Além da tendência mundial de um estilo de vida mais saudável, que também demanda consumo de pescados, fatores como a maior incidência de chuvas em 2021 e a chegada das águas da transposição do rio São Francisco podem trazer um novo panorama para o setor de pescados no Ceará.

Consumo de pescados: o que o setor espera de 2021

Por: Anchieta Jr. | Em:
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O Ceará não é só um tradicional exportador de pescados. O mercado interno também é forte e a demanda pelo produto costuma crescer, principalmente, na Semana Santa. Segundo observa o engenheiro de pesca e gerente de Inspeção e Fiscalização da Pesca e Aquicultura da Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Ceará (Adagri-CE), Antônio Albuquerque, no período da Quaresma, comumente observa-se um aumento significativo no consumo de pescados. Porém, em 2021, com a continuação da pandemia do coronavírus, as projeções de vendas seguem reduzidas.


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“Culturalmente, durante a Quaresma, evita-se o consumo da carne vermelha, optando-se pelo consumo de peixes e camarões. Esse fato ocasiona um incremento nas vendas desses alimentos, que podem variar entre 10% e 50%, a depender da apresentação dos produtos e dos pontos de vendas. Para a quaresma desse ano, os produtores e comerciantes possuem expectativas de um incremento menor, em torno de 10% a 30%, devido à crise sanitária e econômica”, afirma.

Projeção que somada a uma queda de quase 24% nas vendas externas de pescados em 2020 na comparação com o ano anterior, conforme dados do estudo “Exportações do Ceará com Foco no Agronegócio”, elaborado pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Trabalho do Ceará (Sedet), assim como a redução média de 25% no consumo interno, em igual período, segundo estimativa do Sindicato das Indústrias de Frio e Pesca do Estado (Sindifrio), faz com que produtores e indústrias do setor realizem um balanço do mercado e revelem suas expectativas para 2021.

De acordo com o presidente da Câmara Setorial do Mar e Águas Continentais do Ceará, Roberto Gradvohl, embora 2020, mesmo com a pandemia, possa ser considerado um ano satisfatório para o consumo de pescados, quando se compara o seu desempenho com outros setores econômicos, a produção foi inferior a 2019. No entanto, sem apresentar números, ele ainda assim assegura que o Ceará permanece no podium entre os principais produtores de pescados do Brasil.

“Em termos de receita, o Ceará está sempre entre os três maiores produtores nacionais, alternando posições com estados como o Pará e Santa Catarina”

Roberto Gradvohl, presidente da Câmara Setorial do Mar e Águas Continentais do Ceará

Já no que diz respeito às exportações, ele aponta que enquanto em 2019 o Ceará foi o maior exportador de pescados do Brasil, em 2020, com a redução registrada nas vendas externas, perdeu a liderança para o Pará.

Principais produtos

Entre os produtos em destaque, além dos pescados tradicionais, a exemplo da lagosta, dos peixes vermelhos, da cavala, biquara e do peixe espada, Gradvohl ressalta que mais recentemente o Ceará também vem chamando a atenção na pesca do atum, com esta mais voltada para o mercado local e nacional.

No que diz respeito à produção em cativeiro, ele afirma que o destaque fica com o camarão, sendo vendido principalmente para o consumidor cearense e de outros estados brasileiros. “Outro forte produto da psicultura do Ceará é a tilápia. O cearense é um grande consumidor desse pescado. Tanto que ainda não conseguimos atender toda a demanda local, sendo preciso comprar de outros estados”, acrescenta.

Consumo de pescados: o que mudou

Oziná Costa, presidente do Sindifrio, sindicato que representa as empresas de pesca (exportadoras e produtoras), aponta que o consumo de pescados no Ceará caiu em média 25% na comparação com o ano anterior, considerando apenas o mercado formal em 2020. “No ano passado, principalmente no primeiro semestre, devido às restrições impostas pela pandemia, passamos um longo período com os restaurantes, bares, hotéis, parques aquáticos e barracas de praia sem funcionar. Estes são os maiores consumidores de pescados”, justifica.

Na sua avaliação, a redução no consumo de pescados só não foi maior, devido a um incremento das vendas para o setor de supermercados e até mesmo diretamente para o consumidor final. “Muitas empresas, antes focadas no atacado, passaram a criar uma estrutura de entrega para atender ao consumidor em casa”, conta.

Para Antônio Albuquerque, da Adagri-CE, com a pandemia, nos períodos de fechamento de diferentes canais de comercialização de alimentos, em especial os bares e restaurantes, os produtores buscaram acessar o mercado por outras vias, ocorrendo um aumento das vendas aos supermercados, e ao consumidor final, por meio de aplicativos de entrega. “As pessoas estão cozinhando mais em casa ou pedindo suas refeições prontas para o consumo em suas residências”, fala.

