Os BDRs (Brazilian Depositary Receipts) permitem que investidores brasileiros tenham acesso a ações de empresas negociadas no exterior sem precisar abrir uma conta em uma corretora internacional. Apesar disso, empresas brasileiras listadas fora do país concentram boa parte das negociações desse mercado na B3.
Em agosto, o BDR do Nubank (ROXO34) liderou o número de negócios, com 629.475 operações. Logo depois, apareceu o BDR do Inter (INBR32), com 583.851 negócios.
A Nvidia (NVDC34), uma das principais empresas relacionadas ao avanço da inteligência artificial, ficou em quinto lugar, com 223.930 operações. O volume representa menos da metade do registrado pelo Nubank.
Os dados fazem parte de levantamento exclusivo da Quantum.
Empresas brasileiras dominam negociações
Ao todo, BDRs de nove empresas de origem ou controle brasileiro movimentaram 2,11 milhões de negócios em agosto. O volume representa aproximadamente 43% dos 4,9 milhões de negócios registrados com BDRs no mês.
O grupo inclui Nubank, Inter, Aura Minerals, XP, JBS, StoneCo, PagSeguro, VTEX e Afya.
Por outro lado, as chamadas Sete Magníficas — Alphabet, Amazon, Apple, Meta, Microsoft, Nvidia e Tesla — somaram 823 mil negócios. Assim, as gigantes de tecnologia responderam por 16,8% do total.
Além disso, apenas Nubank e Inter, juntos, registraram quase 50% mais negócios do que as sete empresas de tecnologia somadas.
Entre os dez BDRs mais negociados em agosto, cinco pertencem a empresas brasileiras. Além de Nubank e Inter, aparecem Aura Minerals, com 353.422 negócios; XP, com 240.994; e JBS, com 201.836.
A lista também inclui Nvidia, Mercado Livre, Microsoft, Tesla e Amazon.
Familiaridade pesa nas escolhas
O volume de negociações não acompanha necessariamente o desempenho dos ativos. Em 2026, até agosto, o BDR do Nubank acumulava queda de 19,4%. No mesmo período, o Inter recuava 38,6%, enquanto a StoneCo registrava baixa de 32,4%.
Enquanto isso, alguns dos maiores ganhos do mercado vieram de empresas que aparecem pouco entre os BDRs mais negociados.
A Moderna (M1RN34) acumulava alta de 327,8% no ano. Na sequência, apareciam Dell, com avanço de 241,1%; Micron, com 208,7%; e Seagate, com 170,6%.
Apesar desses resultados, nenhuma delas figurava entre os BDRs mais negociados de agosto. A exceção era a Micron, que ocupava a 19ª posição.
Segundo Fernando Siqueira, analista da Eleven, a familiaridade ajuda a explicar esse comportamento. Para ele, investidores tendem a escolher empresas que conhecem ou com as quais mantêm algum contato no cotidiano.
Além disso, essa proximidade pode favorecer companhias como Nubank e XP, mesmo quando elas competem em volume de negociação com gigantes globais como Nvidia e Microsoft.
O que é o viés doméstico
Esse comportamento recebe o nome de viés doméstico, ou home bias. O conceito descreve a tendência dos investidores de concentrar recursos em empresas do próprio país ou de regiões que conhecem melhor.
No entanto, o fenômeno não ocorre apenas no Brasil. Estudos citados por Siqueira indicam que investidores americanos também demonstram preferência por empresas localizadas em suas próprias cidades.
Assim, moradores de Chicago tendem a negociar proporcionalmente mais ações de companhias sediadas na cidade. O mesmo padrão aparece entre investidores de Nova York.
Ainda assim, algumas empresas conseguem romper essa barreira. Grandes companhias globais e ações com forte valorização costumam atrair investidores de diferentes mercados.
A Aura Minerals é um exemplo. Além de ter controle brasileiro, o BDR da companhia avançou 55,9% em agosto e acumulou alta de 61,1% no ano.
