A próxima Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP31, deve colocar a eletrificação global entre os principais eixos da agenda climática. A presidência da conferência trabalha com uma meta de alcançar 35% de eletrificação até 2035.
Para sustentar essa expansão, o mundo precisará elevar os investimentos em redes elétricas para cerca de US$ 1 trilhão por ano durante o período. Esse valor representa aproximadamente o dobro do montante registrado em 2025.
O cenário ganha relevância enquanto líderes mundiais participam das reuniões da ONU em Nova York e da Semana do Clima. Nesse contexto, um relatório da Agência Internacional de Energia Renovável (Irena) projeta uma forte expansão da capacidade renovável para acompanhar o aumento do consumo de eletricidade.
Segundo a agência, a eletrificação como estratégia para reduzir o uso de combustíveis fósseis exigirá cerca de 18,4 TW de capacidade renovável até 2035. Em 2050, a necessidade chegaria a 38,2 TW.
Além disso, a infraestrutura elétrica precisará acompanhar esse crescimento. Por isso, a Irena estima US$ 29 trilhões em investimentos acumulados em transmissão e distribuição até 2050.
Redes elétricas entram no centro da discussão
A expansão da eletrificação não depende apenas da geração de energia. Na prática, o avanço também exige redes capazes de transportar e distribuir volumes maiores de eletricidade.
Por esse motivo, a transição energética envolve diferentes frentes. Entre elas estão a geração renovável, a eficiência energética, o armazenamento e a modernização dos sistemas de transmissão e distribuição.
Ao mesmo tempo, outras alternativas devem complementar a eletrificação. Biocombustíveis, hidrogênio de baixo carbono e seus derivados podem atender setores nos quais baterias apresentam limitações técnicas ou econômicas.
Além disso, o crescimento dos data centers deve aumentar a pressão sobre os sistemas elétricos. A expansão da inteligência artificial e de outros serviços digitais amplia a demanda por infraestrutura energética justamente quando as redes precisam acompanhar a eletrificação de diferentes setores.
Armazenamento precisa acompanhar expansão
A capacidade de armazenamento também terá de crescer em ritmo acelerado. Atualmente, o mundo conta com cerca de 416 GW instalados.
Segundo as projeções da Irena, esse volume precisará alcançar 2.530 GW em 2035. Até 2050, a capacidade deverá chegar a 6.859 GW.
Dessa maneira, o armazenamento terá papel importante para equilibrar sistemas com maior participação de fontes renováveis. Afinal, fontes como solar e eólica apresentam produção variável ao longo do dia.
Além disso, a expansão das redes precisará ocorrer junto com uma maior capacidade de adaptação do consumo. A chamada flexibilidade da demanda diária deverá passar de 7% em 2019 para mais de 13% em 2035.
Até 2050, a expectativa é alcançar 30%. Portanto, consumidores e sistemas elétricos terão de responder com maior rapidez às oscilações entre oferta e demanda.
Investimentos ainda estão concentrados
Apesar das metas de expansão, existe outro obstáculo relevante: a distribuição dos investimentos pelo mundo.
Atualmente, uma parcela significativa dos recursos está concentrada em economias desenvolvidas. Como resultado, países emergentes e em desenvolvimento enfrentam dificuldades para ampliar infraestrutura energética no mesmo ritmo.
Nesse sentido, outro estudo recente da Irena chama atenção para projetos de infraestrutura que ainda aguardam investimentos. As redes de transmissão aparecem entre os setores que precisam receber mais recursos.
O problema ganha dimensão maior diante do crescimento do consumo de eletricidade. Segundo a agência, a demanda avança em ritmo superior ao previsto, enquanto a infraestrutura de rede não acompanha a expansão das energias renováveis.
Meta de energia renovável exige aceleração
A eletrificação também está relacionada à meta estabelecida na COP28 de triplicar a capacidade global de energia renovável até 2030.
Para atingir esse objetivo, o mundo precisa elevar a capacidade instalada dos atuais 5,15 TW para 11,2 TW. Isso significa mais que dobrar a capacidade existente em poucos anos.
Além disso, a expansão anual terá de acelerar. Entre 2026 e 2030, a média necessária chega a 1.200 GW por ano.
O desafio fica mais claro quando comparado ao desempenho recente. Em 2025, o mundo adicionou um recorde de 693 GW de capacidade renovável.
Assim, a expansão registrada no ano passado ainda fica abaixo do ritmo médio necessário para alcançar a meta de 2030.
Eletrificação já avança no mercado automotivo
Enquanto governos discutem investimentos em infraestrutura, a eletrificação já altera alguns mercados consumidores.
Os preços mais altos dos combustíveis fósseis, associados à instabilidade geopolítica, também contribuem para essa mudança. Nesse cenário, consumidores de diferentes países passaram a considerar com maior interesse veículos eletrificados.
Os mercados emergentes da Ásia oferecem exemplos dessa transformação. No ano passado, o Vietnã alcançou participação de 38% de veículos eletrificados nas vendas de automóveis.
Com isso, o país superou a União Europeia, que registrou 26% no mesmo indicador, segundo levantamento do think tank Ember.
A diferença também aparece em outros mercados asiáticos. A Tailândia atingiu 21% e a Indonésia, 15%. Os dois países ficaram acima dos Estados Unidos, que registraram participação de 10%.
No Brasil, os veículos eletrificados representaram 9% das vendas. A participação também superou a registrada no Japão, de 3%, e ficou acima da Índia, que alcançou 4%.
China amplia impacto da eletrificação
A China ocupa uma posição relevante nesse processo. Em 2025, pela primeira vez, os veículos elétricos ultrapassaram 50% de participação nas vendas de automóveis no país.
Além de alterar o mercado automotivo, a eletrificação também produz efeitos sobre a demanda por combustíveis. Segundo a estimativa apresentada no levantamento, a China economiza mais de US$ 28 bilhões por ano em importações de derivados de petróleo.
O cálculo considera um preço de US$ 80 por barril. Dessa forma, a expansão dos veículos elétricos também reduz a exposição do país às compras externas de combustíveis.
Eletrificação exige infraestrutura e capital
Os dados indicam, portanto, que ampliar a eletrificação mundial exige mais do que substituir veículos a combustão por modelos elétricos.
É necessário expandir a geração renovável, modernizar redes, aumentar a capacidade de armazenamento e criar mecanismos de flexibilidade para o consumo.
Ao mesmo tempo, o fluxo de capital precisa alcançar economias emergentes. Sem essa redistribuição, países com maior necessidade de infraestrutura podem enfrentar dificuldades para acompanhar o ritmo da transição.
Nesse cenário, a COP31 chega com uma agenda que combina eletrificação, expansão das renováveis e investimentos em infraestrutura. A meta de 35% até 2035, por sua vez, coloca pressão sobre governos, empresas e investidores para acelerar projetos que sustentem o crescimento da demanda elétrica.
Por fim, o desafio não envolve apenas gerar mais energia. É preciso construir os sistemas capazes de transportar, armazenar e distribuir essa eletricidade em escala global.
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