A inteligência artificial ganhou espaço no centro das discussões do Vaticano após o papa Leão XIV escolher o tema como foco de seu primeiro grande documento oficial desde o início do pontificado. O lançamento do texto chamou atenção pela presença de Chris Olah, cofundador da Anthropic, considerada uma das principais empresas globais do setor.
Ao mesmo tempo, a aproximação entre a Igreja Católica e uma das líderes da corrida pela inteligência artificial levantou questionamentos sobre o alinhamento entre os interesses das duas instituições.
Inteligência artificial preocupa Vaticano
No documento, o papa alerta para riscos associados à inteligência artificial, incluindo substituição de trabalhadores, uso militar da tecnologia e impactos ambientais.
A preocupação com o mercado de trabalho aparece entre os principais pontos do texto. Segundo especialistas citados pelo jornal britânico The Guardian, empresas de IA continuam desenvolvendo sistemas capazes de automatizar funções atualmente desempenhadas por pessoas.
Nesse contexto, a discussão envolve diretamente a defesa da dignidade do trabalho humano, tema frequentemente abordado pela Igreja Católica.
Ameaça a empregos
A própria Anthropic já reconheceu que algumas atividades estão mais expostas aos efeitos da automação. Entre elas estão funções ligadas à programação, suporte técnico e entrada de dados.
Por sua vez, Dario Amodei, CEO da Anthropic, já alertou para possíveis impactos significativos sobre empregos de escritório nos próximos anos.
Apesar disso, especialistas destacam que a percepção predominante ainda aponta para transformação de funções e competências, e não necessariamente para substituição total dos trabalhadores.
Críticas
A aproximação entre o Vaticano e a Anthropic também recebeu críticas de parte da comunidade acadêmica e tecnológica.
Alguns especialistas classificaram a iniciativa como uma forma de “Vatican-washing”, expressão inspirada no conceito de “greenwashing”. Segundo essa visão, a parceria poderia fortalecer a imagem pública da empresa sem enfrentar plenamente os desafios associados ao avanço da inteligência artificial.
Por outro lado, há áreas em que as posições da Igreja Católica e da Anthropic demonstram convergência.
Debate militar
O papa Leão XIV defendeu restrições rigorosas ao uso de inteligência artificial em sistemas militares autônomos. Segundo o pontífice, a tecnologia pode reduzir a responsabilidade humana em decisões ligadas a conflitos armados.
Da mesma forma, a Anthropic adota uma postura cautelosa sobre o tema e já manifestou oposição ao uso de seus modelos em armas totalmente autônomas.
Assim, o debate sobre limites éticos para aplicações militares surge como um dos pontos de maior proximidade entre as duas instituições.
Inteligência artificial amplia desafios ambientais
Outro tema destacado pelo Vaticano envolve o impacto ambiental da expansão da inteligência artificial. O papa afirmou que os modelos atuais exigem grandes quantidades de energia e água, além de contribuírem para o aumento das emissões de carbono.
Nesse sentido, o alerta dialoga diretamente com a expansão global dos data centers, infraestrutura essencial para treinamento e operação de modelos avançados de IA.
A Anthropic anunciou planos para investir cerca de US$ 50 bilhões em infraestrutura de inteligência artificial, incluindo novos centros de dados. Contudo, especialistas apontam que o aumento da capacidade computacional necessária para desenvolver modelos mais avançados pode entrar em conflito com os apelos por crescimento sustentável defendidos pelo Vaticano.