senso de propósito e com a convicção de que o diálogo, a busca por convergências e o enfrentamento maduro das divergências são os caminhos para aprofundarmos os grandes temas do setor.

O legado que espero deixar é o de uma Ademi-PE ainda mais relevante na construção das cidades, conectada às necessidades do Estado e, sobretudo, da população pernambucana. No fim das contas, são as pessoas que dão sentido ao nosso trabalho, e é por elas que precisamos construir um ambiente de negócios saudável, capaz de gerar desenvolvimento, moradia de qualidade e cidades melhores para viver.

Acredito profundamente no potencial de Pernambuco e nas inúmeras oportunidades que ainda temos pela frente. E, pela sua capacidade de mobilização, investimento e transformação urbana, o mercado imobiliário tem um papel decisivo nesse processo, com a escala e a velocidade que o desenvolvimento das nossas cidades exige.

Espero deixar como legado uma gestão de pontes, de escuta e de construção coletiva, somando forças com o poder público, a iniciativa privada e toda a sociedade para impulsionar, cada vez mais, o desenvolvimento das cidades pernambucanas.

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