Big techs continuam entre as mais conhecidas
A familiaridade também ajuda a explicar a presença de algumas gigantes americanas entre os BDRs mais negociados.
A Microsoft, por exemplo, faz parte do cotidiano de milhões de pessoas por meio do pacote Office. Da mesma forma, consumidores associam a Tesla ao mercado de automóveis e a Amazon ao comércio eletrônico.
O cenário também favorece empresas como Meta, dona de Instagram, Facebook e WhatsApp, e Alphabet, controladora do Google.
Por outro lado, companhias ligadas a setores como data centers e biotecnologia têm menor presença no cotidiano dos brasileiros. Por isso, mesmo com fortes altas na bolsa, esses BDRs podem registrar menos negócios.
A Moderna ilustra esse movimento. Embora tenha acumulado a maior valorização entre os BDRs em 2026, a companhia não aparece entre os 40 ativos mais negociados de agosto.
Nvidia perde ritmo em agosto
Entre as Sete Magníficas, a Nvidia continua como a BDR mais negociada em 2026. Até agosto, o ativo acumulava 2,07 milhões de negócios, mais que o dobro do volume registrado pela Microsoft, com 983.697 operações.
Entretanto, o ritmo caiu em agosto. O BDR da Nvidia registrou 223.930 negócios no mês, volume 13,6% inferior à média mensal de 2026.
No conjunto das Sete Magníficas, porém, agosto apresentou resultado diferente. A negociação dos BDRs ficou 4,7% acima da média mensal do ano, impulsionada principalmente por Meta, Amazon e Tesla.
Segundo Siqueira, a alta da bolsa americana também mudou de perfil. O interesse dos investidores migrou parcialmente das grandes empresas voltadas ao consumidor para companhias de tecnologia que atuam nos bastidores da infraestrutura digital.
Nesse grupo, aparecem fabricantes de chips e semicondutores como TSMC, Nvidia e Micron, além de empresas sul-coreanas.
Em 2026, o BDR da Nvidia acumula alta de 12,2%. Já o ativo da Micron praticamente triplicou de valor no período.
Tesla chama atenção entre as Magníficas
A Tesla também apresentou um movimento relevante em agosto. O BDR da companhia avançou 21% no mês, maior alta entre as Sete Magníficas.
Apesar disso, o ativo ainda acumula queda de 23,1% em 2026.
Para Siqueira, a atenção renovada sobre Elon Musk, em meio às discussões envolvendo o IPO da SpaceX, pode ter contribuído para o interesse dos investidores. Ainda assim, o analista não apontou uma explicação específica para o aumento das negociações.
SpaceX entra no radar dos investidores
O BDR da SpaceX (SPCX34) também ganhou espaço na B3. O ativo estreou em 12 de junho, na mesma data do IPO da empresa na Nasdaq.
Em agosto, o BDR registrou 111.801 negócios. Com isso, ficou na 11ª posição entre os mais negociados, à frente de Meta, Alphabet e Apple.
Além disso, o ativo avançou 34,8% em agosto.
Segundo Siqueira, a forte negociação após uma estreia costuma ocorrer porque o mercado ainda busca encontrar um equilíbrio entre o valor atribuído à empresa e a quantidade de ações disponíveis.
Nesse caso, a forte oscilação também contribuiu para aumentar o número de operações. O BDR subiu rapidamente nos primeiros dias, depois recuou. Consequentemente, o movimento abriu espaço para mais operações especulativas.
Para Malek Zein, analista da Suno Research, o marketing em torno do IPO também ajudou a impulsionar o interesse. Na avaliação do especialista, porém, a demanda tende a perder força no longo prazo.
Assim, o desempenho dos BDRs na B3 mostra que o volume de negociação não depende apenas da valorização dos ativos. Familiaridade com as empresas, presença no cotidiano, tamanho global e movimentos recentes dos preços também influenciam as escolhas dos investidores.
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