A combinação entre tarifas protecionistas e o estilo destemperado de Trump produz instabilidade global com efeitos imprevisíveis. (Foto: Envato Elements)
A nova ordem geopolítica imposta pelo presidente Donald Trump, logo no início de seu mandato em 2025, está ancorada na aplicação direta de um artigo publicado por seu conselheiro Stephen Miran (novembro de 2024). Nesse texto, Miran apresenta um arcabouço teórico para reposicionar os Estados Unidos como polo atrativo de indústrias, reduzir o déficit comercial com o restante do mundo e diminuir o peso do dólar como principal reserva internacional, posição herdada desde Bretton Woods (1944).
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Segundo o autor, a raiz do problema dos “déficits gêmeos” norte-americanos (fiscal e de transações correntes) está na supervalorização do dólar, que reduz a competitividade das exportações. O dólar, por ser moeda segura, líquida e amplamente aceita, é estocado como reserva de valor em todo o mundo. Esse processo, no entanto, provoca desequilíbrios comerciais: apesar de a entrada de capitais estrangeiros para a compra de títulos do Tesouro compensar o balanço de pagamentos, a consequência é a recorrente perda de competitividade industrial e uma tendência à desindustrialização.
Miran propõe o uso de tarifas como mecanismo de correção. O encarecimento dos produtos importados reduziria o consumo interno, diminuiria a circulação de dólares no exterior, aumentaria a arrecadação do governo e poderia estimular a reindustrialização. Porém, os efeitos colaterais são claros: pressão inflacionária, perda de parceiros comerciais, queda de confiança e possíveis retaliações. Apesar disso, o governo Trump considera tais impactos mínimos e irrelevantes.
O recurso à desvalorização do dólar para reequilibrar o comércio exterior não é inédito. Em 1985, o Acordo Plaza reuniu França, Alemanha, Japão e Reino Unido em uma ação coordenada, a pedido dos EUA, para enfraquecer o dólar. Dois anos depois, o Acordo do Louvre reforçou essa estratégia. Hoje, o desafio central está na relação com a China. Seria possível imaginar um novo pacto multilateral com aliados estratégicos para conter os desequilíbrios cambiais, mas a atual condução política, marcada por orgulho e intransigência, inviabiliza esse tipo de negociação.
É inegável que, nas primeiras décadas do século XXI, os Estados Unidos vêm perdendo espaço como potência hegemônica, em especial para a economia chinesa. O diagnóstico de Miran (2024) é preciso; a dúvida está na “posologia” das medidas propostas. A combinação entre tarifas protecionistas e o estilo destemperado de Trump produz instabilidade global com efeitos imprevisíveis. Soma-se a isso a política antimigratória, carregada de ufanismo e xenofobia, que agrava a percepção negativa do país.
Ainda que a adoção de tarifas seja uma ferramenta viável, sua execução exige prudência e coordenação multilateral. O próprio Miran, em sua conclusão, reconhece que a medida é delicada e requer extremo cuidado para minimizar impactos adversos. O que se observa, no entanto, é justamente o contrário: a aplicação abrupta e autocrática de uma estratégia de alcance global.
Trump se apresenta como grande negociador, apoiado em sua trajetória empresarial. Talvez seja leitor assíduo de Robert Greene, autor de As 48 Leis do Poder (2000). Mas, ao contrário do que recomenda a lei 47 “Não ultrapasse seu objetivo inicial”, o presidente parece estar conduzindo sua política com excesso de confiança. Um paralelo histórico ilustra o risco: o rei persa Ciro, o Grande, ao ultrapassar os limites da prudência, foi derrotado pela rainha Tomiris, dos masságetas, que vingou a morte de seu filho decapitando Ciro e mergulhando sua cabeça em sangue.
Assim, a estratégia de tarifas pode até ter fundamentos econômicos, mas, conduzida sob o prisma da soberba política, ameaça repetir lições amargas da história.

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