O fator preço também foi um impulsionador do consumo de pescados, fazendo com que a queda registrada não fosse ainda maior. “Se por um lado o consumo caiu por conta do fechamento de alguns canais de comercialização, por outro tivemos o aumento contínuo no valor da carne vermelha, o que não ocorreu no pescado, ajudando no consumo”, afirma.

De acordo com Albuquerque, em 2020, no confronto com 2019, a produção nacional de pescado pela aquicultura cresceu, segundo dados Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR) e da Associação Brasileira de Criadores de Camarão (ABCC), o que refletiu em maior oferta e consumo.

Expectativas para 2021

Conforme Oziná Costa, do Sindifrio, embora ainda seja cedo para fazer uma projeção de vendas de pescados para o ano como um todo, afinal o primeiro trimestre ainda não foi contabilizado e os primeiros meses de 2021 têm sido atípicos, o setor mantém o sentimento de queda com relação ao consumo se comparado tanto a 2020 como aos anos anteriores.

Além das crises sanitária e econômica, acarretadas pela pandemia do coronavírus, que impactam nas vendas, ao mesmo tempo, o volume da pesca deverá sofrer com a diminuição da frota de barcos no mar. “Com as restrições impostas pela pandemia, as embarcações estão indo para o mar menos tripuladas, o que, por sua vez, diminui a quantidade de pescados que trazem. Muitos portos, ao longo da nossa costa, estão impondo esse tipo de restrição às embarcações”, afirma.

Na outra ponta, ou seja, na produção em cativeiro, Roberto Gradvohl, da Câmara Setorial do Mar e Águas Continentais do Ceará, avalia que fatores como a maior incidência de chuvas em 2021, o que pode ser um prenúncio de invernos melhores pelos próximos dois ou três anos, assim como a chegada das águas da transposição do rio São Francisco, deverão trazer um novo panorama para o setor de pescados no Ceará. “Nesse sentido, com a possibilidade de uma produção maior e maior oferta, o consumo de pescados como um todo tende a crescer, assim como as exportações”, prevê.

Ao mesmo tempo, Gradvohl destaca que essa expectativa também é reforçada pela tendência mundial de um estilo de vida mais saudável, que traz novos hábitos alimentares, onde os pescados são muito demandados. “Há o benefício para a saúde, pelo pescado ser uma proteína leve. Além disso, temos espaço para aumentar a demanda de pescados no Brasil, onde o consumo ainda é bem inferior em relação a outros países”, fala.

Importância dos pescados para a economia do Ceará

Segundo Antônio Albuquerque, gerente de Inspeção e Fiscalização da Pesca e Aquicultura da Adagri-CE, o mercado de pescados no Ceará gera um impacto considerável na economia local, seja pela exportação de lagosta, pela venda de camarão para grandes centros de consumo no Brasil ou pela comercialização interna de diversas espécies de pescados, em especial do camarão de cultivo, tilápia e de diferentes espécies de peixes marinhos.

Ao mesmo tempo, a pesca de atum vem se mostrando mais uma realidade de negócio, com investimentos privados na captura e no beneficiamento, e investimentos públicos na profissionalização da cadeia produtiva e atração de negócios.

“Antes de chegar ao mercado propriamente dito, as cadeias da aquicultura e da pesca possuem milhares de pessoas envolvidas, gerando emprego direto e indireto, divisas e desenvolvimento local, seja na produção ou no beneficiamento, seja de forma artesanal ou industrial, seja no interior ou no litoral”

Antônio Albuquerque, gerente de Inspeção e Fiscalização da Pesca e Aquicultura da Adagri-CE

De acordo com estimativa de Oziná Costa, presidente do Sindifrio, só as 14 empresas filiadas ao Sindicato geram em torno de 2.800 empregos diretos. “Não temos como mensurar o setor como um todo, nem aqueles postos de trabalho que são gerados indiretamente com a cadeia produtiva do pescado. Mas há quem aponte que para cada emprego direto gerado pela indústria de pescados outros 15 são criados indiretamente. Afinal, são muitos insumos utilizados em toda a cadeia”, afirma.

Ao mesmo tempo, o Estado ocupa, segundo o Observatório da Indústria da Federação das Indústrias do Ceará (Fiec), a segunda posição entre os maiores exportadores de pescados do Brasil, com US$ 7,13 milhões comercializados no acumulado dos meses de janeiro e fevereiro de 2021, ficando atrás por uma diferença muito pequena do Pará, cujas vendas externas totalizaram, em igual período, aproximadamente US$ 7,5 milhões.

Na região Nordeste, o Ceará lidera as vendas internacionais de pescados, com o setor ocupando a sétima posição na pauta de exportações do agronegócio cearense e a 12ª na do Estado.

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