Brasil é candidato natural a ser referência em mineração sustentável

Por: Gladis Berlato | Em:
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mineração sustentável de bitcoin

A mineração de bitcoin, que tende a ser criticada nos países onde já se verifica o alto consumo energético associado, entretanto, já é um mercado consumidor. (Foto: Envato Elements)

O Brasil enfrenta curiosos desafios na área de energias renováveis. De um lado, destaca-se na produção limpa, notadamente, a partir da geração eólica e solar. De outro, já encontra dificuldades pela geração em volume superior ao consumo, resultando em desperdício por limitação de armazenamento na rede. O fato está levando os especialistas a buscarem soluções em grandes e diferenciados consumidores, ao mesmo tempo em que promovem alívio para a natureza, como pode ser o caso da mineração de bitcoins.


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A pergunta que não quer calar é: o que uma moeda digital tem a ver com energia? Ocorre que a produção de bitcoins é altamente intensiva no consumo de energia predominantemente gerada por hidrelétricas, portanto, com alto consumo de água. Nasce, então, uma saída com benefícios dobrados: uso de energia limpa excedente e uma nova fonte para a alimentação da revolução digital.

É o encontro de interesses das tecnologias de ponta com objetivos comuns. Essa engenharia é possível e já começa a ser realidade no Brasil com grande potencial de avanço. A opção de monetizar o excedente transforma prejuízo em receita adicional para o gerador.

Polo de mineração sustentável

A engenheira de energias e CEO da Energo Engenharia, Marília Brilhante (foto), é uma das especialistas que põe fé neste arranjo. E acredita que o Brasil pode ser um polo global de mineração sustentável por reunir condições únicas como matriz limpa já consolidada e excedentes renováveis em expansão, especialmente no Nordeste. E com ajustes regulatórios e mecanismos de rastreabilidade, o Brasil pode ser líder mundial neste nicho, atraindo capital estrangeiro e reforçando sua imagem de potência verde.

Marília Brilhante, CEO da Energo Engenharia. (Foto: Arquivo pessoal)

Diferente da indústria tradicional, que tem um consumo rígido e contínuo, a mineração pode ser desligada em minutos ou até segundos sem perdas relevantes para a operação, permitindo que funcione como um amortecedor do sistema elétrico.

Ela explica que o sistema é flexível: quando há excesso de geração renovável (eólica ou solar), a mineração absorve essa energia e quando o operador precisa reduzir carga ou aliviar a rede, basta desconectar os equipamentos. “É uma forma de balancear oferta e demanda em tempo real, aumentando a estabilidade do sistema”, acrescenta, lembrando que as experiências externas provam que a integração com a rede convencional é possível em países com abundância de renováveis ou excedentes, caso do Brasil.

No Texas (EUA), por exemplo, mineradoras são integradas ao programa de Resposta da Demanda. Em momentos de pico, recebem incentivos para reduzir consumo e liberar energia para residências e comércio. Outros casos são na Islândia e na Noruega, que mineram com excedente hidrelétrico e geotérmico, garantindo energia 100% renovável. Por aqui, o vizinho Paraguai usa a energia mais barata de Itaipu. O Butão também já trabalha com mineração.

A engenheira de energias vê um cenário bastante favorável para as geradoras de energia que podem instalar uma mineração diretamente na planta para consumir o adicional que seria descartado, o que resulta em aumento de rentabilidade do ativo e reduz riscos regulatórios.

Para isso, já contam no Brasil com mecanismos como o Programa de Resposta da Demanda (PRD), que podem ser adaptados para formalizar a parceria. Como opção, a CEO da Energo aponta os incentivos fiscais ou creditícios para mineradoras que comprovem uso exclusivo de renováveis.

Entusiasta com o tema, Marília Brilhante acredita que a mineração pode acelerar a transição se atuar apenas com excedentes renováveis. “Ela melhora a economia dos projetos, gera novas receitas e cria condições para a expansão da geração limpa, especialmente em regiões onde a rede ainda é gargalo”, assegura.

Potencial do Brasil

O Brasil tem uma das matrizes mais limpas do mundo. Em 2024, mais de 88% da geração veio de fontes renováveis. “Isso posiciona o país como candidato natural para ser referência em mineração sustentável”, acredita ela. O crescimento acelerado da energia solar e da eólica, especialmente no Nordeste, cria um excedente estrutural em determinados horários e locais. Justamente a região é a que registra os maiores percentuais de cortes, o que reflete, de um lado, a abundância de renováveis, e de outro, a limitação da rede de transmissão.

