Data centers perdem força no mercado de IPOs dos EUA

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Ceticismo sobre data centers leva empresas a adiar ou desacelerar IPOs nos EUA, enquanto demanda por infraestrutura de IA continua elevada. (Foto: Envato Elements)

A expansão dos data centers começa a enfrentar maior resistência no mercado financeiro dos Estados Unidos. Depois de mobilizar investidores interessados no avanço da inteligência artificial, o setor passou a lidar com dúvidas sobre custos, demanda e retorno dos projetos.

Esse movimento já afeta planos de abertura de capital. Empresas relacionadas à construção e ao fornecimento de energia para essas estruturas revisam cronogramas e avaliações diante de um ambiente menos favorável.

Um dos casos mais recentes envolve a SB Energy, subsidiária do conglomerado japonês SoftBank. A companhia pretendia realizar um IPO neste mês para financiar sua expansão, incluindo um projeto em Ohio.

A empresa buscava uma avaliação superior a US$ 50 bilhões. No entanto, investidores questionaram esse valor e os bancos responsáveis pela operação encontraram dificuldades para reunir compradores dentro da faixa pretendida.

Setor enfrenta novos obstáculos

O caso da SB Energy ocorre após a suspensão de outra oferta pública ligada à infraestrutura para inteligência artificial.

A Holtec Nuclear, empresa que atua no setor nuclear e desenvolve pequenos reatores, interrompeu por tempo indeterminado os preparativos para seu IPO. A companhia pretendia levantar até US$ 900 milhões, com avaliação de até US$ 10 bilhões.

A empresa relacionou a decisão à perda de confiança dos investidores nas novas ofertas. Além disso, apontou as incertezas sobre o desenvolvimento de data centers como um dos fatores que pesaram na decisão.

A companhia pretendia estrear na Nasdaq e fornecer soluções de geração de energia para instalações voltadas ao processamento de inteligência artificial.

Outra operação que perdeu velocidade envolve a geradora de energia Aggreko. Segundo pessoas próximas ao processo, a companhia reduziu o ritmo dos preparativos para uma possível abertura de capital.

Nesse caso, as dúvidas sobre data centers se somam a outros fatores. A alta dos juros e um cenário econômico mais complexo também dificultam as condições para uma nova oferta.

O IPO ainda pode ocorrer no próximo mês. Entretanto, a empresa passou a adotar uma postura mais cautelosa diante das condições do mercado.

Resistência chega além de Wall Street

A maior cautela financeira ocorre ao mesmo tempo em que os data centers enfrentam oposição em diferentes regiões dos Estados Unidos.

Comunidades, principalmente em áreas rurais, questionam novos empreendimentos devido ao elevado consumo de energia e à extensão das áreas necessárias para sua instalação.

Além disso, o tema ganhou espaço no debate político americano. Com a aproximação das eleições legislativas de meio de mandato, projetos de infraestrutura para inteligência artificial passaram a enfrentar resistência de grupos de diferentes correntes políticas.

Nesse contexto, os data centers passaram a concentrar preocupações relacionadas ao consumo de energia, ao uso do território e aos efeitos da expansão da inteligência artificial.

Alguns estados também começaram a discutir ou implementar medidas que restringem novos empreendimentos. Dessa forma, as empresas enfrentam obstáculos regulatórios adicionais justamente quando precisam ampliar o acesso a capital para financiar projetos.

Investidores ainda enxergam demanda elevada

Apesar da cautela, a necessidade de capacidade computacional permanece elevada. Grandes empresas de tecnologia continuam ampliando investimentos em infraestrutura para sustentar o desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial.

Segundo estimativas da PIMCO, mais de US$ 5 trilhões poderão ser necessários até 2030 para construir a infraestrutura associada à expansão da inteligência artificial.

Assim, parte do mercado considera os recentes adiamentos como uma correção nas expectativas, e não necessariamente como uma mudança estrutural na demanda.

A possível abertura de capital da Anthropic também permanece no radar dos investidores. A empresa de inteligência artificial depende de grande capacidade computacional e tem planos de realizar uma oferta pública ainda neste semestre.

Ações do setor registram queda

Atualmente, apenas duas empresas listadas em Bolsa concentram suas atividades exclusivamente em data centers: Equinix e Digital Realty Trust.

As duas companhias acumulam queda entre 1% e 2% no mês. O desempenho ocorre em um momento de maior preocupação com os custos necessários para ampliar a infraestrutura destinada à inteligência artificial.

Segundo banqueiros, advogados e investidores ouvidos sobre o mercado, empresas relacionadas aos data centers poderiam representar aproximadamente um terço dos IPOs previstos para o restante de 2026.

Por outro lado, as principais empresas de tecnologia continuam comprometidas com investimentos de grande escala.

Meta, Alphabet, Amazon, Microsoft e Oracle já anunciaram compromissos superiores a US$ 1 trilhão em projetos próprios de infraestrutura.

Capital será decisivo para expansão

A necessidade de recursos tende a aumentar conforme as empresas ampliam a capacidade de processamento. Por isso, desenvolvedores de data centers podem precisar recorrer a diferentes fontes de financiamento, incluindo o mercado acionário.

O desafio está no equilíbrio entre o tamanho dos investimentos, as expectativas de crescimento da inteligência artificial e a disposição dos investidores para financiar esses projetos.

Nesse cenário, a cautela recente não elimina a demanda por infraestrutura. Ao mesmo tempo, ela aumenta a pressão para que as empresas apresentem projeções mais consistentes de receita, custos e retorno sobre os investimentos.

Para Tomasz Tunguz, sócio da Theory Ventures e investidor do setor, a escala dos projetos exige acesso a diferentes fontes de capital. Segundo ele, o volume de infraestrutura planejado torna necessário combinar alternativas de financiamento.

Dessa forma, os próximos meses devem mostrar se os adiamentos representam apenas uma mudança temporária no mercado de IPOs ou se indicam uma revisão mais ampla das expectativas em torno da infraestrutura necessária para a inteligência artificial.

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