Estudo do Etene aponta que o fortalecimento de cadeias produtivas locais é decisivo para que a mineração gere efeitos duradouros. (Envato Elements)
A mineração volta a ocupar espaço central na economia do Nordeste, impulsionada pela corrida global por minerais estratégicos usados em baterias, painéis solares e turbinas eólicas. A partir desse movimento, o Ceará emerge como ponto de interesse para novos investimentos e pesquisas, com resultados que começam a transformar o interior do estado. Além disso, esse fortalecimento da mineração na região conecta-se à ampliação de infraestrutura e à presença de instituições financeiras de fomento, como o Banco do Nordeste (BNB).
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Nesse cenário, a mineração de minerais críticos e estratégicos tem se consolidado como um dos setores de maior potencial na região. De acordo com o estudo “Minerais Críticos e Estratégicos no Nordeste”, elaborado pelo Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (Etene/BNB), a produção mineral da região movimentou R$ 11 bilhões em 2024, enquanto os investimentos em pesquisa somaram R$ 1,8 bilhão entre 2019 e 2023, abrangendo toda a área de atuação do BNB, que inclui o Nordeste e o Norte de Minas Gerais e do Espírito Santo.
Ao ampliar a presença nesse mapa, o Ceará está se tornando um dos focos de interesse da mineração nacional. Entre 2019 e 2023, o estado recebeu investimentos em pesquisa voltados a substâncias estratégicas como lítio, níquel, vanádio, estanho e cobre. Apenas neste último, o Ceará concentrou 28,1% dos R$ 254,5 milhões aplicados na região, consolidando-se como um dos principais polos de prospecção de cobre do Nordeste.
Além das pesquisas, o Ceará mantém produção ativa de ferro, com Valor da Produção Mineral (VPM) de R$ 380,09 milhões no último ano, e apresenta potencial para exploração de terras raras, segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB). A combinação entre diversidade mineral, infraestrutura logística e incentivos financeiros cria um ambiente propício para a chegada de novos empreendimentos e para a formação de cadeias produtivas locais.
Para Tomás Figueiredo, presidente das Indústrias Nucleares do Brasil (INB) e especialista na área de mineração, a evolução do setor no Ceará reflete uma nova dinâmica de mercado. “O aumento do interesse por minérios presentes na geologia cearense, como paládio, platina, ouro, lítio, grafite, manganês e terras raras, tem atraído empresas com foco em prospecção”, aponta o ex-deputado. Com isso, a valorização internacional desses metais ampliou a competitividade e o apetite por investimentos na região.

Com 16 concessões de lavra e mais de 2 mil autorizações de pesquisa, o estado avança de forma consistente dentro do mapa mineral nordestino. Esse movimento tem repercussão direta nas economias do interior, especialmente em municípios que se tornaram polos de atividade industrial e geração de emprego. Um desses exemplos é Jaguaribe, onde a Feiticeiro Concreto tem atuado para transformar o município em referência para o setor de mineração no estado.
A Feiticeiro Concreto, localizada no distrito de Feiticeiro, tornou-se um exemplo de como o setor mineral pode gerar desenvolvimento local. José Alves Filho, diretor da companhia, explica como a empresa enfrentou desafios ligados à necessidade de capital intensivo. “Desde o início, contamos com apoio do Banco do Nordeste e do BNDES. Hoje, de 30% a 40% da empresa são investimentos do BNB”, disse José Filho, em entrevista exclusiva à TRENDS.
Segundo o executivo, após esses financiamentos, a Feiticeiro Concreto recebeu aportes de mais de R$ 10 milhões de investidores chineses e planeja abrir quatro novas plantas industriais no Ceará. “Nossa meta é crescer e consolidar o Ceará como referência em mineração e materiais de base”, destacou Alves Filho.

“Esses investimentos internacionais mostram que o Ceará tem potencial. A China confiou na gente e trouxe capital e tecnologia para ampliar nossa capacidade de produção.”
José Alves Filho, diretor da Feiticeiro Concreto
O investimento estrangeiro tem ampliado a capacidade produtiva e a adoção de tecnologias na empresa. Segundo José Filho, o interesse chinês surgiu do potencial geológico da região. “A China busca fontes de minerais fora do país e encontrou na nossa área uma base propícia, com equipamentos e jazidas de pegmatito e feldspato. Desde então, mantemos uma parceria sólida há mais de dois anos”, contou.