Baixo custo e instalação flexível

A mineração de bitcoins exige grande quantidade de energia, tanto para manter as máquinas em operação quanto para resfriá-las. O consumo contínuo e previsível tanto para manter as máquinas em operação, quanto para resfriá-las coloca a alta demanda energética da mineração de bitcoins como seu principal custo. Por isto, quanto mais barata e estável ela for, maior será a rentabilidade.

Para a coordenadora de Geração do Grupo Kroma, Mariana Cavalcanti (foto), este não é o único benefício. A mineração tem a vantagem de poder ser instalada em praticamente qualquer lugar, inclusive em regiões isoladas, onde geralmente estão localizadas usinas de fontes renováveis. “O fato permite aproveitar excedentes de energia solar e eólica que, de outra forma, seriam desperdiçados, ajudando a complementar o suprimento das mineradoras”, explica. Ela diz que, ainda assim, é necessário contar com uma fonte segura e estável de energia para garantir a continuidade das operações.

Mariana Cavalcanti, coordenadora de Geração do Grupo Kroma.
(Foto: Arquivo pessoal)

A coordenadora alerta que essa não é uma solução para o problema do corte de geração e sim parte dela. “Ainda é necessário investir em ampliar a capacidade de transmissão e distribuição, soluções de armazenamento, bem como incentivar investimentos para aumentar o consumo da energia excedente e dos novos projetos que estão para entrar em operação”, observa.

Data centers também proliferam

Com 16 anos de experiência no mercado de energia e como ex-assessor da ANEEL, Caio Alves (foto), head de regulação do Rolim Goulart Cardoso Advogados, acredita que com a entrada de vários empreendimentos em operação, o curtailment deverá se agravar nos próximos três a quatro anos, fato que está levando os empreendedores a buscarem soluções.

Caio Alves, head de regulação do Rolim Goulart Cardoso Advogados. (Foto: Arquivo pessoal)

Uma das alternativas para o destino da energia que não pode ser despachada via rede de distribuição é a criação de centros de consumo em áreas sujeitas ao corte e onde uma das possibilidades que mais tem chamado a atenção é a área de dados. Há uma proeminência de data centers no Brasil, bastante concentrados no Nordeste por conta do Complexo do Pecém e também do Rio Grande do Norte e outros estados. Isto também se deve à conexão Brasil-Europa e à ligação de cabo submarino. “O fato é que a posição geográfica do Nordeste favorece”, comenta.

A mineração de bitcoin, que tende a ser criticada nos países onde já se verifica o alto consumo energético associado, entretanto, já é um mercado consumidor. “O que pode ser problema para alguns, para nós é solução, porque se é possível instalar mineradores próximos de geradores sujeitos a cortes, a tendência é que isso traga soluções”, afirma. A primeira delas é para o próprio gerador que tem uma energia gerada e que, a princípio, é computada como prejuízo por não conseguir ser colocada no sistema, e que pode ser direcionada para a mineração.

Do ponto de vista do interesse nacional macro, a saída estabiliza a rede e pode ser usada como uma ferramenta de gerenciamento para diminuir o prejuízo, já que hoje o gerador fica impedido de jogar esta energia na rede. O ex-assessor da ANEEL entende que a médio e longo prazos é possível que o excedente comercializado com as mineradoras venha gerar ressarcimento para a Agência Reguladora.

Caio Alves alerta para algum risco de ressarcimento, já em discussão. E vê espaço ao minerador para a negociação de preços mais baixos desta energia excedente. Pelo modelo atual, no qual a mineradora pode ser instalada dentro das unidades geradoras, a energia consumida pode ser classificada como consumo interno, como se fosse para manutenção da própria usina, mas sujeito a regulações.

A recomendação do advogado é de que o gerador deixe claro os volumes destinados ao minerador para evitar problemas com a ANEEL, no caso de as discussões atuais a respeito de indenização virarem norma. “Se o gerador conseguiu vender esta energia ao minerador em qualquer modelo associativo precisa ficar registrado para responder a eventuais embaraços regulatórios que podem acontecer em qualquer negócio inovador”, finaliza.

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