O comportamento do consumidor pode mudar de forma significativa em períodos de eleições acirradas. Um estudo do Ibevar-FIA, que reúne mais de duas décadas de dados do varejo brasileiro, indica que a incerteza sobre o resultado da disputa pode levar consumidores a adiar compras de maior valor.
A análise considera dados de vendas do varejo divulgados pelo IBGE e indicadores da atividade econômica do Banco Central. A partir desse cruzamento, o estudo identifica diferenças entre eleições com menor incerteza e disputas mais apertadas.
Em 2026, o cenário volta a chamar atenção. Afinal, a proximidade das eleições e a indefinição sobre o resultado podem influenciar decisões de consumo ao longo do ano.
Eleições costumam favorecer o comércio
Historicamente, os anos eleitorais apresentam desempenho superior ao padrão observado em outros períodos. Entre 2002 e 2022, o varejo ampliado registrou crescimento acima da média dos demais anos no trimestre entre agosto e outubro.
Esse comportamento apareceu em diferentes segmentos. No caso dos veículos, por exemplo, a diferença chegou a 5,5 pontos percentuais.
Além disso, o estudo identificou esse padrão em diferentes governos. Portanto, segundo a análise, o efeito não estaria relacionado a um campo político específico.
O cenário muda, entretanto, quando a disputa presidencial termina de forma mais apertada.
Disputa acirrada muda comportamento do consumidor
Em períodos considerados normais, o varejo ampliado apresentou desempenho 2,2 pontos percentuais acima do IBC-Br entre agosto e outubro.
Nas eleições classificadas pelo estudo como tranquilas, a diferença chegou a 3,9 pontos percentuais, como ocorreu em 2010.
Por outro lado, o comportamento se inverteu nas duas eleições presidenciais em que o segundo turno terminou com diferença inferior a cinco pontos percentuais.
Em 2014, o varejo ficou 2,3 pontos abaixo do desempenho da economia. Já em 2022, a diferença chegou a 4,8 pontos percentuais negativos.
Assim, o estudo relaciona os dois episódios ao aumento da incerteza sobre os rumos econômicos após a eleição.
Compras de maior valor entram na espera
O efeito não significa que o consumidor deixe de comprar produtos essenciais. Supermercados e farmácias, por exemplo, continuam recebendo demanda durante períodos eleitorais.
Entretanto, decisões que envolvem valores mais elevados podem esperar por um momento de maior previsibilidade. Entre os exemplos estão a troca de automóveis e eletrodomésticos, além de reformas residenciais.
Dessa maneira, a incerteza pode afetar principalmente o chamado consumo discricionário, no qual o consumidor tem maior liberdade para escolher o momento da compra.
Em 2022, esse comportamento ganhou força durante uma disputa presidencial apertada. Agora, o estudo aponta que o mesmo mecanismo merece atenção diante do calendário eleitoral de 2026.
Incerteza é o principal fator apontado
A análise do Ibevar-FIA concentra a explicação na dificuldade de antecipar os rumos da política econômica após uma eleição disputada.
Nesse contexto, consumidores e empresas podem adiar decisões até obter maior clareza sobre o cenário futuro. Consequentemente, o varejo pode sentir os efeitos dessa postura no período imediatamente anterior à votação.
O estudo, portanto, diferencia dois efeitos. De um lado, o calendário eleitoral costuma coincidir com fatores capazes de estimular a economia e o consumo. De outro, quando a disputa aumenta a incerteza, o consumidor pode adotar uma postura mais cautelosa.
Para 2026, esse comportamento coloca o varejo diante de um cenário que dependerá não apenas da atividade econômica, mas também do grau de previsibilidade ao longo do processo eleitoral.
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