O movimento acompanha a tendência regional. De acordo com o Etene, a área de atuação do Banco do Nordeste concentra mais de 25 mil títulos de autorização de pesquisa mineral, distribuídos entre 5.410 empresas. Parte desses projetos está localizada no Semiárido, área onde o Ceará tem se destacado pela diversidade mineral e pela presença de novos empreendimentos.
A presença da Feiticeiro Concreto transformou a economia local. O distrito de Feiticeiro, antes marcado por baixa atividade industrial, passou a registrar aumento na renda, geração de empregos e expansão do comércio. Segundo o Alves Filho, “todos os nossos funcionários são do município de Jaguaribe. O impacto é positivo e as pessoas se sentem orgulhosas de ter a empresa na comunidade”.
Francisco Venício de Lima Figueiredo (Foto), 29, motorista da companhia, relata que a chegada da mineradora proporcionou um impacto direto na economia local, com geração de emprego e renda. Além disso, ele ressalta a importância da iniciativa de contratar apenas jaguaribanos, pois “isso fortalece o vínculo da empresa com a comunidade. Além de crescer a economia”.

Figueiredo também conta como sua chegada à companhia, há pouco mais de um ano, mudou completamente sua rotina. “Antes de entrar na Feiticeiro Concreto, eu trabalhava meio período em uma farmácia, pois além de motorista, eu sou técnico de enfermagem. Mas após entrar Feiticeiro, minha renda melhorou bastante. Aqui foi onde eu comecei a me interessar pela área da mineração”, celebra.
Para o operador de máquinas Kélber Daniel Vieira (Foto), 24, o trabalho na empresa trouxe estabilidade. “Minha rotina era mais cansativa e não tinha horário comercial adequado, hoje em dia trabalho com mais tranquilidade, com horários adequados e consigo ter economias.”

Há mais de dois anos na mineradora, Vieira apontou o que mudou na região desde a chegada da companhia: “Aumentou rendabilidade, gerou oportunidade de empregos, ampliou o comércio do distrito e gerou reconhecimento regional”. Além disso, o jovem frisa a importância do modelo de contratação adotado pela Feiticeiro.
“A empresa cresce reconhecendo potências locais, o que faz com que o nosso distrito erga-se com o esforço dos moradores.”
Kélber Daniel Vieira, operador de máquinas da Feiticeiro Concreto
O aumento do número de funcionários, a expansão da renda e o fortalecimento econômico transformaram a história do distrito. “Feiticeiro hoje tem outra cara e está em uma situação que muitos municípios gostariam de estar”, lembra Alves Filho. Ele afirma ainda que a expectativa é ampliar esse impacto para outras localidades. “Acredito que, num curto prazo, estaremos em outros municípios, transformando, trazendo emprego e gerando renda. Essa é a nossa vontade e é o que vai acontecer.”
Apesar dos avanços recentes, a mineração no Ceará ainda enfrenta entraves que limitam a expansão da atividade. Alves Filho reforça que a etapa regulatória continua sendo o principal obstáculo para quem investe no setor. “O maior desafio sempre foi a questão das licenças ambientais”, afirmou.
Ele explica que grande parte das áreas com potencial mineral no estado permanece em fase de pesquisa. “O potencial hoje ainda é pequeno no Ceará. Muitas áreas estão em pesquisas profundas, feitas no afloramento. Existem materiais aflorados, como columbita, cassiterita, manganês e ferro, mas é preciso concluir essas pesquisas”, disse. Segundo o empresário, diversos estudos iniciados em 2021 e 2022 devem ser concluídos até 2026, abrindo espaço para a chegada de novas empresas. “A partir desse vencimento, várias companhias vão começar a explorar e exportar”, projetou.
A avaliação de Tomás Figueiredo converge com os desafios relatados pelo setor produtivo. Para ele, a lentidão no licenciamento prejudica principalmente os modelos de negócio baseados em capital de risco.
“O maior desafio é a agilidade na concessão de licença para a prospecção, pois como o objetivo é usar os recursos reunidos por meio de investimentos de fundos e bolsas de valores de capital de risco, quanto mais tempo demoram nessa etapa, mais recursos são gastos na administração das estruturas empresariais sem atingir a sua finalidade.”
Tomás Figueiredo, presidente das INB
Assim, o potencial cearense continua longe de seu limite. “Atualmente, o Ceará representa apenas 0,48% do PIB da mineração brasileira. Temos uma oportunidade de aproveitar esse momento para ampliar essa participação e nos identificar um potencial que se converta em efetiva produção mineral”, avaliou Figueiredo.
Mesmo diante desses entraves, a perspectiva para os próximos anos é de continuidade na expansão. A Feiticeiro Concreto planeja novas unidades e espera atrair indústrias de beneficiamento e fornecedores, ampliando o alcance da atividade em Jaguaribe. Além disso, o estudo do Etene reforça que o fortalecimento de cadeias produtivas locais é decisivo para que a mineração gere efeitos duradouros no desenvolvimento regional e ajude o Ceará a transformar seu potencial geológico em crescimento econômico real.
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